COLUNA

Fabiana Moraes

Os homens não possuem mais direito de trair do que as mulheres

Tentar defender Sarah dizendo que ela não traiu é ao mesmo tempo afirmar que as mulheres que têm relações extraconjugais merecem ter seus filhos ou outros familiares eliminados

25 de Fevereiro de 2026

Há quatro anos, janeiro de 2022, uma mensagem chegou no grupo da minha família. Era minha irmã, Flávia.

“O amigo de painho, Severo, faleceu. Ele e a mãe foram assassinados pelo cunhado”.

Ficamos em choque: Severo, assim como meu pai, também era fotógrafo e costumava visitar nossa casa, principalmente aos domingos. Ele tinha 57 anos e conhecia painho há décadas. Trabalharam juntos diversas vezes. Sua mãe, dona Amara, tinha 91 anos.

Adriana, filha de Amara e irmã de Severo, havia registrado um boletim de ocorrência por violência doméstica na Delegacia da Mulher e pediu medida protetiva em 30 de novembro de 2021. Até o dia do crime cometido pelo seu ex-marido e pai do seu filho, a medida não havia sido concedida.

O assassino, um marceneiro que costumava bater na esposa, sabia que Adriana não estava na residência naquele dia, e sim viajando pelo interior. Mas ele queria feri-la profundamente. Conseguiu.

Semanas depois, próxima a um círculo de homens, percebi, ao ouvir a conversa entre eles, que era Adriana, e não o assassino, a pessoa criticada pela morte de Amara e Severo.

Fevereiro de 2026: o país assiste à devastação de Sarah Tinoco, cujos dois filhos foram mortos pelo próprio pai, o então secretário municipal Thales Naves Alves Machado, em Itumbiara (GO). Depois de atirar nas crianças, ele se matou. Antes, deixou uma carta. Não uma carta qualquer, mas um documento cuidadosamente construído para organizar a memória do crime: justificar-se, narrar-se, apresentar-se como homem sofredor. Queria ferir profundamente a mulher. Conseguiu.

Na internet, Sarah tornou-se para muita gente não a terceira vítima do marido, mas culpada pelas três mortes.

Tanto no caso de Adriana quanto no caso de Sarah, as condutas das mulheres ganharam tanto ou mais protagonismo que os atos de extrema violência contra seus familiares.

Sobre a maior parte delas — e os casos de homens que matam parentes e os próprios filhos para atingir suas companheiras são muitos — paira sempre uma perversa pergunta: “mas o que ela fez para ele ter chegado a esse ponto?

Não só o horror perpetrado por Thales, mas o posto ocupado por ele e o fato de Sarah ser filha de um prefeito tornaram o crime ainda mais visível na imprensa — sim, o jornalismo estabelece hierarquias também entre dores e mortes.

Assim, a resposta para a perversa pergunta logo encontrou resposta, encaminhada pelo próprio assassino não só através da carta citada, mas ainda por um vídeo no qual Sarah aparecia beijando um homem. A sequência lógica pretendida pelo criminoso se impôs: ele descobriu, ele sofreu, ele agiu. A tragédia, então, passou a ter uma motivação íntima, quase compreensível. A culpada: ela, que, de acordo com ele, era uma traidora.

Estava alastrada na internet a palavra que assassina a mulher: traidora. Infiel.

Qual seria a população mundial se cada mulher que descobrisse a traição do companheiro resolvesse matar os próprios filhos?

Nas minhas redes, perguntei: mas qual seria a população mundial se cada mulher que descobrisse a traição do companheiro resolvesse matar os próprios filhos?

Não demorou e vários comentários surgiram. Um homem me chamou de “vadia”. Outros perguntavam, indignados, como uma mulher poderia fazer isso com o marido. Mas muita gente também saiu em defesa de Sarah afirmando que ela não traiu, que estavam separados. Para mim, esse último ponto precisa ser tensionado. É ele, e não o machismo e a gritaria de um bando de gente hipócrita, que merece nossa atenção.

Proponho aqui o desconforto necessário: e se ela tivesse traído? Isso justificaria dois assassinatos infantis?

O debate público está coalhado de um absurdo moralista no qual a mulher é desde sempre uma vilã — ou melhor, uma vadia. Milhões de homens traem todos os dias e são perdoados: é como se o ato fosse algo naturalíssimo no caso deles, uma extensão da masculinidade. Dessa forma, as milhões de mulheres traídas devem apenas aceitar o que parece destino — preservando, é claro, seus filhos vivos.

Tentar defender Sarah dizendo que ela não traiu é ao mesmo tempo afirmar que as mulheres que têm relações extraconjugais merecem ter seus filhos ou outros familiares eliminados.

Tentar defender Sarah apontando sua “inocência” é preservar aos homens o direito de seguir tendo acesso ao sexo para além das parceiras sem se preocupar com o julgamento moral que recai sobre mulheres infiéis.

Os homens não possuem mais direito de trair do que as mulheres. E, obviamente, elas também o fazem — embora, na regularidade estatística, são eles que traem mais e que também, quando traídos ou abandonados, transformam ruptura conjugal em vingança letal.

A literatura internacional chama esse fenômeno de revenge filicide — o assassinato de filhos para punir a mãe. Pesquisa publicada no Journal of Forensic Science aponta que, em casos de filicídio após separação, a motivação retaliatória contra a ex-companheira aparece com frequência relevante. Estudos conduzidos nos Estados Unidos e no Reino Unido indicam que homens são maioria nos casos de filicídio com motivação vingativa após conflitos conjugais.

No Brasil, ainda carecemos de um sistema nacional consolidado de dados específicos sobre filicídio por vingança. Mas os números gerais de violência doméstica ajudam a dimensionar o cenário. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.463 feminicídios em 2023 — o maior número da série histórica. A maior parte dos crimes foi cometida por parceiros ou ex-parceiros. Em muitos desses casos, filhos também são mortos ou ameaçados como instrumento de controle e punição.

Meninos e meninas deixam de ser sujeitos e tornam-se extensões da mulher. Símbolos de ‘honra’, de traição, de desafio

O sociólogo José Carlos Sturza de Moraes afirma que o filicídio, nesses contextos, é a face mais cruel do feminicídio: a mulher é condenada a sobreviver. Ela permanece viva, mas carrega a morte dos filhos como sentença permanente. A lógica é: se não posso controlar você, destruo o que está ao seu redor. Há algo que se repete nesses crimes: a ideia de posse. Meninos e meninas deixam de ser sujeitos e tornam-se extensões da mulher. Símbolos de “honra”, de traição, de desafio. Quando o controle masculino é ameaçado, alguns homens recorrem àquilo que aprenderam como último recurso de poder: a violência. As mães, por sua vez, enfrentam o tribunal popular Sarah é somente o exemplo mais recente. São julgadas pela roupa, pela suposta infidelidade, pelo fato de terem seguido a vida. São acusadas até quando sobrevivem.

(Lembro-me quando, anos atrás, publiquei uma coluna falando sobre Miguel e Mirtes. Na foto, ela sorria. Uma pessoa a censurou em um comentários nas minhas redes sociais. Um horror).

Todas as vezes que penso ou escrevo sobre a condição das mulheres em um mundo talhado de violência dirigida a elas, penso na quantidade de acordos e dribles que cada uma realiza para se manter de pé e respirando. “Como quer que a mulher vá viver sem mentir?”, pergunta uma canção de Caetano Veloso.

Não se trata de defender traições, mas de recusar a lógica que transforma conflitos afetivos em atenuantes para homicídio. Se Sarah traiu, não importa. Se não traiu, tampouco. Nada — absolutamente nada — autoriza um homem a matar duas crianças. Matar a mãe e o irmão de uma mulher que tentou se livrar da violência vivida dentro da sua própria casa.

O que precisamos perguntar não é sobre a fidelidade dela, mas sobre o modelo de masculinidade que ensina que a honra masculina vale mais do que a vida infantil. Enquanto continuarmos buscando na conduta das mulheres a explicação para a violência dos homens, seguiremos vendo crianças sendo assassinadas por pais egocêntricos — e que ainda recebem o afago da sociedade.

***

Quero deixar aqui um texto que minha irmã, Flávia, escreveu para o meu pai:

Meu pai está triste,

Hoje ele perdeu um amigo

Um amigo chamado Severo.

Mas era a suavidade em pessoa.

Hoje meu pai está triste,

Pois sente pela Adriana,

Mulher do seu amigo

que através de um golpe

tornou-se viúva.

Hoje meu pai está triste,

Porque um homem

Não queria aceitar a separação

Da irmã do seu amigo Severo.

E por vingança, ele golpeou

A mãe do seu amigo

que tinha 91 anos de idade

Mas ele não se deu por contente

E assassinou também o amigo do meu pai.

Hoje meu pai está triste,

Pois perdeu seu companheiro de trabalho

Porque o filho de Severo ficou sem pai,

sem avó e com a mãe viúva.

Um filho sem pai, sem avó

Porque um homem não aceitou se separar

Hoje meu pai está triste,

Por causa do machismo entranhado.

Machismo que não aceita o outro.

Machismo que não aceita o fim do relacionamento.

Machismo que mata.

Eu me enraiveço com a situação machista.

Eu sinto medo do machismo.

Hoje um machista, tomado por ira,

Assassinou uma idosa e um ser Sereno.

Deixando meu pai triste.

(Antes de ir, gostaria de dizer: assim como Clementina de Jesus e Clara Nunes, eu também fui feita, com orgulho, pra vadiar. Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar: eu vou).

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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