Divulgação

CV: Gabriela Biló

Em entrevista a Gama, vencedora do Prêmio Gabo 2026 reflete sobre sua missão no fotojornalismo e comenta os maiores desafios dessa carreira

Fredy Alexandrakis 19 de Agosto de 2026

Gabriela Biló atendeu à chamada da revista Gama enquanto viajava pela estrada em Sergipe, rumo a Aracaju. Menos de um mês após receber um dos maiores reconhecimentos do jornalismo ibero-americano, o Prêmio Gabo, a fotojornalista está começando uma turnê para a divulgação do seu novo livro “Juízo Final”, lançamento da editora Fósforo e feito em parceria com a equipe do podcast “Medo e Delírio em Brasília” — Cristiano Botafogo, um dos apresentadores, é quem estava atrás do volante durante a entrevista.

Biló foi premiada na categoria fotografia pelo ensaio “Como sobrevivem as democracias”, uma série feita para o jornal Folha de S.Paulo, em cobertura do julgamento e condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal por seu envolvimento na tentativa de golpe de Estado que culminou nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2024, em Brasília. Desde 2019, a fotógrafa mora na capital, de onde já fez registros emblemáticos da política nacional — a insurreição bolsonarista foi tema de outro trabalho homenageado com menção honrosa no World Press Photo, prêmio mais prestigioso do fotojornalismo internacional.

Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada – 10.10.2022
Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada – 10.10.2022
Gabriela Biló/Folha de São Paulo

Apresentado pela Fundação Gabo, criada em 1995 pelo escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez (apelidado “Gabo”), o prêmio Gabo é talvez o maior da carreira de Biló até agora, considera. Na cerimônia, em 24 de julho, ela comentou que observar a resiliência das instituições democráticas brasileiras é algo que lhe traz “um pouco de esperança”. Em texto justificando a escolha da vencedora, o júri elogiou o tratamento “impecável” de um tema que teve “enorme repercussão internacional”. O Brasil foi destaque na edição deste ano, com vitórias em outras duas categorias: a reportagem multimídia “A Política da Bala”, do jornal Metrópoles, e o documentário “Terceirão: Um Ano, Quatro Vidas”, da TV Globo, também foram premiados.

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É difícil escolher a conquista mais importante em uma carreira como a de Biló, que já foi duas vezes vencedora do Troféu Mulher Imprensa, homenageada com menção honrosa pelo Prêmio Vladimir Herzog e ganhadora do Jabuti na categoria artes por seu primeiro livro, “A Verdade vos Libertará”. Também criado em parceria com o podcast “Medo e Delírio” e com o designer Pedro Inoue, o volume traz imagens da política brasileira de 2013 a 2023.

Seu novo título, “Juízo Final”, traça a trajetória de Bolsonaro em 80 fotografias que ajudam a compreender a sua condenação em 2025. Em entrevista a Gama, Biló comenta a vitória no Prêmio Gabo 2026, reflete sobre sua missão no fotojornalismo e comenta os maiores desafios dessa carreira.

Não sou ninguém para ‘dar voz’ a alguém, o que posso fazer é criar espaços com informação para que as pessoas consigam formar suas próprias opiniões

  • G |Em julho, você venceu o prêmio Gabo 2026 na categoria fotografia com o ensaio “Como sobrevivem as democracias”. O que este prêmio representa para você e para a sua carreira?

    Gabriela Biló |

    É um dos maiores prêmios de jornalismo do mundo, então não tem como não estar muito feliz. Eu já ganhei menção honrosa no World Press Photo, que pertence ao mundo da fotografia, mas acho que o Gabo é mais reconhecido, porque premia jornalistas em diferentes mídias. Acho que é o maior prêmio da minha carreira nesse sentido. Fico especialmente feliz com a visibilidade conferida a um assunto tão árido como um julgamento e uma condenação. O tema é de extrema importância, mas as fotos não são tão impactantes, então ter esse olhar para um assunto que me acompanhou por anos foi muito emocionante. Quando eu fotografei, já entendia que era um momento histórico do país.

  • G |Sua série traz uma mensagem sobre a resiliência das nossas instituições democráticas. Você se considera uma pessoa otimista?

    GB |

    Eu me considero uma pessoa otimista, mas acho que essa série é mais sobre resiliência do que otimismo. É uma coisa que ainda não está resolvida, acho que é disso que o ensaio fala, que a luta continua.

À esq.: Desfile na Esplanada dos Ministérios – 10.08.2021. À dir.: Congresso Nacional – 10.10.2022
À esq.: Desfile na Esplanada dos Ministérios – 10.08.2021. À dir.: Congresso Nacional – 10.10.2022
À esq.: Gabriela Biló/O Estado de S. Paulo. À dir.: Gabriela Biló/Folha de S.Paulo
  • G |Qual a sua missão na sua profissão?

    Gabriela Biló |

    Acredito que o meu trabalho é democratizar a informação pelas imagens para que as pessoas possam formar suas próprias opiniões e defender seus pontos de vista com embasamento — pensando aí também no número de analfabetos funcionais que temos no Brasil. Quando eu era mais jovem, achava que meu trabalho era dar voz a quem não tinha. Hoje eu acho que fui extremamente arrogante de ter pensado assim, mas eu era muito jovem. Não sou ninguém para “dar voz” a alguém, o que eu posso fazer é criar espaços com informação para que essas pessoas consigam defender seus próprios pontos de vista, então a minha missão dentro do fotojornalismo já mudou muito.

Tentei muito ser ‘um dos caras’ quando era mais nova, mas encontrei mais acolhimento ao desenvolver referências de mulheres fotojornalistas

  • G |Para atuar na sua área, o que um bom profissional precisa saber?

    GB |

    Precisa saber ser curioso e ir atrás da apuração, tentar entender as coisas. Acho que é mais um traço de personalidade, ter essa curiosidade dentro de si. Para fazer uma boa imagem, você precisa entender o que está acontecendo. Senão, você pode até ter o clique, mas não vai saber o significado e o valor da imagem que você fez. Uma grande foto é feita da aliança da estética com a informação — quando você tem uma foto que informa e também se resolve esteticamente naquele milésimo de segundo. Ela consegue transmitir em instantes toda uma apuração, ou uma parte daquilo que você quer apresentar, e o ideal é que tenha uma boa estética também.

  • G |Como você enfrenta o machismo no mercado de trabalho?

    GB |

    Com resiliência. O machismo existe em todas as profissões, é muito difícil ser reconhecida como mulher — você precisa fazer o dobro para ser reconhecida como igual. Tentei muito ser “um dos caras” quando eu era mais nova, era importante para mim esse sentimento de pertencimento. Mas, na verdade, encontrei mais acolhimento ao desenvolver referências de mulheres fotojornalistas. Isso me fez bem e me ajudou a perseverar. Quando a gente pensa no fotojornalismo de 30, 40 anos atrás, o cenário era muito pior [para as mulheres], então me inspiro muito na história das outras que vieram antes de mim. Por isso, hoje foco mais no meu trabalho e espero que ele fale por si só.

  • G |Você teve um mentor ou se inspira em algum outro fotojornalista?

    GB |

    Nunca tive um mentor, mas tenho minhas inspirações. Posso citar Ana Caroline Fernandes, Marlene Bergamo, Annie Leibovitz — gosto muito das fotos dela. Também gosto de me inspirar na fotografia de música, nas artes, na pintura. Entre os homens, Orlando Brito é uma referência, Evandro Teixeira também. Mas minha referência máxima, inatingível, magnânima é Claudia Andujar, sou muito fã do trabalho dela.

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