Trecho de livro

O Enigma Orides

Biografia de Gustavo de Castro, relançada pela Hedra, joga luz sobre a conturbada trajetória da poeta homenageada na atual edição da Flip

Leonardo Neiva 24 de Julho de 2026

Este é o ano em que muitos leitores entraram em contato pela primeira vez com os versos da poeta Orides Fontela (1940-1998). Afinal, apesar de elogiada por críticos do quilate de Antonio Candido (1918-2017) e Davi Arrigucci Jr., a escritora nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, nunca havia alcançado esse mesmo nível de notoriedade entre os leitores, e até bem pouco tempo permanecia uma figura pouco lembrada pelo público. Homenageada na atual edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), a autora agora tem não só toda a sua obra poética relançada na Hedra, como também sua biografia, “O Enigma Orides” (reedição 2026), escrita pelo poeta e jornalista Gustavo de Castro, republicada pela editora.

Pouco conhecida do público geral, a vida da autora ganha a alcunha de enigma também por conta da aparente contradição entre sua obra e sua vida pessoal: enquanto a primeira costuma ser descrita como bastante rigorosa, áspera e lúcida, a segunda foi marcada pela extrema pobreza e instabilidade emocional. Contemplada pelo Rumos Itaú Cultural 2013-2014 e publicada originalmente em 2015, a obra apresenta desde os primeiros passos da autora na vida e na literatura até sua trajetória cada vez mais reclusa e antissocial, culminando na morte solitária em um sanatório para tuberculosos em Campos do Jordão.

Além da biografia e de todos os seus livros de poesia, a Hedra também lança na Flip “Conversas: Escritos e entrevistas de Orides Fontela” (2026), que reúne quatro textos e 15 entrevistas da poeta, oito delas inéditas, com organização de Augusto Massi, Ieda Lebensztayn e Mário Alex Rosa; e o infantil “Pelos Olhos de Orides” (2026), ilustrado por Cynthia Crutenden. Uma oportunidade única de conhecer ou reencontrar a obra de uma das escritoras mais elogiadas da literatura brasileira, cuja poesia reflete também os questionamentos da poeta sobre a própria existência: “Alta agonia é ser, difícil prova:/ Entre metamorfoses, superar-se”, diz um soneto escrito por Fontela aos 23.

Confira a seguir um trecho de “O Enigma Orides”.


Orides, queria que você contasse um pouco de sua história, o que você acha? Estou com o gravador aqui.

— Pra que isso? Agora?

— Se você quiser…

— Ah, não sei… O que posso dizer?

— O gravador está aqui. Se você quiser… Podemos fazer depois também…

Orides abaixa os olhos, meditativa. Depois de um tempo, concorda:

— Tá bom… Apesar dessas coisas serem, em geral, umas porcarias.

O chá, fumegante, chega à mesa. Ficam calados até Sílvio apertar o play. É a voz mansa e pausada do padeiro que se ouve primeiro:

— Fale da poesia. Ou da sua vida. Fale o que quiser…

Orides observa Olmea, depois Sílvio, mas os pensamentos dela parecem distantes. Volta a olhar para baixo. Dá um pequeno gole no chá. A bobina da fita cassete gira, mas isso não a impacienta. Intimamente, recorda o encontro daquela manhã, na porta do elevador, com o “ardente silêncio”.

É só depois de outro gole que começa:

Não tenho mais nada além da poesia. Nesse sentido, eu sou o próprio coração selvagem.

A minha poesia vai se salvar sozinha se tiver força para isso. Ela vai se defender sozinha, cada poema tem seu carma. Daqui em diante, eu não tenho mais responsabilidade sobre os meus poemas

Se não fosse a poesia, eu poderia estar na sarjeta, nem vocês nem ninguém iriam me reconhecer; eu iria morrer sem ter existido. É a minha única esperança de salvação, porque a salvação transcendental, eu chuto. A minha poesia vai se salvar sozinha se tiver força para isso. Ela vai se defender sozinha, cada poema tem seu carma. Daqui em diante, eu não tenho mais responsabilidade sobre os meus poemas.
Na minha vida, tudo aconteceu ao contrário. Me interessei por pintura abstrata antes da pintura clássica. Vivia nas nuvens. Se os outros aguentam as nuvens, não sei, mas eu estava cansadíssima; queria dinheiro para viver na terra. É uma confusão. A minha vida inteira aconteceu de cabeça para baixo. Fiz tudo ao contrário: comecei pelo abstrato e terminei no concreto. Os meus versos viviam pairando lá em cima, sublimes demais, nas nuvens. Poesia sobre poesia… Chegou um ponto em que eu fiquei puta da vida, cansei. Minha poesia estava meio velha, e eu assumi isso. Estava me repetindo. Agora faço uma poesia mais vivida, mais encarnada. Chega de coisa lá em cima.

E a minha poesia é selvagem, se esse “selvagem” quer dizer agir por conta própria, sem ligar para a opinião de ninguém, ir em frente sozinha… Eu escrevi milhares de poemas que nunca foram publicados. Os que foram são uma mixaria. Os outros originais, graças a Deus, eu queimei. São coisas que eu não queria que ninguém ressuscitasse. E não serão ressuscitadas, porque serão destruídas, viu, Augusto Massi?

Sou “selvagem” no sentido de “sozinha”. Só não fui selvagem numa coisa: antes que eu publicasse meus livros, do primeiro ao quinto, os amigos liam e aprovavam. E eram bons críticos, os meus amigos. Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr., Augusto Massi. Até hoje eu nunca publiquei nada sem uma severa crítica deles. Por isso, disseram de mim: “aristocrata selvagem”, porque sei que é muita “aristocracia” querer que os críticos leiam meus livros antes de publicados.

Em Rosácea, saiu o poema “O aristocrata”:

O selvagem não
aprende
o selvagem não
se emenda
o selvagem não
se curva

(o mitológico selvagem).

Não tenho propriedade nenhuma, até minha casa está com problemas. A poesia ocupou todos os espaços da minha vida, porque não tenho mais nada no lugar dela

Meu caminho não podia ser fácil. Para mulher pobre e poeta jamais foi fácil. Sou feminista desde a adolescência. Desde o dia em que meu pai me disse: “Quando você casar, vai obedecer ao seu marido”, e eu respondi: “Não vou casar de jeito nenhum”.

Nesse sentido é que sou selvagem. Quero morrer sem obedecer a ninguém. Precisava ter uma profissão, por isso fui dar aulas. Mas nunca tive paciência para aguentar meus alunos. Na escola, fui “readaptada”, retirada de sala de aula e jogada numa biblioteca no fim do corredor. Não sei se foi melhor ou pior do que me aposentar, talvez seja pior. Mas pior do que isso era aguentar o filho dos outros, dar aulas e ganhar essa mixaria que eu ganho.

Por isso é que diziam que eu era selvagem. Fui mulher pobre, não tinha ninguém e não tenho nada agora. Não tenho propriedade nenhuma, até minha casa está com problemas. A poesia ocupou todos os espaços da minha vida, porque não tenho mais nada no lugar dela.

Vida sentimental não pude ter jamais. Quando jovem, gostei de um rapaz e falei para o meu pai. Ele deu com a mão na minha cara. Aquilo mexeu muito comigo. Uma mulher professora primária, pobre, sem marido, poeta, neste país, não é possível.

Tinha duas escolhas: ou a liberdade de fazer poesia, conduzir a minha vida “selvagemente”, por conta própria, ou então o quê? Meus filhos seriam mão de obra barata, seriam coitados, não adiantaria nada. Tive que escolher o menor dos males. O menor mal possível é ser pobre e sozinha. E o maior bem possível foi sempre a poesia.

Quando era criança, na escola, eu escrevia quadrinhas. Comecei com sete anos, depois publiquei alguns poeminhas nos jornais de São João da Boa Vista, onde nasci. Aí, em 1965, mais ou menos, eu tinha uns 25 anos, o Davi Arrigucci Jr. ficou impressionado com um poema meu, “Elegia”. Está no Helianto. A partir disso eu saí da esfera municipal. Lá em São João ninguém mais me entendia. Aí vim para São Paulo. Mas meus dois primeiros livros não tiveram repercussão nenhuma.

Apesar disso, o Nogueira Moutinho escreveu sobre Transposição, que saiu em 1969. Foi o único que viu meu primeiro livro, ninguém mais viu. Quando ficou pronto Helianto, recebi uma carta do José Paulo Paes. Não tenho mais essa carta, por causa do incêndio em que minhas coisas se perderam. Esse incêndio foi em 1981. Perdi tudo que tinha, fiquei só com a roupa do corpo e um pouco de dinheiro no banco, pelo menos. E mais o emprego. Só isso. Nesse incêndio também se perdeu a carta que recebi do Drummond.

Nesse sentido é que sou selvagem. Quero morrer sem obedecer a ninguém

A primeira fase da poesia foi o grupo escolar, não precisa nem dizer. Quando cheguei no ginásio, fiquei impressionada com a “Tempestade”, de Gonçalves Dias, sabem por quê? Lição de métrica. Foi um impacto. Outro impacto foi Fernando Pessoa. Uma prima minha me apresentou o Pessoa. Mas ainda não tinha lido nenhum poeta estrangeiro. Quando vim para São Paulo é que fui ler os estrangeiros. Depois da universidade. Fui conhecer Baudelaire e alguma coisa de Mallarmé, antes de Góngora. Não falo língua nenhuma, não sei inglês, não sei alemão. Sofri desgraçadamente para tentar ler o Mallarmé no original, claro, que não entendia nada, é dificílimo. Me marcaram as leituras que fiz quando era jovem: Drummond, Bandeira, Cabral, os simbolistas, Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, mas com os parnasianos eu não queria nada, passei por cima deles. Também li Augusto dos Anjos. Me divertia horrores. É tão estranho. Interessei-me também por Brecht. Os poemas dele são fortíssimos! É assim que eu queria fazer poemas. Existe algo de exemplar em Brecht.

Produto

  • O Enigma Orides
  • Gustavo de Castro
  • Hedra
  • 240 páginas

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