Trecho de livro

Apneia

Protagonista do primeiro romance da poeta e artista plástica Esther Faingold narra sua vida para a filha como forma de evitar o esquecimento

Leonardo Neiva 27 de Maio de 2026

Prestes a passar por uma bateria de eletrochoques como medida extrema para lidar com a depressão, sem a garantia de que sua memória permanecerá intacta após o procedimento, Esther narra sua história à filha adolescente para se precaver contra o esquecimento. Com a autora de “Apneia” (Cosac, 2026), Esther Faingold, ela compartilha o primeiro nome. Em certo momento, conta que quase se chamou Clara, nome que imagina fosse capaz de reescrever sua trajetória e identidade, segundo reflete a narradora nesta obra onde qualquer dúvida sobre quem é quem ou o que é real e o que é ficção acabam beirando a irrelevância.

Afinal, é dessas fraturas que se compõe a própria matéria do livro, estreia da escritora, poeta e artista plástica como romancista, e que marca o retorno da editora Cosac à literatura. Vivendo em Manhattan, a protagonista empreende uma viagem narrativa que passa pelo Sul do Brasil, pela Bessarábia — região histórica da Europa Oriental —, pelo Líbano e por Israel. Tudo isso enquanto conta a história de sua família, de ciganos e judeus alvos de perseguição na Romênia a imigrantes procurando se estabelecer no Rio de Janeiro.

Além de abordar temas como maternidade, saúde mental e sexualidade feminina, o romance fala sobre arte e a habilidade de se reinventar, assim como das inúmeras violências sofridas pelas mulheres ao longo das décadas. Numa exploração de si mesma que ecoa Hilda Hilst, como lembra a escritora Veronica Stigger na quarta capa, e reflete o trabalho de autoras como Sylvia Plath e Simone Weil, Faingold busca no passado e no presente as raízes da violência que levaram sua personagem ao colapso, após uma vida afrontando a ordem estabelecida. A obra aprofunda, inclusive, questionamentos que a autora já trouxe em sua exposição “Qualquer Coisa Animal”, sobre corpos, memória e repressão.


Sempre haverá alguém indicando o psiquiatra que salvou fulano de tal, o analista que escreveu o livro X, a nova promessa da medicação, o retiro no Tibete, o panchakarma no Sri Lanka, a cerimônia de ayahuasca no Acre, o xamã em Oaxaca, o babalorixá em Cachoeira. Tentei médicos chineses do Lower East, centenas de sessões de acupuntura e ervas. Busquei hipnose com uma armênia renomada, sessões tântricas com um casal no Hell’s Kitchen, aulas de xadrez com um ex-campeão russo.

Saio para comer um croissant e tomar um café, leio trechos de um livro, escrevo algumas linhas. Basta o sorriso de um garçom para que eu me encha de vontade de vida. Volto para casa e ligo para o suicide line.

Era para eu ter sido Clara. Na maternidade decidiram me chamar de Esther, nome da mãe do meu pai. O que diz o nome que nos é atribuído? É adjetivo, substantivo? Muitos afirmam ser sujeito. Eu teria sido mais límpida se fosse Clara? Muito diferente se fosse Maria, como a mãe da minha mãe? Seria o nome um registro anatômico? O membro ou a sua falta? Seria eu capaz de criar um destino menos infeliz do que esse que me foi imposto?

É noite e as luzes já invadiram Nova York, a cidade para onde nos mudamos há sete Natais. Você tem oito anos e eu me preocupo porque você ainda acredita no Papai Noel. Dear Santa, traga para minha mãe aquilo que ela quiser”, você pediu em uma carta.

Busco o milagre em todos os cantos e, enquanto ele não chega, escrevo este caderno para que você conheça quem fui antes de você nascer. Filha, em uma mãe também vive uma mulher.

Eu estava radiante, pois logo entraríamos no voo da Varig que nos levaria até Porto Alegre. Na banca de jornais do aeroporto de Brasília, o meu tio por parte de pai deixou que meu irmão e eu escolhêssemos o que quiséssemos. Peguei um livro de receitas da Dona Benta e meu irmão, um gibi do Pato Donald.

No avião, fiquei aflita para arrancar o cinto de segurança, e meus avós, incomodados com minha agitação, me pediam para ter calma, para olhar o livro que tinha acabado de ganhar. No instante em que me libertei do cinto, já sobre as nuvens, comecei a correr de janela em janela chamando por ele, tinha certeza de que em alguma nuvem estaria nos esperando. No desespero das aeromoças incomodadas com meus gritos é que meus avós compreenderam o que estava acontecendo. Eu tentava encontrar meu pai.

Filha, em uma mãe também vive uma mulher

Alguns dias antes, eu ouvira que ele havia ido para o céu e um dia nos encontraríamos. Por que não naquele dia? Ninguém respondia. Passageiros choravam comigo. “Guria, deixe de ser fiasquenta e fique quieta. Daqui para a frente você não tem mais pai nem mãe, é bom se comportar”, meus avós diziam. Ao aterrissarmos, um psiquiatra que estava no voo aproximou-se e sugeriu que eu precisava de ajuda médica. Envergonhados, meus avós insistiram que eu teria de começar a controlar minhas emoções para não ficar malfalada. Foi esse o Princípio da Realidade?

Antes que os meus lobos frontais sejam desligados e correntes elétricas tomem conta do meu cérebro, preciso me ater ao que quero lembrar. Como me chamarei quando não souber mais o meu nome? Se tudo apagar em mim, talvez este registro possa servir.

Nos dias que antecederam o voo para o Sul, eu e meu irmão, um ano mais novo, estávamos sozinhos com meu pai em seu apartamento. Eu o vi fazendo um anel para me dar de presente no meu aniversário de seis anos, que seria dali a uma semana: uma aliança com um “E” em que ele havia incrustado pequenos brilhantes — Esther era uma estrela, por isso ele construía uma pequena constelação.

Lembro de assistir ao trabalho, seus olhos fixos no anel. Lembro de dormirmos os três juntos na cama que um dia foi dele e da minha mãe, e de brincar com seus poucos fios de cabelo. Lembro do meu irmão com fome, chorando, e do meu pai dormindo; da cozinha com armários vermelhos, eu empurrando a cadeira de alumínio com assento em vinil para perto da bancada na tentativa de escalar as prateleiras. Lembro da caixa azul com Tony, o tigre, de dar Sucrilhos para o meu irmão e ele parar de chorar. Lembro dos dias passando, sem que meu pai acordasse. De dormirmos ainda juntos, de ele não se incomodar mais com as trancinhas que eu fazia na sua cabeça.

O telefone toca, “Papai não quer mais acordar”, digo ao meu tio. Estranhos invadem a casa, cobrem o meu pai com um lençol. Lembro do estreito e longo corredor que ia até o elevador por onde o nosso pai foi embora. “Está tudo bem, o pai de vocês foi para o céu. De lá cuidará de vocês“, dizia uma voz que não era mais a dele.

Há mais de uma década tento domá-la, domesticá-la. Vencê-la é impossível. Zoloft, Cymbalta, Wellbutrin e Xanax são alguns nomes que me trouxeram esperanças breves. Sou eu o animal submetido a testes, tentando descobrir se o que tenho pode ser genético. Fico desesperada imaginando que um dia você possa sentir qualquer coisa parecida com o que sinto.

Perder minha memória seria perder o que sou. E, ainda que a perda seja parcial, como prever o que vai e o que fica?

Recebi de três médicos a indicação para terapia de eletrochoque. Afirmam não ser como a lobotomia que assombrou o século XX — ao contrário, ela possui uma alta taxa de sucesso, de 70% a 90%, de acordo com a Mayo Clinic. Mas, entre os riscos apontados, ninguém foi capaz de garantir o não desbotamento da minha memória. Ainda que meu temor possa ser um exagero, é para essa ocasião que me preparo. Perder minha memória seria perder o que sou. E, ainda que a perda seja parcial, como prever o que vai e o que fica?

Esther, minha avó paterna, foi uma mulher de vanguarda. Usava calça comprida quando mulheres só vestiam saia e era habilidosa em “trabalhos de homem”. Sempre fumava em público, o que era visto como imoral, pornográfico. De calças e com um cigarro entre os dedos, sentia-se poderosa, completa, livre. Era uma exímia jogadora de pôquer. Dominava as regras, blefava como ninguém. Gosto de imaginar Esther pervertida, pervertida de verdade, como supunham que ela fosse.

Viviam na Bessarábia, terra onde meu pai nasceu em 1909, quando a liberdade deles se estreitava — os judeus e ciganos da Romênia eram alvo de uma perseguição cruel. É possível que sonhassem fugir para a Palestina — até Franz Kafka sonhou em ter um restaurante lá —, mas acabaram no Rio de Janeiro.

No início, Esther jogava por prazer e tédio, depois por sobrevivência. À noite não lia livros infantis para o meu pai, tampouco cantava músicas de ninar. Leon, que mal sabia falar, já embaralhava e distribuía as cartas, com movimentos naturais e refinados. Aos nove anos, era o crupiê dos jogos realizados no porão da casa. Dia e noite, noite e dia, todos os dias, sem trégua, sem o descanso ordenado por um Deus cansado, o fluxo de jogadores era intenso, em sua maioria revolucionários socialistas da comunidade judaico-romena. Havia pouco dinheiro vivo. Nos jogos de azar, como na vida, as moedas de troca surgem com muitas faces.

Já não acredito que possa sair do pêndulo. Mesmo com os momentos bons ao longo destes últimos anos, a gangorra é insuportável. Se estou disposta, com certo ânimo, não sou eu e sim o produto de uma nova medicação. Meu corpo é um caos químico. Visto uma armadura, carrego um escudo.

As desesperadas tentativas de achar a droga certa me fizeram buscar alguma lógica além daquela praticada pelos psiquiatras, com seus diagnósticos e prescrições. Quando falo da minha insônia, é para que me prescrevam soníferos, e não para dormir à noite: quero remédios para dormir dia e noite.

Com os olhos fixos no teto, faço milhões de conjecturas, imagino o que eu faria — o que faríamos — se tivesse força.

Quando falo da minha insônia, é para que me prescrevam soníferos, e não para dormir à noite: quero remédios para dormir dia e noite

Produto

  • Apneia
  • Esther Faingold
  • COSAC
  • 144 páginas

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