COLUNA

Fabiana Moraes

Reforma não é cosmético — é dignidade

A arquitetura social é fundamental em um país no qual, segundo o Censo 2022, 8,1% da população brasileira vive em favelas e comunidades urbanas

29 de Abril de 2026

“Ah, mas para resolver isso aqui você tem que chamar um arquiteto”.

Todas as vezes que eu ouvi isso na minha vida, automaticamente meu cérebro criou duas imagens. A primeira: uma conta com valores altíssimos. A segunda: um aviso que dizia “querida, isso não é para você”.

Isso porque a própria palavra “arquitetura” era algo que tecnicamente passava longe, muito longe, do morro e dos conjuntos habitacionais onde cresci: nestes locais, muita gente é engenheiro, arquiteto, mestre de obra, pedreiro e designer de interiores ao mesmo tempo, de uma vez só. Isso nunca significou — atenção aqui — desprezo pelas importantes habilidades específicas de cada profissão citada, mas sim a necessidade de muitos dribles financeiros para se ter ou melhorar um lar.

Assim, esse (ou essa) super-ninja-faz-tudo é a pessoa que desenha e levanta a casa do chão; cava fundação; bate laje; cria um, dois, vinte “puxadinhos”. Muitas vezes, as ideias da casa perfeita acalentadas na cabeça e no coração ficam no papel. Daí, multiplicam-se as paredes sem rebocos, os pisos não finalizados e os banheiros sem qualquer louça sanitária: adolescente, cheguei a viver em uma casa cuja metade permaneceu só no tijolo aparente, sem estruturas para as janelas e, reparem, sem boa parte do teto. De certa forma, morei em uma “casa muito engraçada”. O motivo: no meio da construção, a grana da minha mãe acabou.

Assim, falar “chama um arquiteto” nesses cenários soava como piada ou mesmo afronta.

Quando vi pela primeira vez as imagens divulgadas por Ester Carro em seu perfil no Instagram, senti aquele rodopio no coração: casa pra mim é um negócio sério demais — e beleza também. Beleza deve ser lida aqui não somente em sua importante dimensão estética, mas atrelada à saúde, ao melhor viver, ao conforto, ao descanso. Nada disso existe em espaços mofados, sem iluminação, abafados, com sistemas elétricos expostos e precários, em casas cobertas pela metade. Ester, arquiteta nascida no Jardim Colombo, na Zona Oeste de São Paulo, compartilha da mesma percepção.

Ela, alinhada à pessoas que vivem na comunidade onde cresceu, criou o Instituto Fazendinhando e passou a realizar reformas em casas, casebres e mesmo cubículos (como foi o caso de Seu Basílio, que vive em um espaço de sete metros quadrados). Vi ali arquitetura pura voltada para conferir dignidade — algo que nunca, jamais, deveria ser um “acessório” de luxo.

São oficialmente 16,5 milhões de pessoas morando em 12.348 em aglomerados, morros, baixadas, vilas

A arquitetura social tocada pela professora e urbanista — trarei outros projetos semelhantes mais à frente do texto — é fundamental em um país no qual, segundo o Censo 2022, 8,1% da população brasileira vive emfavelas e comunidades urbanas. São oficialmente 16,5 milhões de pessoas morando em 12.348 em aglomerados, morros, baixadas, vilas.

“Desde os meus 16 anos, eu carrego comigo a mesma frase: eu quero ser arquiteta porque eu quero mudar a minha comunidade”, diz Ester, filha de um pai nordestino e de uma mãe sudestina. Ele trabalhou na construção civil durante muito tempo — também se tornou liderança comunitária. Já ela, a mãe, sustentou a família atuando como empregada doméstica. “Quando eu era criança e adolescente, eu não via referências de profissionais da arquitetura vindos da favela, parecidos comigo”, diz Ester.

O primeiro desejo era ser professora, mas um dia uma das suas melhores amigas jogou para ela a pergunta: “por que você não faz arquitetura?”. Naquele momento — Ester nasceu em 1994 — não tinha acesso fácil à internet. Falou da ideia para a família e aí a sua avó, também empregada doméstica, passou a trazer para a jovem revistas de arquitetura e decoração das casas onde trabalhava.

Dizia às empregadoras que a neta queria ser arquiteta, e, assim, aquelas páginas com um mundo até então distante começaram a ocupar a casa modesta da periferia. “Eu enxergava a arquitetura muito ligada à estética, à decoração, e não como uma ferramenta de transformação do território. Foi no meu último ano na escola que tudo começou a mudar. Eu precisava fazer um TCC sobre a profissão que gostaria de seguir. Fui para Paraisópolis acompanhar uma equipe que atuava em obras públicas. E aquilo mudou tudo.”

A necessidade de olhar para o que ela chama de “interiores invisíveis” era (e é) gigante: apesar de muito midiatizadas e filmes, jornais, músicas e redes sociais, as favelas e comunidades — ou melhor, as casas das favelas e comunidades — são pouco conhecidas lá dentro. “A gente está falando de famílias sem banheiro, de casas onde várias pessoas compartilham um único espaço sanitário, de moradias com 4, 7, 11 metros quadrados. Isso sempre existiu. Mas não era visto.”

Mas algo está mudando: hoje, ao observar o que circula nas redes, ela identifica um movimento que não pode ser ignorado — ainda que precise ser lido com cuidado. Arquitetos, designers e criadores de conteúdo (quase sempre das e nas periferias) passaram a compartilhar dicas de reforma, orientações práticas, o que fazer, o que evitar, como melhorar espaços com os recursos disponíveis.

Ao mesmo tempo, empresas ligadas à construção também entraram nesse fluxo, oferecendo conteúdos mais didáticos, passo a passo, modos de uso. “Eu realmente acredito que plataformas como Instagram e YouTube se tornaram ferramentas poderosas de transformação social nesse sentido.” Há um elemento central nessa engrenagem: a linguagem. Nas redes ela é mais direta, visual, prática. Ela rompe com barreiras que, muitas vezes, afastam grande parte da população de materiais técnicos tradicionais. “A informação chega de forma acessível. O conhecimento circula.”

Esse impacto já pode ser percebido no cotidiano. Há pessoas fazendo pequenas reformas em suas próprias casas (atenção: todo cuidado aqui, uma vez que a segurança continua a ser o valor maior), acompanhando profissionais, aprendendo, testando, adaptando soluções à sua realidade concreta. Não se trata apenas de consumo passivo, mas de um uso ativo da informação — algo que, de alguma forma, tensiona desigualdades históricas de acesso ao conhecimento técnico.

Mas falar em “democratização”, para Ester, parece um entusiasmo apressado. Ela afirma que a circulação ampliada de informação não resolve, por si só, as estruturas que produzem desigualdade no acesso à arquitetura e ao urbanismo de qualidade. A democratização exige presença concreta: mais profissionais atuando diretamente nos territórios, especialmente nas favelas, com apoio estruturado — e aqui o papel do poder público é incontornável.

Um outro ponto é o perigo de uma certa romantização do perrengue, da ausência de estrutura, algo que eu já vi em alguns posts na linha do “a favela venceu. Na justa vontade de apontar a força também presente na pobreza, termina-se colocando “um filtro Paris” do Instagram sobre a mesma. “Reconhecer a potência da arquitetura das favelas é valorizar a inteligência, a criatividade e as soluções que nascem desses territórios”, observa Ester, mas esse reconhecimento não pode escorregar para outro lugar, o da romantização. Romantizar é operar uma inversão perversa: transformar a falta em virtude, atribuir beleza àquilo que é, na verdade, expressão de ausência de direitos. É olhar para a casa sem ventilação, para o banheiro inexistente, para o adensamento extremo, e nomear isso como “autêntico”, como se a precariedade pudesse ser celebrada.

A precariedade não é linguagem estética, mas um problema estrutural.

É nesse ponto que a distinção se torna ética: valorizar soluções não significa achar comum a falta. Há uma diferença fundamental entre reconhecer quem cria alternativas em condições adversas e aceitar que essas condições permaneçam. “Eu valorizo as soluções, mas nunca normalizo a falta de direitos.”

Ester aponta para alguns movimentos importantes acontecendo em todo o país. “Especialmente quando a gente olha para produções do Norte e do Nordeste, que começam, aos poucos, a ganhar mais reconhecimento. Mas ainda é pouco. Ainda existe uma grande invisibilidade. Eu costumo dizer, com muita convicção: existe arquitetura na favela. E mais do que isso, muitas das soluções que hoje estão ‘na moda’ vieram desses territórios.”

RESISTÊNCIA, CRIATIVIDADE E MAINHA

Falando em Nordeste, um projeto popular que se impôs ao combinar inteligência e simplicidade ganhou mais tração e interesse nos últimos meses: a Casa de Mainha, obra do arquiteto José Vagner (ou simplesmente Zé, O Arquiteto) ganhou o cobiçado prêmio internacional Arch Daily.

A casa, antes de ser forma ou imagem viralizável, é uso

A residência premiada (em Feira Nova, agreste de Pernambuco) não é um case exemplar no sentido clássico. Não há a promessa de solução replicável, nem o conforto de um projeto acabado. O que existe é processo: a casa, muito simples, foi sendo ajustada a partir de decisões que respondem menos a um ideal de arquitetura e mais às condições concretas de existência. Abrir um vão para permitir ventilação cruzada, reposicionar um cômodo para melhorar a circulação, aproveitar melhor a luz natural (e tome cobogós, adoro). Ao olhar para experiências como a de Zé, o que se evidencia é uma arquitetura que não chega pronta, que não se impõe, mas que negocia. Que entende que a casa, antes de ser forma ou imagem viralizável, é uso.

Em Recife, a design de interiores Tatiana Batista da Silva, 31 anos, criou o projeto Muda Sargento para levar até casas populares do bairro do Córrego do Sargento (Recife) conhecimento técnico atravessado pela realidade local — uma tentativa de aproximar saberes que, historicamente, foram mantidos à distância.

A equipe do projeto Muda Sargento em ação na casa de casa de Dona Luiza, moradora do bairro do Córrego do Sargento (Recife)  

Uma das reformas realizadas pela designer foi feita na casa de Dona Luiza, antiga moradora do Córrego, em 2020. “O principal problema da casa eram os pisos, principalmente da sala e do banheiro. Eram antigos e vinham cedendo. O banheiro não tinha uma porta adequada, a encanação para o chuveiro não estava legal, as paredes não eram rebocadas ainda”, conta Tatiana. O Muda Sargento realizou intervenções como pintura, restauração de móveis, melhoria do piso e reformas do banheiro.

As casas nos morros e periferias são marcadas por ausências estruturais, não por descuido, mas por um modo de construção que se dá no tempo possível, no dinheiro disponível, no improviso necessário

A iniciativa, no entanto, esbarrou em um obstáculo recorrente nesses intentos: a falta de recursos. Sem financiamento, ela me conta, o projeto não teve continuidade. Ainda assim, o desejo de retomar as reformas permanece. As casas nos morros e periferias, descreve a designer, são marcadas por ausências estruturais (ventilação inadequada, pouca iluminação natural, organização comprometida). Não por descuido, mas por um modo de construção que se dá no tempo possível, no dinheiro disponível, no improviso necessário. “Muitas dessas moradias são construídas aos poucos, com os recursos disponíveis no momento, o que faz com que o ambiente nem sempre seja pensado de forma estratégica.”

A casa de Dona Luiza antes (à esq.) e depois da intervenção da designer Tatiana Batista da Silva, do projeto Muda Sargento  

Mas seria um erro olhar apenas para a falta. O que atravessa esses espaços, de forma insistente, é pura inteligência. “Existe uma força muito presente: a resistência e a criatividade de quem vive nesses espaços.” O fato é que, mesmo com poucos recursos, há cuidado, há escolha, há tentativa. “É possível perceber o cuidado, o esforço e o desejo de transformar a casa em um lugar melhor”, fala Tatiana.

A arquitetura é coletiva

Ester também aponta para a inteligência arquitetônica presente nas soluções vindas de áreas empobrecidas. “O uso do cobogó, por exemplo, como alternativa à falta de ventilação e iluminação em áreas muito adensadas. O uso de mosaicos, de materiais reaproveitados, de composições feitas com o que está disponível. Tudo isso é arquitetura. Tudo isso é inteligência construtiva. Mas, ainda assim, quando se fala de favela, o que vem à mente de muita gente é algo marginalizado, precário, inferior. E é esse olhar que precisa ser transformado. Porque a arquitetura nunca foi e nunca será um trabalho individual. A arquitetura é coletiva.”

É preciso sublinhar a questão de gênero e raça presente na arquitetura social — não exatamente por escolha, mas pelo próprio desenho socioeconômico do país. Quase 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo — essa concentração é maior justamente no Norte e Nordeste. Noventa por cento delas são negras.

Essa realidade é traduzida pelas casas depauperadas que são vistas nas imagens dos projetos. Ester conta:

“Recentemente, entrei em uma casa de cerca de 12 metros quadrados. Ali vivia uma mãe com três filhos, todos dormindo no mesmo espaço e sem banheiro. Aquilo me atravessou de um jeito muito forte. Saber que ela já tinha tentado, várias vezes, conseguir apoio do ex-companheiro para construir um banheiro e sempre teve esse pedido negado tornou tudo ainda mais difícil. Ao mesmo tempo, a casa, apesar de extremamente precária, era muito organizada, limpa, cheia de cuidado. Dava para perceber, nos detalhes, o carinho dela com os filhos. Essa será uma das próximas casas que vamos reformar. E eu não tenho dúvida de que, depois da intervenção, ela vai valorizar ainda mais esse espaço, não só pelo que será construído, mas pelo que aquilo representa.”

Mais projetos para conhecer – e apoiar:

1. habitat Brasil

2. Dona Obra

3. Arquitetura Hub Lar

4. Arq Podemos

5. Instituto Arquitetos da Favela

6. Viva Arquitetura Popular

7. Arquitetura na Periferia

8. Casas populares de Paudalho

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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