COLUNA

Fernando Luna

A alegria sacode-se como um cão ao sair da água

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre um frila de padre, a forma da água (H2O, não o filme), os selvagens das bicicletas e a mais ridícula manifestação da raiva

08 de Junho de 2026

A alegria sacode-se como um cão ao sair da água
José Tolentino Mendonça, 2021
Antologia Profética

Aproveitei o feriadão pra fazer um frila de padre.

Foi uma desforra, décadas após certos padres agostinianos me convidarem a procurar outro colégio, ao final de um ano escolar vivido de maneira particularmente intensa. E eles não sabiam da missa a metade.

Fui pro Rio casar meu irmãozinho – embora ele não seja “inho” desde os 14 anos, quando começou a frequentar halteres, devorar cumbucas de açaí e treinar jiu-jitsu. Irmão mais novo sempre será irmãozinho.

Ele é piloto de helicóptero, o que talvez tenha feito a noiva sonhar com uma romântica chuva de pétalas abrindo a cerimônia. Em vez disso, caí eu no meio do jardim cheio de flores brancas. Melhor assim: o casamento começou com um choque de realidade.

Mas a verdade é que o Duda e a Dani já sabiam da vida como ela é: moram juntos há dois anos, prazo mais que suficiente pra um test-drive afetivo. Se na prática tavam casados, por que se dar à trabalheira e à gastança de organizar um festão de casamento?

Porque amor não é pra guardar, é pra compartilhar: com a família sempre na torcida pela felicidade, com a amiga que apresentou os dois, com os camaradas que acompanharam o contatinho virar ficante, a ficante virar namorada, a namorada virar noiva e, finalmente, a noiva virar mulher – pelo poder a mim concedido, modestamente.

Todo mundo reunido pelo amor, numa alegria que assovia no silêncio da noite, como escreveu o português José Tolentino de Mendonça, ele sim padre de verdade, tão padre que virou cardeal. Uma alegria labradora, que se sacode como um cão ao sair da água.

Ainda descobri que tem um negócio aí.

Um convidado me contou de uma amiga que virou celebrante – pois é, o nome técnico pra frila de padre é “celebrante” – e cobra 12 mil reais por casamento. Doze mil pra participar da festa mais legal que existe.

E eu aqui, lutando com as palavras por um punhado de dólares – ou pior, de reais.

Amor é o que chamo de mar, é o que chamo de água
Olga Savary, 1987

Diz que no segundo dia Deus fez o firmamento e separou as águas.

Deixou água acima do céu, abaixo do céu e pronto. De lá pra cá, a humanidade deu de entuchar água em todo canto, nas mais variadas embalagens. Significa? Significa. Senão, vejamos:

Garrafinha PET – A simpática sigla de bicho de estimação fez um rebranding e tanto no polietileno tereftalato, polímero termoplástico que costuma ser jogado por aí, agonizando até 600 anos na natureza.

Garrafinha PET molenga – Irritante e barulhenta. Faz “crek-crek” enquanto você tenta calibrar a pressão dos dedos, pra garrafinha não colapsar na sua mão. Torço pra que o sacrifício do consumidor contribua pra segurar o aquecimento global em 1,5 °C – mas duvido.

Copinho de plástico – O lumpemproletariado da água. Cabe pouco líquido e, ainda por cima, parte dele é derramado na tentativa de abrir a imprevisível tampa de alumínio. Vem caindo em desuso, são águas passadas.

Tetra Pak – Água na caixa é um curto-circuito no código da categoria. Nasci e cresci chamando isso de embalagem de “leite longa vida” – nome encantador, aliás, pra secreção de glândulas mamárias bovinas capaz de resistir por seis meses fora da geladeira.

Lata – Outra dissonância cognitiva. Latinha é pra cerveja ou refrigerante, capazes de produzir aquele adorável barulhinho, “tsssss”, antecipando o prazer do álcool ou do açúcar. Não combina com algo insípido, inodoro e incolor.

Garrafa de vidro – Parabéns, você tá num restaurante de verdade.

Torneira – Parabéns, você tá num país cujo saneamento básico vai muito além do básico. Pode beber direto da bica sem medo de pegar uma gastroenterite.

Garrafa térmica – Parabéns, você tá fazendo sua parte pra reduzir o impacto ambiental sem desidratar.

Olga Savary – A poeta irriga seus versos quentes com diversas metáforas em torno da água, como no poema “Iraruca”, do livro “Linha d’Água”.

Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar. E isso diz muito sobre minha caixa torácica
Matilde Campilho, 2014

Saudade de quando o maior perigo duma caminhada pelo quarteirão era um eventual desnível no calçamento ou um cocô de cachorro esquecido ali.

Agora é preciso escapar das bicicletas que zunem em todas as direções e sentidos, fazendo do passeio público uma área de risco – até mesmo quando tem uma ciclovia ali ao lado.

Um pulinho na padaria significa atravessar a terra de ninguém duma guerra não declarada. Do nada, ciclistas desabalados tiram finos em alta velocidade, como drones de duas rodas.

Com sorte não é assalto, só um entregador de aplicativo pedalando contra o algoritmo pra chegar a tempo no destino – ele é ao mesmo tempo vítima da precarização do trabalho e algoz dos pedestres.

Se existe algo parecido com educação de trânsito neste país, falta aplicar o método Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

Cansado de ser escorraçado do asfalto por ônibus, carros e motos, o selvagem da bicicleta faz da calçada sua pista de corrida – escorraçando os pedestres que, sem ter pra onde ir, apenas tentam sobreviver até a próxima esquina.

Perto da imprudência dos ciclistas de calçada, os motoboys parecem tão disciplinados quanto um chofer inglês. A bicicleta, tadinha, enfrenta uma crise de reputação só comparável a de Flávio Bolsonaro.

Com o agravante de que, ao contrário do 01 – entre rachadinhas e rolos imobiliários, ele nunca teve exatamente um nome a zelar –, a bicicleta parecia uma solução sem contraindicações pra alguns problemas nacionais.

Economia, meio ambiente, saúde pública e mobilidade seriam beneficiados por esse meio de transporte mais barato, mais ecológico, mais cardiovascular e mais ágil.

E mais romântico também, com o toque de ironia de Matilde Campilho: “Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.// E isso diz muito sobre minha caixa torácica”.

Não há bons ventos para nau sem rumo
Carlos Vogt, 2007

O chilique é a manifestação mais ridícula da raiva.

Tem algo de risível, graças à desproporção entre ação e reação: uma frustração minúscula provoca uma reação gigantesca. Rende infinitos cliques nas redes sociais, quando devidamente documentado por celulares ou câmeras de segurança.

Em priscas eras – adoro “priscas eras”, expressão tão antiga quanto aquilo que nomeia –, até produzia algo além de vergonha alheia. Foi o caso da “Ilíada”, obra-prima fundadora do Ocidente, que só existe graças ao faniquito épico do Aquiles.

Quando o chefe confiscou sua mulher-butim favorita – o departamento de RH das tropas gregas deixava a desejar, pra não falar nas questões de gênero –, o herói emburrou. Trocou a batalha pela barraca, deixando os coleguinhas serem massacrados pelos troianos por umas 200 páginas.

Mas sem Homero pra contar a história, o chilique é apenas patético. Taí a semana passada que não me deixa mentir: foram três exemplos em rede nacional.

Primeiro, Neymar deu uns sopapos no Robinho Jr. após tomar um drible no treino. Eu sei, eu sei: se houvesse uma Escala de Chilique, a unidade de medida seria “Neymar”. Desde a Copa da Rússia, ele rola nos gramados aos berros, vítima de tentativas de assassinato imaginárias.

Depois foi a vez, mais uma vez, do Ed Motta. Bem, se Neymar é o “Celsius” na Escala de Chilique, Ed é o “Fahrenheit”: medem a mesmíssima coisa, com graduações diferentes. O cantor ficou melindrado com a taxa de rolha do restaurante e, uiuiui, atirou uma cadeira na direção do garçom.

Finalmente, a mulher da franja de Cebolinha. Descontente com o corte de cabelo, voltou ao salão pra tirar satisfações – e cortou o próprio cabeleireiro. O piti se misturou com surto e passou perto da tragédia. Mas, francamente, ela ficou melhor com o penteado novo.

Parecem três figuras à deriva. Como escreveu Carlos Vogt, “Não há bons ventos/ para nau sem rumo”.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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