COLUNA

Fabiana Moraes

No velório, um reggae, uma coragenzinha e um caixão em forma de peixe

Arrisco uma crônica sobre entender simultaneamente nosso tamanho gigante e ridículo nessa terra: o dedico a Carlos, a Preta e ao povo de Gana

30 de Julho de 2025

Li uma vez que escorpião é o único signo que sabe que vai morrer.

Passo bem longe de ser uma especialista em mapa astral e outras mumunhas ligadas ao horóscopo. Mas quando essa frase apareceu para mim no meio da usual tonelada de informação diária, brilhou — e acabou arrumando um canto perene na minha cabeça. Na minha cabeça escorpiana, diga-se.

“Porra”, pensei. “Que síntese”.

Acho, no entanto, que é o caso fazer um pequeno reparo aí na afirmação: talvez escorpião seja o único signo que não esquece que vai morrer.

Acredito que essa consciência é absolutamente fundamental para pensar em como vamos levar o baile da vida: dois passos para lá? Um só para cá? Giro? Sigo essa levada monocórdica ou parto para outra dança? Sozinha ou acompanhada? Rock, funk ou valsa?

Compreender nossa finitude deveria ser uma obviedade, mas somos forjadas (sejamos câncer, sagitário, libra, virgem, etc, etc) a acreditar no contrário. É justamente por isso, também, que me impressiona ver o quanto nós, por pressa, pretensão ou obtusidade, deletamos uma informação tão preciosa. Talvez por terror, talvez para apagar um futuro sofrimento. Mas, ao evitá-la, terminamos, vejam só, sofrendo ardorosamente ao preferir meter pedras nos sapatos enquanto tentamos dançar a própria vida.

Vida e dança são associações meio óbvias, eu sei. Mas uma outra coisa boa de existir — e lá se vão cinco décadas — é saber tirar de si o peso de sempre precisar impressionar alguém. Jesus, como cansa. Então me abraço aqui com essa conexão evidente e feliz para mim, uma vez que eu me sinto imensamente viva justamente quando estou dançando.

Compreender nossa finitude deveria ser uma obviedade, mas somos forjadas a acreditar no contrário

Talvez uma das chaves para o não esquecimento de nossa finita validade seja também o lugar no qual reside o grande desafio de existir: entender simultaneamente a nossa imensa importância e o nosso ridículo tempo de vida nesse mundo. Nosso protagonismo e nosso papel de coadjuvante em um planeta doido-crazy-pra-cacete que acolhe simultaneamente uma Ostreococcus spp. (alga verde com somente 0,8 micrômetros de diâmetro) e uma baleia azul de 30 metros no mesmo mar. Uma terra onde convivem um maruim e um elefante. Um Benjamin Netanyahu e um Paulinho da Viola.

(Netanyahu, desde já um sinônimo para o estado da mais profunda baixeza humana. Fique claro que não estou comparando nem a alga nem o maruim a esse ser indesculpável).

Não sei vocês, mas para mim não é muito complicado entender o quanto somos preciosas, universos únicos que deslizam confusamente por aí, e, ao mesmo tempo, um quase nada que pode ir embora se um vírus minúsculo e mortal resolver morar em nosso cérebro.

É incrível o quanto esquecemos de tantas obviedades enquanto colhemos as mais sensacionais pedras pontiagudas para enfiar em nossos sapatos.

Falando nelas, lembro muito de quando um senhor fixava centenas de britas com cimento em um muro no qual uma comunidade costumava sentar, à beira da praia, em Japaratinga (norte de Alagoas). As pedras estavam sendo colocadas justamente para manter as pessoas afastadas — a administração de uma pousada ali perto o pagou para realizar aquele trabalho, exemplo clássico de uma arquitetura da exclusão. Eu não resisti e perguntei a ele o propósito daquilo. Ele, que mora na área e conhece as pessoas que vão sentar na pequena mureta no fim da tarde, estava mais desolado que eu. Aí disse algo como: “Eles esquecem que são iguais a nós. Esquecem que um dia também vão morrer”.

***

Nas últimas semanas, uma certa ética de cuidar de si — o que inclui olhar com alguma maciez a própria finitude — se apresentou duas vezes para mim. Primeiro, com a partida de um colega, Carlos, no último dia de junho. Vinte dias depois, com a morte da cantora Preta Gil. Ambos morreram molestados pelo câncer.

Carlos Gomes, que, com seu corpo magrinho, o jeito tímido e os olhos grandes, sempre me lembrava um poeta romântico do século 19, era jornalista, produtor, escritor, compositor e, veja, só, um poeta do agora. Criou uma ótima revista e editora de cultura, a Outros Críticos. Lançou livros variados, incluindo um dedicado a crianças. Morreu muito jovem, aos 43 anos. Eu acompanhei, entre longe e perto, essas coisas que as redes sociais estranhamente nos permitem, a descoberta de sua doença e seu breve tratamento. Soube quando Carlos, poucas semanas após o diagnóstico do câncer, foi informado de que sua doença não era contornável.

Depois disso, ele passou a postar com mais frequência. Talvez se despedindo, talvez conversando, talvez fazendo poesia, talvez acreditando que aquelas postagens que duravam apenas 24 horas eram micro pontes para a vida. “Coragenzinha“, como ele escreveu. Talvez fosse tudo isso.

Eu soube também que, apesar de, Carlos e sua namorada, Maju, outra poeta e compositora, decidiram casar. Foi no São João, e ali estavam ele e ela cercados de amigas e amigos. Eu acompanhei virtualmente a celebração de amor, de música, de dança. Carlos faleceu poucos dias depois.

Tem um título de um livro de poesia dele que eu acho deslumbrante: “Nunca É Triste um Corpo que Fala Eu te Amo”. Lá, tem esse poema aqui:

Li várias vezes no dia em que ele partiu. Corajosamente, como um passarinho.

***

Dias depois, veio a morte de Preta. Sua partida me fez perceber o quanto, sem me incluir na categoria de fã (nunca parei para ouvir de verdade suas músicas), eu a admirava. Sim, fui uma das milhões de pessoas, principalmente mulheres, impactadas pela famosa foto que Vânia Toledo registrou para o disco “Preta-a-Porter”: a moça nua, farta, bonita, cujos peitos e coxas não pediram licença para ninguém e foram parar no meio de uma lógica de visibilidade na qual quase somente o magro, o branco e o “corrigido” podiam aparecer. Era 2003 e eu senti meu próprio preconceito arder quando olhei a imagem. É um exercício precioso reconhecer em nós mesmas a chaga da outrofobia. E não só: o auto-ódio.

Vi Preta travar batalhas poderosas contra quem tentava subjugá-la, emagrecê-la, embranquecê-la

Ao longo do tempo, vi Preta travar batalhas poderosas contra quem tentava subjugá-la, emagrecê-la, embranquecê-la. Vi a imprensa sensacionalista ser absolutamente baixa com ela, fazendo comparações entre seu corpo e o de outras mulheres famosas — jornalistas, stylists e revistas que, aliás, não chegavam aos pés de uma nano alga ou um maruim. A vi enfrentar o Google, que associava seu nome a “atriz gorda” nas buscas. Também processou Jair Bolsonaro em 2011 por suas falas racistas e homofóbicas.

A bicha era foda. Cheia de coragenzinhas.

Preta morreu com a idade que tenho hoje. Quando vi que, no seu velório, havia uma playlist criada por ela para a ocasião, me veio o sentimento que experimentei dias antes, na partida de Carlos: lá estava aquela maciez em lidar com a própria finitude, aquela delicada maneira de se entender tão preciosa e tão fugaz.

Fui conferir a lista de músicas e, ao ver uma delas, sorri: “Malandrinha”, de Edson Gomes, hit que está na playlist da minha festa de 50 anos. Achei maravilhoso que uma pessoa pensasse nesse hino popular tocando enquanto as pessoas se despediam dela pela última vez. Um desejo de dança, de axé, de alegria, de felicidade. Reggae e amor. Apesar de.

Esses elementos não são estranhos a diversas culturas no momento da partida de alguém: a festa é uma realidade em funerais diversos, principalmente entre populações não brancas. Penso no Nordeste brasileiro e na tradição (mais rara, hoje), de “beber o morto”; penso em como o México celebra seu Finados. Outro exemplo, esse igualmente vistoso, acontece nas comunidades costeiras de Gana, onde caixões são verdadeiras obras de arte e podem ter o formato de bules, caranguejos, carros, pimentas — qualquer elemento que se conecte a quem está dentro dele. Conheci essa tradição através de um post da arquiteta Stephanie Ribeiro, que por sua vez me levou a conhecer o trabalho da fotógrafa Regula Tschumi, autora do livro “Enterrado em Estilo: Caixões Artísticos e Cultura Funerária em Gana” (é dela a foto abaixo). É absolutamente transgressor, em um tempo no qual escondemos a morte em espaços assépticos e silenciosos, ouvir batuques e cantos enquanto se enterra alguém dentro de um caixão em formato de celular. Tristeza e alegria, irmãos que Gana não separou.

***

Quero terminar com um trecho do livro “Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk. Tem paciência e lê, vai. É um presente. E na vida, isso às vezes é oxigênio.

 Arquivo pessoal

Para Carlos, para Preta, a Gana, para todas as pessoas que não esquecem que um dia vão morrer: um beijo.

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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