COLUNA

Fernando Luna

Um mapa para se perder

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre uma baleia verde, um secador de cabelo fitness, uma IA descontrolada, um aperto na Lua e onze minutos infinitos

04 de Maio de 2026

Desenhe um mapa para se perder

Yoko Ono, 1964

Moro de frente pro mar – ou quase.

Meu apartamento fica diante do Iate Clube de Santos. Apesar do nome, não tá em Santos, mas no centro de São Paulo, cidade que não chega a ser conhecida pela orla marítima. De seu promenade se avistam somente cardumes de motoboys.

(Curiosamente, não faltam por aqui carros com engates de reboque. Nenhum deles, porém, jamais transportou um barquinho ou ao menos um jet ski até a água. O acessório apenas evita arranhões no para-choque traseiro.)

A 60 quilômetros do litoral, só mesmo pedindo licença poética pra chamar de Iate Clube. Cravado diante do palacete onde funciona a sede, um atrevido mastro branco com cruzetas, cabos e bandeiras, como se houvesse um veleiro ancorado debaixo da terra.

Mas o que salta no seu jardim é uma baleia – ou quase.

Falo de uma árvore imensa, aprumada como um daqueles cachalotes descansando na vertical. Os galhos mais altos dessa figueira-benjamim ultrapassam minha varanda, atracada no décimo andar. Na copa caberiam facilmente cinco ou seis apartamentos com pé-direito duplo.

Nos dias mais quentes, quero virar um Jonas e aproveitar a barriga arredondada da sua sombra pra escapar do calor – o clube, contudo, abre apenas pra eventos privados. Tenho que me contentar com os ramos que saltam pro lado de cá do muro, protegendo o passeio público da fritura do sol.

Quando espio aqui do alto aquela massa verde, como agora – um olho na tela do laptop, outro na janela –, esqueço um pouquinho das obrigações, das notificações e de mim, enquanto vejo as folhas balançarem com a brisa, fazendo marola no ar. Sentimento oceânico é isso aí.

Ao norte da árvore-baleia, ainda avisto a Serra da Cantareira, terra firme após um mar de prédios. A leste, o Edifício Copan, com suas ondulações de concreto. A oeste, no fim da rua, a casa da Laura, porto seguro. É nesse mapa que gosto de me perder.

É doce a melodia que se escuta; mais ainda, aquela que não se ouve

John Keats, 1819

Faço academia dentro de um secador de cabelo.

Mas não foi sempre assim.

Até a semana passada era um lugar comum, com duplo sentido, pra quem queria se exercitar: esteiras, halteres, colchonetes, bicicletas ergométricas, anilhas, barras, filas pra revezar os aparelhos de musculação e um inofensivo som ambiente.

Eis que chego pro que seria mais uma manhã de treino – dizer “treino” faz com que eu me sinta um Isaquias Queiroz, em vez de um senhor de meia-idade fazendo elevação lateral de 3 quilinhos – e sou surpreendido por um pancadão sonoro.

Música eletrônica no talo, como numa rave extemporânea ou numa cena de “Sirât” em que apenas os tímpanos explodem. Baixei um aplicativo desses que medem ruído, pra checar se eu não tava ouvindo coisas.

Resultado: 94,4 decibéis. Equivalente, informa o app, ao barulho de um secador de cabelo. Antes que escalasse pra “Local de Construção”, com 100 dB, fui tentar reduzir os danos pra “Aspirador de Pó”, 80 dB.

Apelei a um funcionário.

– Dá pra diminuir um pouquinho o volume?

– O quê?! – gritou.

– O som – gritei mais alto.

– Ah, já vieram umas doze pessoas reclamar.

– E não dá pra baixar?

Não, não dava. Ordens superiores. Chama o coordenador? Nem adianta, a determinação veio de cima dele. Deixa falar com o gerente, então? Ele também não pode fazer nada. A raiva que eu começava a sentir virou solidariedade:

– Imagina eu, que passo o dia inteiro aqui.

De fato. E com o sistema de som configurado remotamente, era impossível mexer em qualquer coisa dali. Resignado, aumentei o volume dos meus fones de ouvido – se é pra ficar surdo, prefiro escolher a trilha.

Mesmo com a função de cancelamento de ruído ativada, o TCHUM-TCHUM-TCHUM-TCHUM vazava pra dentro da minha cabeça. Vou trocar por protetores auriculares e abafar o caso: “É doce a melodia que se escuta”, escreveu John Keats, “Mais ainda, aquela que não se ouve”.

“Mais tarde” não existe

Rosa Oliveira, 2017

A inteligência artificial saiu de controle?

A Anthropic, uma das principais empresas do setor, divulgou na semana passada um comunicado inquietante. Dizia que seu novo modelo de IA, Claude Mythos, escapou do cercadinho virtual de testes.

Pior: a criatura digital ainda publicou em sites obscuros como havia conseguido realizar a façanha. Saiu se gabando da própria malandragem, numa versão eletrônica de macho branco hétero cis.

A companhia suspendeu o lançamento.

A maior preocupação é com sua capacidade de encontrar brechas de cibersegurança. Com o Mythos, qualquer desavisado – mesmo incapaz de conectar o notebook na tevê sem chamar o cara da TI – vira um hacker russo.

Talvez seja mais marketing do que responsabilidade: “Meu produto é tão colossal que o mundo não dá conta. Aguarde. E prepare o cartão de crédito”.

A Anthropic gosta de se apresentar como o adulto na sala da IA. Criou a “Glasswing”, iniciativa que reúne uma penca de megacorporações pra experimentar e trocar informações sobre como se preparar pro Mythos.

Autorregulamentação às vezes funciona, mas não parece ser o caso aqui.

As Big Tech são uma festa estranha com gente esquisita e regada a muito, muito dinheiro. Difícil imaginar sujeitos como Elon Musk e Larry Ellison priorizando o interesse coletivo.

Se toda indústria com potencial de causar encrenca tem regulação externa, por que a IA é exceção? Ninguém lança um medicamento sem testes de segurança supervisionados pelos FDA da vida.

A IA promove, sem qualquer controle, uma revolução comparável àquelas provocadas pela máquina a vapor e pela eletricidade – duas “Tecnologias de Propósito Geral”, com impactos profundos em toda a sociedade.

Uma regulamentação setorial com jurisdição internacional já tá atrasada. A poeta portuguesa Rosa Oliveira escreveu que “‘Mais tarde’ não existe”. Mais tarde, nesse caso, pode ser tarde demais.

Lua vai iluminar os pensamentos dela/ Fala pra ela que sem ela eu não vivo

Juninho do Banjo e Salgadinho, 1995

Existe solidão maior que sobrevoar o lado escuro da Lua numa lata de metal apertada e incomunicável?

Sim: sobrevoar o lado escuro da Lua numa lata de metal apertada e incomunicável, fechado num banheiro que teima em não funcionar direito.

Desde que a missão Artemis II partiu do Cabo Canaveral, o encanamento da cápsula Orion dá uma lição de humildade pra toda a humanidade.

Justamente quando o Homo sapiens voltava a se achar o maioral, só porque somos capazes de dar um rasante no satélite natural, o Universo nos coloca no devido lugar: somos apenas um bicho que come e descome.

Um animal que vaza, a 380 mil quilômetros de distância da moita mais próxima.

Quando a privada entope, que diferença faz a “Odisseia”, a penicilina, o acelerador de partículas, “Amarcord”, o “Poema de Sete Faces”, o pastel de camarão do Tordesilhas, a “Seagram Series”, Queóps, Quéfren e Miquerinos, o iPhone, Machado de Assis ou a “Nona Sinfonia”?

Ficamos reduzidos a um primata com necessidades banais. Anos e anos de cálculos complexos, engenharia de ponta, investimentos bilionários e manufatura especializada, tudo derrotado por urgências fisiológicas.

Quem salvou a tripulação do aperto foi, claro, a única mulher a bordo.

A astronauta Christina Koch executou o trabalho de bombeira hidráulica mais sofisticado da história, dando um jeito no Universal Waste Management System – como a Nasa chama seu lavabo extraterrestre.

(Ela manteve o humor mesmo na fossa. Postou aqui no Instagram uma foto do contorno arredondado da Terra, escrevendo na legenda: “Não é plana”. Não me pergunte como fez isso, não consigo nem comprar wi-fi na ponte aérea.)

Merecia escutar coisa melhor que a chocha “Pink Pony Club”, da Chappell Roan, usada pra despertar os tripulantes. Cadê o brasileiro que mandou “Coisinha do pai” pra Marte em 1997? Quem sabe ele punha pra tocar “Recado à minha amada” na Lua.

Amai-vos uns aos outros e o resto que se foda

Nicolas Behr, 1978

Mandei uma mensagem de Zap às 11h14 da manhã. A resposta chegou pouco depois, precisamente às 11h25: “Desculpa a demora em dar um retorno”.

Demora? Agora onze minutinhos configuram demora?

Seria uma questão de vida ou morte? Chequei meu estado geral de saúde. Confirmei não estar infartando nem debaixo de um ônibus, atropelado. Também não tinha nada entalado na minha goela, implorando uma manobra de Heimlich.

Talvez fosse, então, alguma urgência urgentíssima profissional, digna de uma réplica de bate-pronto.

Fui reler o que havia escrito, já me repreendendo por ter esquecido de algo digno de um SLA expresso, um “Service Level Agreement” que se satisfaz apenas com respostas imediatas.

Mas, francamente, também não era o caso.

Naquele “Diagrama de Eisenhower”, o tema em pauta estaria bem acomodado na caixinha de “Importante, mas não urgente”: assunto quase trivial, merecedor de atenção o bastante pra uma mensagem pelo celular, embora não o suficiente pra ocupar o escaninho mental de alta prioridade.

Acontece que hoje tudo é pra ontem.

Quanto mais aparecem tecnologias que deveriam nos economizar tempo, mais precisamos correr pra dar conta nas novas exigências que chegam com elas.

Ou alguém aí passou a trabalhar menos desde o surgimento do primeiro smartphone, que enfiou os compromissos da sua vida inteirinha no bolso da calça? Com a inteligência artificial não vai ser diferente.

Aliás, vai ser diferente sim: mais rápido, mais intenso e mais distante da nossa capacidade biológica de dar conta da aceleração que essa tecnologia já produz. Vamos ganhar tempo pra assumir novas tarefas e encarar outras supostas urgências.

Teremos horas extras pra fazer hora extra.

Pra escapar do redemoinho de ansiedade, fico com as palavras da salvação do poeta Nicolas Behr, um brevíssimo evangelho antiburnout: “Amai-vos uns aos outros e o resto que se foda”.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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