COLUNA

Fernando Luna

A bola não é a inimiga

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre o hexa pelo avesso, o vizinho com terapia em dia, a sociologia de Nelson Rodrigues e o coito interrompido no futebol

06 de Julho de 2026

A bola não é a inimiga
João Cabral de Melo Neto, 1975
Antologia Profética

Não importam as mutretas da CBF, as baixarias na Fifa ou as pausas pra hidratação do faturamento: ainda tem uma criança de 11 anos dentro de mim que sofre quando a seleção perde.

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A queda contra a Noruega foi, de certa maneira, mais amarga que a eliminação histórica contra a Alemanha.

Aquela derrota por 7 a 1, jogando em casa ainda por cima, tinha algo de trágico. Parecia não ter causa nem consequência: apenas o destino em sua expressão mais violenta e incontornável. Um desastre natural.

Dessa vez, não. Foi o desfecho previsível de uma seleção medíocre, da qual não se esperava muita coisa. O futebol brasileiro não é mais o mesmo – e nenhuma goleada pode ser pior do que essa constatação prosaica.

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Somos hexa pelo avesso: já se vão seis Copas do Mundo sem levantar a taça.

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Perder não é vexame. Vexame é perder com metade da posse de bola e trocando metade dos passes do adversário. E o adversário, Haaland à parte, nem era dos melhores.

Faltou um João Cabral na preleção.

“A bola não é a inimiga/ como o touro, numa ‘corrida’;/ e embora seja um utensílio/ caseiro e que se usa sem risco,/ não é o utensílio impessoal,/ sempre manso, de gesto usual”, escreveu o pernambucano em “O futebol brasileiro evocado na Europa”.

O poema termina assim: “É um utensílio semivivo,/ de reações próprias como bicho,/ e que, como bicho, é mister/ (mais que bicho, como mulher)/ usar com malícia e atenção/ dando aos pés astúcias de mão”.

Sim, jovem, já fomos amigos da bola, já soubemos dar aos pés astúcias de mão.

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Se bola na rede social alterasse o placar, não tinha pra ninguém.

O Brasil produziu memes incríveis e jogadas risíveis. Fomos bem na internet e mal em campo: é o que dá uma geração inteira de crianças enfiadas no celular.

Vou torcer no Fifa Soccer.

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Pequenas vitórias na derrota: acabou a era Neymar, não comprei uma antena digital e vou conseguir sair de frente da tevê.

Te acalma, minha loucura!
Ana Cristina Cesar, 1979
Endrick: Odeio poesia.

Acelotti: “Te acalma, minha loucura!/ Veste galochas nos teus cílios longos e habitados!/ Este som de serra de afiar as facas/ não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias…”

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Te acalma, minha loucura. Virou aos 50 minutos do segundo tempo, mas virou. Meu canteiro de taquicardias precisa de uma poda após esse Brasil e Japão. Toda minha solidariedade aos japoneses, que mesmo derrotados limparam o estádio.

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Falando em emoção, uma invasão de extraterrestres durante o jogo contra a Escócia teria sido menos surpreendente que o vídeo da Michelle Bolsonaro.

A carraspana pública da madrasta no enteado foi um carrinho por trás audiovisual, um Júnior Baiano fazendo política, um dos grandes momentos da Copa até aqui. Quero mais.

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Incrível ver Messi jogando como Messi aos 39 anos, quando a expectativa era de que a gente teria apenas um ex-Messi nos gramados — e isso já seria muito, muitíssimo.

Atenção, porém, hermanos, tem um Vozinha no meio do caminho. Sim, a vida é injusta: nesta sexta, Messi ou Vozinha deixam o campeonato.

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Além de se lambuzar com a legislação frouxa que regula a publicidade de bets, a Cazé TV provoca outro dano à sociedade brasileira: narradores, comentaristas e repórteres da tevê tradicional tentam emular a informalidade das transmissões no YouTube.

Como o meio é mesmo a mensagem, ficam todos invariavelmente com jeito de tio do pavê ou de vovô garoto.

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Fosse Carnaval e não Copa, diria que a remada viking nas arquibancadas da torcida norueguesa é daquelas geniais alegorias humanas criadas pelo Paulo Barros.

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Vizinho bom é vizinho com a terapia em dia e neurotransmissores modulados, sem compulsão por comprar antena de tevê só pra saber que foi gol 20 segundos antes — e virar o campeão de spoilers do quarteirão.

Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha
Wislawa Szymborska, 1972

“Ah, mas foi contra o Haiti”, resmungam os idiotas da objetividade. Estranho seria o Brasil vencer, sei lá, a Alemanha jogando contra o Haiti.

Três a zero, fora o baile do Vini, foram suficientes pra me empolgar. Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha – até a Escócia, pelo menos.

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Repara: quando toca o Hino Nacional, não dá pra dizer se Carlo Ancelotti aprendeu a cantar “ouviram do Ipiranga às margens plácidas…” ou tá só mascando chiclete.

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França, Argentina, Espanha, Holanda e Inglaterra não me abalam. Aponto o secador na direção dos EUA, que aprenderam a jogar bola.

Meu complexo de vira-latas – conceito sociológico de Nelson Rodrigues, que explica o Brasil tão bem quanto o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda – não aguentaria ver os gringos se tornarem uma superpotência também no futebol.

Logo eles, que não conseguem nem chamar “football” pelo nome certo. Make Soccer Ridiculous Again.

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Pausa para hidratação, mas pode chamar de coito interrompido.

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Sem querer patrulhar o herói do torneio, o homem que parou duas seleções campeãs mundiais: o que me resta de inocência morrerá se o goleiro cabo-verdiano Vozinha aproveitar seus 15,5 milhões de seguidores pra fazer propaganda de bet.

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Se a crítica praticamente sumiu da mídia na literatura, música, cinema, artes plásticas e teatro, continua forte no futebol. Há espaço pra qualquer pessoa dizer qualquer coisa – e seu contrário.

Depois da Holanda vencer a Suécia por 5 a 1, um Antonio Candido em chuteiras garantiu que o placar não refletia o jogo: a Suécia poderia ter vencido. Todavia, perdeu de 5 a 1.

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Um balanço da primeira rodada da Copa, a única completa até agora: Messi, 3 gols. Mbappé, Haaland e Kane, 2 gols. Neymar, 1 chá de revelação.

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Alerta extremo: a direita só causa problema pro Brasil. Primeiro Estevão, depois Wesley e agora Raphinha. Não é polarização, é fato.

Calma. É preciso ter calma no Brasil
Carlos Drummond de Andrade, 1977

Pior que uma cerimônia de abertura da Copa do Mundo, só três cerimônias de abertura da Copa do Mundo. FIFA, deixa isso com o COI.

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Brasil desorganizado como Marrocos, Marrocos envolvente como Brasil.

As coisas mudaram, explicam, não tem mais bobo no futebol. Será? Talvez só tenha trocado de lado.

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Depois do empate, todos – jogadores, técnico, narradores e comentaristas – confirmaram o diagnóstico da OMS: Brasil é líder no ranking mundial de transtornos de ansiedade.

O problema não foi, repetiram em uníssono, falta de tática, treino ou talento. A atuação pavorosa ficou na conta do nervosismo.

Drummond prescreve, no poema “Receituário sortido”: “Calma. É preciso ter calma no Brasil/ calmina/ calmarian/ calmogen/ calmovita”.

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Alguma coisa está fora da ordem, também longe dos gramados. Galvão Bueno narra no SBT, TV Globo exibe gols com a cortesia da CazéTV, Porta dos Fundos escala Tino Marcos.

Sentiu, velho e violento esporte bretão?

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Um século de glórias.

1928: Alexander Fleming descobre a penicilina. 1953: Edmund Hillary e Tenzing Norgay conquistam o Everest. 1969: Neil Armstrong pisa na Lua. 1989: Tim Berners-Lee inventa a World Wide Web. 2012: Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna desenvolvem o CRISPR.

2026: Livano Comenencia faz o gol de Curaçao na Alemanha. Josimar “Vozinha” Dias fecha o gol de Cabo Verde contra a Espanha.

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Nike, Adidas, Puma e New Balance investiram milhões numa ideia. A mesma, infelizmente: chuteira rosa-choque. Já o Kichute segue inconfundível.

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E essa de chamar a República Tcheca de Tchéquia? Deve ser coisa dos mesmos criadores de “Vai, Brasa”.

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Yakuza deu sua contribuição ao futebol.

Ao estigmatizar a tatuagem, livrou os jogadores japoneses de desenhos realistas de bebês mais parecidos com Chucky, o Brinquedo Assassino, esmagado numa coxa.

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“Dezesseis avos de final”!? Pelamor, vamos chamar simplesmente de “segunda fase”.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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