Vai fumar? Mesmo?
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Ilustração de Bruno Senise

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Depoimento

Como você parou de fumar?

Personalidades contam suas histórias e dão dicas para quem precisa se inspirar — e respirar melhor

Amauri Terto 24 de Maio de 2026

Como você parou de fumar?

Amauri Terto 24 de Maio de 2026
Ilustração de Bruno Senise

Personalidades contam suas histórias e dão dicas para quem precisa se inspirar — e respirar melhor

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    Foto de Gustavo Sena

    “Em troca de uma falsa sensação de mobilidade social, eu estava colocando minha vida em risco”

    Zudizilla, cantor

    “Eu nunca me considerei fumante. Sempre tive cigarros, mas era por outro motivo: bengala social. O cigarro me dava a oportunidade de ir até o fumódromo em eventos sociais e ter um tempo antes de ter que sustentar de novo o personagem que precisa, em alguns momentos, ser simpático ainda que não queira.

    Os relacionamentos fortalecem muito a carreira de um artista, então é impossível fugir dessa dinâmica, e por isso eu sempre tinha uma carteira de cigarro. Quando o evento acabava, me sobravam cigarros, e eles demoravam para terminar — e aí eu não comprava de novo. Eu também fumava muito quando bebia, e eu bebia muito, o que foi outra coisa que limei da minha vivência, e o cigarro foi junto nesse mesmo balaio.

    Eu nunca fui viciado em cigarro, e entender isso me fez perceber que, em troca de uma falsa sensação de mobilidade social, eu estava colocando minha vida em risco.

    Há alguns meses tenho encarado a realidade de frente e com o mínimo de interferência possível na minha sobriedade. Tenho tido vontade de estar mais presente mesmo em momentos que são desconfortáveis para mim, e também deixei de participar de vários outros momentos que exigiam de mim mais do que eu poderia dar.

    Eu ainda sinto falta dos diálogos do fumódromo e dos segundos de solitária cumplicidade com o cigarro, mas eles não eram correlacionados com o vício.”

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    Foto de Sergio Zalis

    “Fiquei desequilibrada ao ponto dos meus amigos me aconselharem a voltar com o cigarro”

    Rosane Svartman, cineasta

    “Fumei por 10 anos e sofri pra parar. Fiquei desequilibrada a ponto dos meus amigos me aconselharem a voltar com o cigarro para não perder o emprego e a amizade deles. Na época, eu associava fumar à inspiração para escrever. As ideias de roteiro só surgiam depois do primeiro trago. 

    Minha estratégia para deixar o vício foi estabelecer um dia: 14 de junho de 1996, nunca me esqueci. Meses antes disso, fui trabalhando a ideia na cabeça, diminuindo a quantidade de maços até parar de vez, nessa data. Depois, radicalizei cortando os hábitos que geravam gatilhos, como tomar café, beber e sair à noite. O mais difícil era a convivência com outros fumantes, que não tinha como evitar. Todo mundo fumava nos sets de filmagem antigamente.

    Minha vida social foi abalada, passei a comer muito doce e engordei. Mas foi justamente essa dificuldade em parar que me manteve firme na meta. Se era um processo tão torturante, provava o quanto aquilo fazia mal ao meu corpo. Também ajudou o fato de uma amiga também ter decidido parar nessa época. Trocávamos figurinha e nos apoiávamos muito. 

    Não vou negar que, às vezes, quando alguém acende um cigarro perto de mim, me dá vontade, mesmo tendo parado há 30 anos. Já sonhei que estava fumando e, quando isso aconteceu, fiquei brava comigo mesma. Mas nunca cedi à tentação.”   

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    Foto Arquivo Pessoal

    “Um dia acordei e decidi parar de vez. Fui até a farmácia, comprei aqueles adesivos, mudei hábitos alimentares e cortei a cerveja e o café por seis meses”

    Sergio Vaz, poeta

    “Sou de um tempo em que fumar era um rito de passagem. Você deixava de ser menino para se tornar homem quando começava a fumar e a beber com os amigos. Fui fumante por 30 anos.

    Por um bom período achei que estava no controle. Primeiro só fumava quando bebia cerveja ou café, depois inventei uma regra que o primeiro cigarro era só depois do meio-dia. Até que nos últimos dois anos de vício eu começava a fumar logo que acordava. Saía com a minha esposa e ela ficava com o cabelo cheirando a fumaça. Não era justo.

    Um dia acordei e decidi parar de vez. Fui até a farmácia, comprei aqueles adesivos, mudei hábitos alimentares e cortei a cerveja e o café por seis meses. Minha família teve que ter muita compreensão, porque as crises de abstinência não eram fáceis: eu ficava nervoso, irritado. 

    O que também ajudou muito foi compartilhar minha batalha contra o cigarro nas redes sociais. Na época eu já tinha mais de 100 mil seguidores no Instagram e muita gente dizia que estava se inspirando com os meus textos para parar de fumar também. Foi uma motivação importante, sentia que devia me manter firme para fazer aquela turma acreditar que era possível parar. 

    Estou sem fumar há 3 anos. Não é fácil, às vezes a vontade bate. Mas é aquele negócio: só por hoje, vale à pena.”

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    Foto de Carolina Vianna

    “Meu último cigarro foi um Malborão vermelho que o Dicaprio me deu”

    Samantha Schmütz, atriz e cantora

    “Resolvi largar o cigarro quando comecei a acordar com pigarro e um muco espesso na garganta toda manhã, uma coisa horrorosa. Um conselho ótimo do meu pai também serviu de motivação: ‘Sua garganta é como uma guitarra e quando você fuma está cerrando as cordas’. Sendo cantora e atriz, preciso demais da minha voz. 

    Aproveitei uma temporada em Los Angeles, em 2017, para fazer um detox. Mudei a alimentação, peguei firme na malhação e além do cigarro, cortei café e bebida alcoólica. Depois de 20 dias, estava me sentindo super bem. A pele com mais viço, respirava melhor, tinha mais disposição. 

    Até que fui convidada para uma festa pós-Oscar muito absurda! Estavam lá a Madonna, o Mick Jagger, a Charlize Theron… Fui até a varanda e vi o Leonardo DiCarpio fumando. Pedi um cigarro só para me enturmar e ele me deu, super simpático. Mas na primeira tragada a pressão caiu e eu quase desmaiei. Fui me arrastando até o banheiro suando frio, passando mal mesmo e demorei uns 20 minutos para me recompor.

    Depois disso nunca mais fumei. Acho chique contar que meu último cigarro foi um Malborão vermelho que o Dicaprio me deu.”

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    Foto divulgação

    “O momento ideal é o agora, é o quanto antes, porque a sua saúde está em jogo”

    Helen Ramos, atriz, roteirista e podcaster do RadioHel

    “É importante entender que a gente tenta algumas vezes até conseguir. Tem muita gente que para, volta e diz ‘não consigo’. Percebi isso e me inspirei em quem parou. A virada de chave foi entender que não tem o momento certo, ideal. Você pode achar que não é o momento porque vai sair de férias, ou porque foi demitido. Ou quer fumar porque está feliz, ou porque está triste. O momento ideal é o agora, é o quanto antes, porque a sua saúde está em jogo.

    Eu fui criando miniestratégias: conversei muito com quem já tinha parado, passei um período sem beber nada, fiquei mais em casa, mais reclusa, e preenchi os espaços vazios com exercício físico. Isso ajuda muito porque você descarrega em algum lugar. Não adianta ser um exercício qualquer, tem que ser um esporte que te humilha: que você saia de lá exausto, pingando, feio.

    Também criei um grupo com amigos na mesma situação, em que falamos das angústias e ficamos menos solitários.

    Depois de 15 dias, saí pra correr, e notei que meu fôlego estava melhor, meu cheiro mudou, até minha língua ficou com um aspecto melhor.

    Tenho 39 anos, fui fumante por 20.”

Um assunto a cada sete dias