COLUNA

Marilene Felinto

Só queria “mulher capa de revista”

Futebol se tornou uma aberração indecente, uma rede de interesses espúrios, em que a atração, o fascínio pelo diferente não passa de cobiça da mulher branca pela conta bancária do atleta preto bilionário

24 de Julho de 2026

“Não torço para uma seleção que tem Neymar Jr.” — frase de um amigo, e de endosso fácil por muita gente que torceu contra a seleção brasileira de futebol nesta finada Copa do Mundo. Todo tipo de comentário legítimo: uma presepada, quer dizer, uma palhaçada o time covarde, cheio de nomes e caras de jogadores desconhecidos, milionários que não precisam fazer mais nada na vida.

Parte da torcida pelo Brasil intuiu o fiasco desde o início, e passou a desejar que o time saísse logo da competição, dando fim também ao patriotismo populista a la Rede Globo e seu ridículo eco de “Brasilllll”. Afinal, quem acredita que o conglomerado Globo tem alguma virtude cívica para além do interesse na mercadoria bilionária que é o jogo de bola hoje em dia?

Pois bem, encerrada a presepada, e à parte a figura pública em tudo negativa do já mencionado Neymar — o caso mais bem acabado do garoto pobre que enriquece e passa a renegar sua raça, sua origem e descamba para a soberba de classe e o direitismo político neofascista de seu tempo —, à parte esse exemplo extremo, há outros, de natureza semelhante, para agravar o distanciamento de parte da população ante os 24 alienígenas do que outrora era conhecida como a “seleção canarinho”.

Eles percebem esse contraste entre a mãe preta e a namorada branca? Pensam em como se sentem as mulheres negras da família diante disso?

A natureza é semelhante, embora os tempos sejam outros: não é novidade que, desde Pelé, jogadores brasileiros negros e oriundos da pobreza escolhem mulheres brancas (várias delas loiras) para ostentar por aí. A tradição segue inalterada — Endrick, Vinicius Jr, entre tantos outros — que optam por “mulher capa de revista”, para usar uma expressão de um pedreiro do interior que conheço.

O problema está em que a tradição é mais escandalosa hoje, porque se junta aos valores estratosféricos dos salários desses jogadores, à velocidade com que eles enriquecem, e ao estilo de vida ostentatório. Mais escandalosa por isso — e não porque se condene a atração genuína de uma pessoa branca por uma negra e vice-versa, a atração pela diferença. As relações inter-raciais neste país brasileiro de maioria miscigenada e negra estão aí como fato consumado, a despeito de como se deram ou se dão.

A questão que se levanta é inevitável: como se sentem as mães, as irmãs, as avós negras desses homens que, ao aumentarem subitamente seus patrimônios, acrescentam a ele a ilusão de que uma mulher loira vai lhes legitimar a ascensão social, a autoafirmação? Por acaso eles percebem ou perceberam esse contraste entre a mãe preta e a namorada branca? Por acaso eles pensam ou pensaram em algum momento em como se sentem as mulheres negras da família diante disso?

Pois, então, essa tradição perversa me lembra, às avessas, o caso do pedreiro do interior. Jovem e branco, poucos anos mais novo do que a mulher negra com quem se casou e teve três filhos — ela, muito bonita, tinha o lindo nome da flor “magnólia” —, a certa altura do casamento o pedreiro se revoltou porque a mulher passou a rejeitar relações sexuais com ele.

Só conheço a versão dele para o caso, embora tenha encontrado e conversado com Magnólia algumas poucas vezes. Ele me disse, em tom de ameaça, enquanto trabalhava numa obra em casa: “Ela não quer mais dormir comigo. Então, ela vai ver só! Agora eu vou é arranjar uma mulher-capa pra mim”. Perguntei o que era uma “mulher-capa”, e ele me explicou: “uma bonita daquelas, de capa de revista, uma top, gata”.

A admiração que eu tinha por ele, pelo casamento com uma mulher negra — majoritariamente relegada ao lugar de “não escolhida”, especialmente por homens brancos —, ele que rompera essa consolidada barreira do preconceito, sofreu um abalo significativo. Compreensível a mágoa dele pela rejeição, mas inaceitável a vontade de vingança pela via da desqualificação de Magnólia, com quem ele tinha três filhos lindos (um menino mais negro e duas meninas mais miscigenadas). Ademais, ao depreciar sua ex-mulher, ele indiretamente me colocava no mesmo lugar de inferioridade (na comparação com a “mulher-capa”), porque estava eu ali diante dele, menos escura que a Magnólia, mas da mesma conformação racial.

Neste mundo globalizado, o jogo de bola brasileiro, em crise grave, não espelha é mais nada além dos lances do mercado internacionalizado

No Brasil, os analistas e filósofos do futebol (geralmente homens brancos) nunca abordam diretamente esse comportamento vexatório dos atletas negro. Limitam-se a dizer — como elogio ao esporte, e genericamente — que o futebol é um espelho fiel das contradições do país. Ora, neste mundo globalizado, o jogo de bola brasileiro, em crise grave, não espelha é mais nada além dos lances do mercado internacionalizado.

Neste mundo do capital transnacional, futebol se tornou uma aberração indecente, uma rede de interesses espúrios, em que a atração, o fascínio pelo diferente não passa de cobiça da mulher branca pela conta bancária do atleta preto bilionário — muito provável que, permanecessem na favela, nem Neymar nem Vini Jr. nem Endrick estariam com as mulheres com quem se juntam na atual condição em que vivem hoje.

A tradição se mantém, intocada. E eles não piores do que Pelé no que tange à total ausência de consciência social, à escandalosa alienação política do “rei do futebol”, ele que, em plena ditadura, optava pelo silêncio bajulador, conivente com o regime assassino. Eles não são piores — fato é que nós é que somos melhores ou menos idiotas do que nos tempos de Pelé.

“Não torço para uma seleção que tem Neymar Jr.”. Mas torcer pelos estrangeiros Vini Jr., Endrick e companhia? Não, torcer por Magnólia. Conheci a mulher objetificada em “capa de revista”, nos padrões que o pedreiro procurou e achou: branca, cabelo preto e longo escorrido, magrela, não chegava aos pés da humaníssima mulher-flor.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação