Trecho de livro

Você Deu em Pagamento o Meu País

Primeiro livro do autor sírio-palestino Ghayath Almadhoun publicado no Brasil nos transporta da brutalidade da guerra à realidade de exílios que podem durar vidas inteiras

Leonardo Neiva 03 de Setembro de 2025

Num momento em que somos bombardeados diariamente com notícias sobre os ataques a Gaza, que vêm gerando morte e fome entre a população palestina, pode parecer que se trata de um estado totalmente atípico de coisas. Ainda que a escala da violência atual seja sem precedentes, afetando milhões de palestinos, incluindo crianças e mulheres, um livro como “Você Deu em Pagamento o Meu País” (Ars et Vita, 2025), do poeta Ghayath Almadhoun, de origem sírio-palestina e cidadania sueca, nos lembra que a guerra e o exílio podem ser estados constantes — muitas vezes, durando uma ou mais vidas inteiras.

“Com todo o descaramento, pulamos de repente nos boletins de notícias e nas páginas de internet e de jornais, nus senão pelos nossos sangues e os restos carbonizados dos nossos corpos.” O trecho do poema “Nós”, que abre o volume com uma das críticas mais contundentes ao impacto da guerra sobre os seres humanos, parece descrever perfeitamente os horrores do momento atual. No entanto, ele foi publicado originalmente quase 20 anos atrás, em 2008.

Nascido no campo de refugiados de Yarmuk, em Damasco, filho de pai palestino refugiado e de mãe síria, o autor viu o irmão ser morto durante a guerra civil na Síria. “O exílio para mim tem dois rostos. Um escolhi, outro não”, afirmou durante um debate na Feira do Livro deste ano, em São Paulo. Em relação ao primeiro, ele se refere ao exílio herdado do pai, cuja família foi expulsa de sua casa em 1948 por Israel junto com outros 750 mil palestinos. Já o segundo tem a ver com a decisão de fugir para a Suécia ainda em 2008, em resposta ao regime de Bashar al-Assad. Hoje, o poeta vive na Alemanha.

Com uma tradução direta do árabe pelo pesquisador e tradutor Alexandre Chareti, Almadhoun nos transporta a zonas de guerra, locais de exílio e memórias de cidades consumidas pela tristeza. E nos lembra o quanto perdemos ao conhecer ainda hoje tão poucas vozes dessa literatura, enquanto procuramos silenciar também o volume dos gritos que, como o próprio autor bem aponta, vêm da TV para atrapalhar o nosso jantar.


Nós

Nós, os dispersados em fragmentos, que chovemos carne, apresentamos nossas mais sinceras desculpas a cada uma das pessoas desse mundo civilizado, homens e mulheres e crianças, porque sem que fosse nosso propósito aparecemos nas suas casas seguras sem solicitar permissão, pedimos desculpas por imprimir nossos restos mortais em suas memórias brancas como a neve, e por termos manchado a imagem do ser humano natural perfeito nos seus olhos, porque, com todo o descaramento, pulamos de repente nos boletins de notícias e nas páginas de internet e de jornais, nus senão pelos nossos sangues e os restos carbonizados dos nossos corpos, pedimos desculpas a todos os olhos que não se atreveram a olhar diretamente para as nossas feridas para não ficarem arrepiados, e pedimos desculpas a todos que não conseguiram terminar o jantar depois de terem sido surpreendidos pelas nossas imagens frescas na televisão, pedimos desculpas pelas dores que causamos a todos que nos viram assim, sem embelezamento ou pontos ou remontagem dos nossos restos e partes antes de aparecermos nas telas, pedimos desculpas também aos soldados israelenses que se deram ao trabalho de apertar os botões dos seus aviões e tanques para nos transformarem em pedaços, pedimos desculpas a eles pelas imagens horríveis em que nos transformamos depois que eles apontaram as suas bombas diretamente para as nossas cabeças moles, e pelas horas que agora passarão em clínicas psiquiátricas para que possam voltar a ser humanos como eram antes de nos transformarem em pedaços nojentos, que os assombram sempre que tentam dormir, somos as coisas que vocês viram nas telas e nos jornais, e se vocês trabalharem duro para juntar esses restos como um quebra-cabeça, vocês ganharão uma imagem clara de nós, tão clara que vocês não serão capazes de fazer coisa alguma.

2008

Pedimos desculpas a todos que não conseguiram terminar o jantar depois de terem sido surpreendidos pelas nossas imagens frescas na televisão

Massacre

O massacre é uma metáfora morta que come os meus amigos, come-os sem sal, eles eram poetas e se tornaram Repórteres Com Fronteiras, eram cansados e ficaram muito cansados. “Eles atravessam a ponte ligeiramente pela manhã” e morrem fora da área de cobertura telefônica, eu os vejo com binóculos de visão noturna e acompanho a temperatura dos seus corpos na escuridão, lá estão eles, fugindo dele para ele, rendendo-se a esta formidável massagem, o massacre é a verdadeira mãe deles, enquanto o genocídio é praticamente um poema clássico escrito por generais instruídos reformados, o genocídio não serve para os meus amigos, pois ele é um trabalho coletivo organizado, e os trabalhos coletivos organizados lembram-lhes da esquerda que os desapontou.

O massacre acorda cedo, dá banho nos meus amigos com água fria e sangue, lava suas roupas íntimas e prepara pão e chá para eles, depois ensina-lhes um pouco de caça, o massacre é mais compassivo com os meus amigos do que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, abriu uma porta para eles, quando outras portas estavam fechadas, e os chamou pelo nome quando os boletins de notícias procuravam um número de vítimas, o massacre é o único que lhes concede asilo, independentemente das suas origens, ele não se importa com a situação econômica deles, não se importa se eles eram intelectuais ou poetas, ele olha as coisas de um ângulo neutro, ele tem as mesmas feições mortas que eles, os nomes das suas esposas viúvas, ele passa pelas áreas rurais e pelos subúrbios, e aparece como eles de repente nas últimas notícias, o massacre se parece com os meus amigos, mas sempre chega antes que eles nas aldeias remotas e nas escolas de crianças.

O massacre é uma metáfora morta que sai da televisão, que come os meus amigos sem sequer uma pitada de sal.

2013

O massacre é mais compassivo com os meus amigos do que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, abriu uma porta para eles, quando outras portas estavam fechadas

Produto

  • Você Deu em Pagamento o Meu País
  • Ghayath Almadhoun (trad. Alexandre Chareti)
  • Ars et Vita
  • 168 páginas

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