COLUNA

Fernando Luna

Viver é construir um navio e um porto

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre robôs nas ruas, uma antropologia da saudade, mudanças aos 8 e aos 80 anos (mais ou menos) e o fim do Carnaval

23 de Março de 2026

Viver é construir
um navio e um porto
ao mesmo tempo.
E terminar o porto
muito depois
do navio afundar

Yehuda Amichai, 1976
Antologia Profética

Há dez anos fui pela primeira vez ao South by Southwest, o maior festival de inovação do planeta.

Logo na primeira noite, dei de cara com três caras chegando a cavalo no que se tornaria meu lugar favorito de Austin, o White Horse, um tradicional honky-tonk.

Traduzindo: um bar meio tosco, onde uma banda toca country num palco apertado, enquanto os locais rodopiam com chapéu e botas de caubói pelo piso de madeira.

Esse pedacinho do Velho Oeste fica no centro da capital do segundo estado mais rico dos Estados Unidos, o país mais endinheirado do mundo.

(O PIB do Texas, com seus 31 milhões de habitantes, é praticamente igual ao do Brasil, com 212 milhões de população.)

Pois semana passada, uma década após cruzar com esses cavaleiros de filme de época, encontrei dezenas de robôs zanzando pela cidade num clima de ficção científica.

IA é salvação ou perdição? Dá pra regular um gênio que parece já ter saído da garrafa?

De volta para o futuro, pedi um táxi no aplicativo. Abriu um pop-up, perguntando se eu topava uma viagem de Waymo, o veículo autônomo do Google.

Amigo app, pensei, sou do Rio de Janeiro. Tô acostumado a entrar em Meriva 2014 com taxista desabalado pelo Aterro do Flamengo, encarando o retrovisor pra me contar alguma história bizarra em vez de olhar pra frente.

Os robotáxis não tão sozinhos por lá.

Robôs de entrega de comida circulam pelas calçadas. Disciplinados, mantêm distância segura dos passantes e só atravessam nas faixas de pedestres. São umas caixas retangulares sobre rodinhas, com uma bandeirola vermelha pra chamar atenção e evitar tropeções de Homo sapiens distraídos.

Enfim, agora é oficial: a inteligência artificial escapou do ciberespaço e ganhou o mundo físico.

Cientistas, futuristas e palpiteiros tão divididos. IA é salvação ou perdição? Dá pra regular um gênio que parece já ter saído da garrafa? Ou estamos como nos versos de Yehuda Amichai, construindo um porto para um navio que já afundou?

Que saudade da saudade
Gilka Machado, 1928

Só não sente saudade quem não vive, escreveu Roberto DaMatta no ensaio “Antropologia da saudade”, em 1992.

Ele tinha 55 anos na época, bem vividos.

Já havia feito suas pesquisas etnográficas entre os povos indígenas Gavião e Apinajé. Depois, secou o suor da floresta equatorial nos ares gelados de Harvard, onde cursou mestrado e doutorado.

De volta dos EUA, mudou de rumo. Em vez de estudar aldeias remotas, passou a investigar o que acontecia ao seu redor. Encarou as contradições da sua própria sociedade, do Brasil urbano.

Publicou dois livros obrigatórios em qualquer Brasiliana: “Carnavais, Malandros e Heróis” e “A Casa e a Rua”.

Encontrou na frase “Você sabe com quem está falando?” a síntese de um país onde as relações pessoais atropelam a impessoalidade da lei — onde um picareta dono de banco é protegido da justiça por amigos poderosos.

Em meio a tudo isso, casou com a namorada da faculdade e teve três filhos.

A vida passou. Lançou outros livros, deu milhares de aulas em universidades, estampou centenas de colunas em jornais. Perdeu um filho pro infarto e a esposa pro Alzheimer. Chorou seus mortos e se apaixonou de novo.

No sábado, décadas depois de começar a ler seus textos nas xerox da faculdade, entrevistei o antropólogo no Festival Fronteiras, ao lado do cientista político Fernando Schüler.

Tão impressionante quanto a trajetória é seu entusiasmo insistente com a vida, aos 89 anos. De onde vem isso? Acredita numa transcendência, num deus?

“Tenho dificuldade de acreditar”, contou. “A experiência de perder e de ganhar, a dor e o prazer que o corpo proporciona, tudo isso é absolutamente maravilhoso, boçalmente incrível. A pulsão da vida tá aqui, não acredito que exista noutro lugar.”

No final daquele ensaio sobre saudade, DaMatta cita o verso da poeta Gilka Machado. Depois da conversa, entendi: saudade é falta e afeto, mas também é ímpeto e desejo.

Numa porta aberta se entra
Pierre Albert-Birot, 1945

Por uma coincidência, dessas que até podem não significar nada, mas ainda assim são bonitas de reparar, uma menina de nove anos e uma senhora de 82 vão mudar de casa quase ao mesmo tempo.

Uma e outra, separadas por 73 anos de diferença e 450 quilômetros de distância — a criança é paulistana, a mulher, carioca —, enfrentam o mesmo conflito: vontade de ir, medo de partir.

A criança passou a vida toda ali. São apenas nove anos? Parece pouco, mas é tudo que ela tem: saiu da maternidade direto pra rua Brasílio Machado. Aquele apartamento térreo é seu berço.

Já a mulher viveu quase 40 anos no mesmo endereço. Subiu e desceu milhares de vezes a escada de madeira em caracol. Viu tanto o sol se pôr atrás dos morros que às vezes nem prestou atenção.

Elas ainda não se encontraram. Preciso resolver isso logo, fazer as devidas apresentações. Vão gostar de conversar, são boas de papo.

Conheço a menina há um ano.

No começo, gostava dela indiretamente — um efeito colateral de gostar cada vez mais da mãe dela. Logo o afeto dispensou intermediários: ela sabe ser doce e debochada, além de ter o diastema mais sorridente que já vi.

A mulher, essa conheço desde que nasci.

Antes de nascer, até. Morei na barriga dela: o sobe e desce do seu diafragma me embalou por nove meses. Era sua voz que eu ouvia lá de dentro. Agora, cada um numa cidade, escuto pelo celular — um cordão umbilical 5G.

A criança tem medo de esquecer o apartamento antigo. Mais ainda: teme que, esquecendo seus cantos e espaços, perca também todas as lembranças boas do que viveu ali.

Já a senhora vacila diante da possibilidade de não se adaptar à vida nova. A casa é nosso canto no mundo, e ainda oferece uma confortável ilusão de estabilidade: precisava quebrar o encanto logo agora?

As duas, corajosas, não recuam: sabem que numa porta aberta se entra.

O pandeiro bate é dentro do peito
Carlos Drummond de Andrade, 1934

Teoricamente, acabou o Carnaval. Mas nunca se sabe.

*
Na dúvida, voltei pra rua no final de semana. Quarta-feira de Cinzas é apenas um aceno burocrático do calendário. Convém ignorar.

Gosto de começar cedo, porque Carnaval é bagunça e, ao mesmo tempo, não é bagunça. Meus blocos favoritos me tiram de casa antes das 7 da matina — lugar quente é na cama ou então no Bola Preta.

Dali em diante, vou atrás do trio elétrico, da próxima fanfarra ou da localização compartilhada em tempo real por um amigo, emendando um cortejo no outro até confundir Xeque Mate com Catuaba Selvagem.

*
Leque virou o instrumento de percussão perfeito: marca os tempos fortes do compasso e ainda refresca o ritmista improvisado. Chora, cuíca.

*
Após anos de estudo, posso afirmar que o bloco perfeito não é mega — impossível se mexer, quanto mais sambar — nem mini —, precisa estar cheio o suficiente pra pochete enganchar na meia-arrastão.

E, sem preconceito ou mania de passado, tem que tocar samba e marchinha.

Nem vem com coisas tipo Beatles em ritmo de pagode, uma piada longa demais e tão aborrecida quanto Beatles na orquestra sinfônica. Os Fab Four de fevereiro: Braguinha, Silas de Oliveira, Zé Roberto Kelly e Dona Ivone Lara.

*
Uma questão de gênero percussiva: se as baterias dos blocos de rua têm tantas mulheres tocando, por que elas ainda são minoria absoluta nas escolas de samba? Vale uma paradinha pra ver isso aí, Liesa.

*
Carlos Drummond de Andrade publicou o poema “Um homem e seu carnaval” no seu segundo livro, “Brejo das Almas”.

O poeta atrás do bigodinho era sério, simples e forte, mas virou tema do desfile da Mangueira meses antes de morrer, em 1987. Foi gauche na vida e campeão do maior show da Terra.

*
Voltando pra casa depois do último bloco, passei por uma vitrine que exibia um ovo de Páscoa. Páscoa! Teoricamente, acabou o Carnaval. Mas nunca se sabe.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação