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Reportagem

A estética da fumaça: por que o cigarro está de volta?

Como a moda, as redes sociais e a cultura pop resgataram a iconografia do cigarro como fantasia estética de transgressão para uma geração que andava obcecada pela vida saudável

Dolores Orosco 24 de Maio de 2026

A estética da fumaça: por que o cigarro está de volta?

Dolores Orosco 24 de Maio de 2026
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Como a moda, as redes sociais e a cultura pop resgataram a iconografia do cigarro como fantasia estética de transgressão para uma geração que andava obcecada pela vida saudável

Hailey Bieber, influenciadora com mais de 57 milhões de seguidores no Instagram e ícone da perfeição saudável das chamdas #cleangirls, surpreendeu ao surgir fumando sorridente em um ensaio da revista “Interview”, em abril deste ano. Um mês antes, a caçula das Kardashian, Kylie Jenner, com sobrancelhas descoloridas e olhar blasé, estampou a capa da Vanity Fair, acendendo um cigarro. Em fotos de paparazzi que rapidamente viralizaram, a cantora Rosalía presenteia com um buquê de cigarros Parliament a colega Charli XCX, a criadora do universo “brat” que moldou a estética pop do último ano (leia-se nostalgia dos 90’s e do “heroin chic”). Enquanto isso, hashtags como #cigarettegirl e #smokepose acumulam milhões de visualizações no TikTok, no Pinterest e no Instagram, embalando vídeos e selfies que celebram um revival do cigarro como acessório de rebeldia, melancolia cool e sensualidade calculada.

Depois de décadas de campanhas antitabagistas e da associação direta entre nicotina e doenças respiratórias graves, o cigarro voltou a ocupar espaço nas imagens que definem tendências. Não apenas como hábito — em 2025, o Ministério da Saúde divulgou o primeiro aumento de fumantes em 20 anos: um crescimento de 9,3% para 11,6% —, mas também como linguagem estética. Em um momento em que a internet parece saturada pela lógica da rotina de autocuidado, da alimentação impecável e da produtividade transformada em estilo de vida, os bastonetes cancerígenos se tornaram símbolo de ruptura.

No entanto, a relação entre tabagismo, moda e cultura pop está longe de ser novidade. Ela atravessa o cinema clássico de Hollywood, os movimentos femininos do século 20, os editoriais das top models dos anos 1990 e a iconografia da música pop. O que muda agora é o contexto: se antes o cigarro podia ser associado à emancipação feminina ou ao glamour cinematográfico, hoje ele retorna em um ambiente dominado pelo algoritmo, pela hiperexposição digital e por um poder imagético cuidadosamente construído para parecer espontâneo.

Se antes o cigarro podia ser associado à emancipação feminina ou ao glamour cinematográfico, hoje ele retorna em um ambiente dominado pelo algoritmo e pela hiperexposição digital

Para André Carvalhal, autor do livro “A Alegria em Ficar de Fora: como se desconectar do mundo digital e se reconectar com você, as pessoas e a natureza” (Editora Agir, 2025), esse retorno do cigarro como fenômeno comportamental está diretamente ligado ao esgotamento de um ideal de perfeição vendido nos últimos anos pelas redes sociais e pela indústria do bem-estar. “Existe uma fadiga da indústria do wellness, que na última década criou padrões exagerados e restritivos de alimentação, exercício físico e uma estetização de vida perfeita”, diz. Carvalhal aponta ainda uma curiosidade da geração Z: os mesmos jovens que reduziram drasticamente o consumo de álcool agora parecem mais abertos ao cigarro. “É contraditório, mas ao mesmo tempo, tem muito sentido como sendo uma das formas de reivindicar liberdade desse padrão minimal, dessa ‘clean girl’ perfeita. É um momento de contrapor essa estética”, explica.

A relação entre cigarro e transgressão existe há décadas. Um século atrás, fumar em público era considerado um ato escandaloso para mulheres. Foi justamente nesse período que ele passou a ser apropriado como símbolo de modernidade feminina. A historiadora Marissa Gorberg Stambowsky, autora do estudo “A Mulher e o Cigarro: representações de feminilidade nos anos 1920”, lembra que o contexto da época era completamente diferente do atual.

“Naquele tempo não havia tantas evidências científicas dos malefícios enormes do tabagismo. A indústria do cigarro estava se desenvolvendo, a propaganda era liberada e o ato de fumar era um símbolo de rebeldia e modernidade”, afirma. Marissa explica que o cigarro também funcionava como marcador de gênero. “Fumar era um ato só permitido aos homens. Antigamente, quando se terminavam os jantares eles iam degustar seus cigarros, charutos ou cachimbos em ambientes separados, que as mulheres não tinham acesso. Aquelas que fumassem público eram consideradas vulgares”, diz.

A virada dessa imagem aconteceu em grande parte graças a Hollywood e à publicidade. “O cigarro passou a figurar como um dos símbolos desse desejo de equiparação feminina”, explica. Ao longo do século 20, fumar virou um elemento inseparável da construção de personagens icônicos. Audrey Hepburn fumando com elegância em “Bonequinha de Luxo”, Marlene Dietrich transformando a fumaça em ferramenta de sedução, James Dean eternizando a rebeldia juvenil com um cigarro nos dedos: a moda absorveu todas essas referências.

Durante os anos 1990, o tabagismo aparecia em editoriais de moda como símbolo de decadência glamourosa, introspecção e hedonismo. As campanhas de marcas de luxo exploravam corpos magros, olhares cansados, maquiagens borradas e atmosferas noturnas. Era o auge da estética “heroin chic” – personificada na figura da top model britânica Kate Moss – criticada posteriormente por glamourizar distúrbios alimentares e o uso de drogas. Agora, parte desse imaginário parece voltar remodelado para a lógica das redes sociais.

“A autenticidade foi varrida pelo algoritmo”

A influenciadora de moda Gabb vê uma diferença fundamental na onipresença do cigarro nos editoriais fashion dos anos 1990 e nos atuais. “Antigamente os ensaios nas revistas de moda traziam as modelos interpretando um personagem, com cenários que contavam uma história. Era mais artístico e teatral. Uma mulher fumando um cigarro sozinha sentada na calçada, na porta de um prédio, já dava para supor o que aquela cena estava dizendo”, defende Gabb. “Hoje, os ensaios parecem posts de Instagram. Nesse contexto, eles querem vender essa estética da #cigarettegirl como uma evolução da #cleangirl, que já foi tão usada que ficou barata.”

Para Gabb, o cigarro nos editoriais contemporâneos funciona mais como signo visual do que como incentivo direto ao consumo. “A autenticidade foi varrida pelo algoritmo. Hoje, uma foto de uma mulher tomando uma coca-cola, fumando um cigarro com cara de quem acordou tarde é uma transgressão, enquanto nos anos 1990 seria algo corriqueiro”, diz.

Hoje, uma foto de uma mulher tomando uma coca-cola, fumando um cigarro com cara de quem acordou tarde é uma transgressão, enquanto nos anos 1990 seria algo corriqueiro

Essa lógica ajuda a explicar por que imagens de cigarro voltaram a circular com tanta força justamente em uma época obcecada por bem-estar, skincare, alimentação funcional e saúde mental. O cigarro é uma antítese da vida perfeitamente otimizada. Carvalhal acredita que o fenômeno também está ligado ao fato de as novas gerações não terem vivido diretamente o auge das campanhas antitabagistas.

“A geração Z não passou pelo que a geração anterior viveu, de ter visto todo um movimento de campanhas antitabagistas, a proibição do cigarro em ambientes públicos fechados por lei. E aí o ato de fumar agora aparece como uma coisa high-tech com os vapes, além de fofa e bem-embalada nas fotos cool das influenciadoras”, afirma. Para ele, hashtags como #smokepose mostram que o cigarro está mais ligado à construção de imagem do que necessariamente ao hábito de fumar em si. “Você vê essa #smokepose no Pinterest e isso prova que o cigarro está muito mais atrelado a uma imagem e à estética do que ao hábito de fumar em si. Por isso eu acho que essa moda pode ser muito mais curta do que a gente imagina”, diz.

A geração Z não passou pelo que a geração anterior viveu, de ter visto todo um movimento de campanhas antitabagistas, a proibição do cigarro em ambientes públicos fechados por lei

Entretanto, não só a moda e as redes sociais, mas também a cultura pop vem reforçando a iconografia do cigarro. Séries como “Euphoria” exploraram visualmente o cigarro como elemento de sensualidade e vulnerabilidade emocional. Em “Stranger Things”, o excesso de cenas de tabagismo gerou reação pública. Um levantamento realizado pelo grupo antitabagista Truth Initiative encontrou 262 cenas em que personagens apareciam fumando apenas na segunda temporada da série, contra 182 na primeira, em 2019. Depois da repercussão, a Netflix prometeu diminuir as cenas de tabagismo em suas produções originais classificadas para menores de 14 anos, abrindo exceção apenas para casos de “precisão histórica”.

O debate levanta uma pergunta inevitável: imagens de cigarro na cultura pop influenciam o consumo? Gabb relativiza pelo menos papel da moda nesse processo. “A moda não glamouriza o tabagismo, ela constrói imagens e nelas tudo vai aparecer. Outras áreas têm mais poder de influência, caso do cinema”, afirma. “Um exemplo é essa onda da magreza extrema que está voltando. Vem de Hollywood, porque as modelos não estão mais tão magras. As atrizes, sim. A moda é apenas um espelho da sociedade, um reflexo do que está acontecendo.”

Ainda assim, pesquisadores apontam que representação e desejo caminham juntos, principalmente entre os mais jovens. A historiadora Marissa Gorberg lembra que símbolos de autodestruição costumam ganhar força estética em períodos de crise social e ansiedade coletiva. “O desejo de fruição do próprio corpo, mesmo sabendo que aquilo pode causar um dano, é onde mora a transgressão. O ser humano sempre vai querer reafirmar a sua individualidade, sua independência, seu livre arbítrio”, diz.

#cigarettegirl x #smokeface

Apesar da força estética das imagens, existe um contraste inevitável entre o glamour visual do cigarro e seus efeitos concretos sobre o corpo – especialmente em uma indústria como a da moda e da beleza, que historicamente valoriza juventude e tratamentos estéticos de alta performance. A dermatologista Marcelle Nogueira, coordenadora do departamento de geriatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, explica que o envelhecimento causado pelo cigarro é diferente do envelhecimento natural.

“O tabagismo acelera esse processo porque aumenta a produção de enzimas que degradam o colágeno, as fibras elásticas e outras proteínas essenciais para manter a firmeza e elasticidade da pele”, afirma. “Os sinais mais comuns do que chamamos de ‘smoke face’ [rosto de fumante] incluem rugas profundas e prematuras, especialmente ao redor dos lábios, popularmente conhecidas como ‘código de barras’, nos cantos dos olhos e na região das têmporas. A pele dos fumantes tende a ficar mais fina, com aspecto ressecado e textura áspera”, explica.

A dermatologista ressalta que fumantes têm aproximadamente cinco vezes mais chance de desenvolver rugas prematuras em comparação a não fumantes. Além disso, a fumaça do cigarro contém mais de 5 mil substâncias químicas nocivas. “Nicotina, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, monóxido de carbono e metais pesados estão entre as substâncias particularmente prejudiciais para a pele e cabelos”, afirma.

Os impactos também atingem diretamente o mercado de procedimentos estéticos, hoje tão associado ao universo das celebridades e influenciadores que ajudam a popularizar determinadas imagens de beleza e saúde nas redes. “O cigarro prejudica a cicatrização de feridas e a recuperação da pele após tratamentos mais invasivos. A nicotina causa vasoconstrição, reduzindo o fluxo de sangue, oxigênio e nutrientes necessários para a regeneração da pele. Para procedimentos como laser, peelings químicos e cirurgias dermatológicas, fumantes têm maior risco de complicações, cicatrização lenta, infecções e resultados estéticos inferiores”, diz.

A dermatologista afirma ainda que até tratamentos associados ao rejuvenescimento podem perder eficácia em fumantes. “No caso de bioestimuladores de colágeno, o ambiente celular comprometido pelo tabagismo pode reduzir a eficácia, pois a capacidade da pele de produzir colágeno novo está prejudicada”, afirma.

Em uma era em que a estética movimenta bilhões de dólares e em que skincare, preenchimentos, lasers e bioestimuladores são transformados em conteúdo diário nas redes sociais, existe algo de paradoxal no retorno visual do cigarro. O mesmo universo que vende rotinas de autocuidado ultrassofisticadas flerta novamente com um dos hábitos mais associados ao envelhecimento precoce.

Talvez seja justamente aí que esteja a força dessa nova iconografia: o cigarro retorna menos como símbolo de prazer e mais como fantasia estética de imperfeição, excesso e desobediência em uma internet saturada por filtros, protocolos de beleza e performances de vida saudável. A fumaça, afinal, pode até ser fashion. O problema é que seus efeitos estão bem longe do ideal de beleza do TikTok. Ou você já viu alguma #cigarettegirl com #smokeface?

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