Será que é amor?
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Ilustração de Isabela Durão

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Conversas

João Constâncio: "Eros é visto não só como loucura, mas uma doença autodestrutiva"

Filósofo e professor português retoma em novo livro a obra de Platão para debater uma questão fundamental: o que é o amor?

Leonardo Neiva 14 de Setembro de 2025

João Constâncio: “Eros é visto não só como loucura, mas uma doença autodestrutiva”

Leonardo Neiva 14 de Setembro de 2025

Filósofo e professor português retoma em novo livro a obra de Platão para debater uma questão fundamental: o que é o amor?

Vivemos em um tempo de relações fragmentadas, período de amores mediados pelas redes sociais e apps de relacionamento. Ainda por cima, um momento no qual as gerações mais novas se relacionam menos e fazem ainda menos sexo, como apontam pesquisas recentes. Também uma época marcada por fenômenos como o ghosting, o love bombing, o benching, o breadcrumbing, o dating burnout e uma infinidade de novas expressões, quase sempre em inglês, que tentam definir essas novas formas de agir nas relações.

Para resumir isso tudo e muito mais, não é incomum que alguém saque do bolso o trunfo dos “amores líquidos”, conceito desenvolvido pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) para definir os relacionamentos da pós-modernidade — em geral, enfatizando o caráter frágil, fugaz, esparso e superficial das relações afetivas atuais.

Mas nessa realidade que parece mais complexa do que nunca para quem busca se apaixonar, também acabamos perdendo de vista uma questão fundamental que segue tão ou até mais difícil de responder hoje quanto na Antiguidade: o que é o amor?

É justamente sobre essa pergunta — ou melhor, sobre a natureza do eros desde a Grécia Antiga — que se debruça o filósofo e escritor português João Constâncio em seu novo livro “Três Discursos Sobre Eros” (Tinta-da-China Brasil, 2025), que sai pela coleção Ensaio Aberto.

A obra investiga a maneira como o filósofo grego Platão (428 a.C.-347 a.C.) trata o tema em “Fedro”, um de seus livros mais conhecidos, onde ele traça um diálogo filosófico entre um Sócrates reimaginado e o jovem ateniense Fedro. Nessas trocas, os personagens abordam, entre outras coisas, os significados e implicações do eros na sociedade da época. “Eu me centro no eros e, portanto, evito a palavra amor porque ela tem conotações judaico-cristãs complexas”, explica Constâncio, que é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista a Gama.

 Divulgação

Além da análise do texto platônico, ele retoma obras e pensadores essenciais para a reflexão sobre eros ao longo do tempo. Entre eles, os estudos da escritora Anne Carson, conhecida por suas traduções do grego antigo e pelo clássico ensaio “Eros, o Doce-Amargo” (Bazar do Tempo, 2022), em que ela analisa as leituras sobre o amor da Antiguidade à literatura moderna — leia um trecho do livro aqui.

Outra referência importante é a forma como as obras de autores a exemplo de Proust, Thomas Mann e Stendhal abordam o tema, além das reflexões de pensadores centrais para a história da filosofia, como Hegel, Nietzsche e Heidegger. “O fato do ‘Fedro’ ter tanta importância nesses autores significa que ele ecoa na modernidade. E creio que os ecos desses autores, por sua vez, chegam perfeitamente até nós”, afirma Constâncio.

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Por que Platão?

Em primeiro lugar, não é como se Platão tivesse desaparecido completamente do nosso vocabulário amoroso cotidiano. Afinal, ele ainda dá nome a uma das formas mais idealizadas e distantes que conhecemos desse tipo de afeto: o amor platônico.

Mas o filósofo e seu “Fedro” foram também pioneiros na exploração do amor — ou melhor, do eros — naquilo que ele tem de mais duplo e contraditório. Como descreve a escritora brasileira Tatiana Salem Levy no prefácio da obra de Constâncio: “Por um lado, a ‘loucura’ instaurada por eros se revela no desejo de posse e na entrega a um mundo de ilusão. Por outro, essa loucura tem um caráter ‘divino’, pois consiste numa experiência do belo que revela o outro como mistério e, com isso, desperta a alma para a interrogação da verdade.”

Segundo o autor português, por mais que a sociedade e as relações humanas tenham mudado ao longo dos séculos, Platão segue relevante por trazer à mesa aquilo que Constâncio chama de “olhar essencial” sobre o assunto: “Aquele olhar que sabe captar o que é estrutural num determinado fenômeno”.

Constâncio enfatiza também a importância do pensamento de Platão como base para a história ocidental e os valores cristãos. “Há toda uma forma de pensar a relação entre a beleza e a verdade, entre o sensível e o inteligível, entre a nobreza e a vileza, que tem a sua origem aqui.”

Um contentamento descontente

Não são só o soneto de Camões ou a canção do Legião Urbana que apontam que “tão contrário a si é o mesmo amor”. Num trecho do livro tratando da obra de Anne Carson, Constâncio sublinha a interpretação que a autora faz sobre o tema na lírica grega, de eros como o “doce-amargo”, uma expressão que vem da poeta grega Safo.

O desejo de posse sexual é apenas uma parte de um desejo de posse mais abrangente — de um desejo de dominar e controlar todas as facetas e dimensões da vida da outra pessoa

“É essa dissolução interior que é simultaneamente doce e amarga, prazerosa e dolorosa”, descreve ele no livro. “Essa ideia de uma contradição de sentimentos — e, portanto, de divisão interior — atravessa toda a lírica grega e romana.”

Outra dessas aparentes contradições do eros aparece no segundo discurso do “Fedro”, em que Sócrates indica que “os apaixonados gostam dos seus amados, ou sentem afeto por eles, ‘como os lobos se deliciam com os cordeiros'”. Nesse caso, adentra um tema central para pensar também as relações contemporâneas: o dos relacionamentos possessivos e abusivos.

“Sim, sugere que eros é essencialmente um desejo de posse, e que o seu foco é a posse sexual. E sugere igualmente, uma vez tomada em conjunto com o resto do discurso, que o desejo de posse sexual é apenas uma parte de um desejo de posse mais abrangente — de um desejo de dominar e controlar todas as facetas e dimensões da vida da outra pessoa, a ponto de a reduzir a uma fonte de prazer”, o autor analisa no livro.

Ele [Platão] introduz uma forma de pensar que separa a sensualidade e o desejo de posse de um sentimento de reverência, de bem-querer

Mais do que isso, na voz do Sócrates personagem, Platão descreve o eros como algo que apenas parece amor, mas na verdade mistura dois opostos: amor e ódio. Para Constâncio, essa dimensão possessiva é apresentada pelo pensador como intrínseca ao eros. Portanto, a única forma de alcançar a philiao amor virtuoso, desinteressado, que não seja predatório — seria “domesticando o eros terrível, o cavalo mau”.

Algo próximo do dilema que vivemos até hoje sobre construir relações saudáveis, e não tóxicas. “Ele [Platão] introduz uma forma de pensar que separa a sensualidade e o desejo de posse de um sentimento de reverência, de bem-querer.”

O eros e o ego

O amor é necessariamente egoísta? Noção frequentemente combatida em narrativas românticas — nas quais saber deixar o outro ir, ou então querer o bem do ser amado acima de qualquer coisa, parece invariavelmente a resposta correta —, a dúvida está também desde sempre no cerne das reflexões sobre o sentimento.

Ainda que quase ninguém defenda abertamente coisas como o ciúme doentio ou um comportamento tóxico e destrutivo dentro de um relacionamento, ainda convivemos com frases feitas nesse sentido, como a ideia de que “um pouco de ciúme é bom” ou o antigo dito popular que assevera que “quem ama cuida”. Também seguimos acompanhando casos de violência envolvendo ciúmes e a tentativa absurda de controle do outro — na enorme maioria das vezes com o homem como agressor.

Em “Fedro”, Platão introduz essa ideia do amor como algo profundamente egoísta por meio do discurso do orador Lísias. “O amor que o apaixonado lhe tem é gerado pelo amor que tem a si mesmo — e que nunca perde, ainda que tantas vezes se sinta um pedinte e pareça perder todo o respeito por si mesmo ao comportar-se como tal”, descreve Constâncio num trecho da obra.

Ou seja, até no caso extremo de alguém que parece perder todo o respeito por si próprio em favor do ser amado, trata-se ainda assim de uma extensão do amor por si mesmo. Constâncio, em outro trecho, também cita Proust, para quem cada nova paixão gera “uma sucessão de ‘eus’, que vão nascendo e morrendo”.

No entanto, o autor esclarece na entrevista que o texto platônico, no fim das contas, tende a recusar esse tipo de reducionismo. “Há uma experiência da beleza em eros, que é a experiência de um mistério, de um não saber explicar por que é que o outro aparece como belo, que dá origem a um sentimento de reverência pelo outro. Um querer cuidar, um bem querer dirigido ao outro, e não a si próprio”, acrescenta. Até quando o filósofo destaca em “Fedro” esse lado egoísta e possessivo de eros, ele também sublinha seu caráter de loucura, que acaba destruindo por completo esse impulso de servir a si mesmo.

“O que é descrito é uma experiência autocentrada, mas, por outro lado, é justamente esse autocentramento que destrói o apaixonado”, diz Constâncio.

O louco apaixonado

Se você já sentiu o amor e a paixão como uma espécie de inversão da lógica ou de desconexão com a realidade — perda de controle nem sempre das mais agradáveis —, basicamente viveu algo que Platão já descrevia mais de 2400 anos atrás, e que pode ir além da própria loucura.

“Já na lírica grega, eros é visto não só como mania ou loucura, mas como uma doença autodestrutiva, uma força que vem de fora, se abate sobre o apaixonado e destrói a sua vítima”, diz Constâncio a Gama.

Quando o apaixonado começa a se descuidar até daquilo que é importante para ele para servir e reverenciar o ser amado, trata-se de outro forte indício de loucura. Ainda assim, mesmo com esse lado aparentemente altruísta do amor, sua raiz nunca deixa de estar na busca pela autossatisfação. “Portanto, todo o texto platônico vive dessa ambivalência, dessa tensão.”

Segundo o autor, Platão faz até uma relação entre o apaixonado e o filósofo: afinal, ambos padecem de uma espécie de loucura. “Se essa loucura se vai transformando numa procura de compreender o que é a beleza, então o louco apaixonado é o filósofo, cuja vida experimenta uma enorme disrupção em relação à vida coletiva e cotidiana”, explica.

Amor platônico

Também existem, claro, diferenças importantes entre a forma como o amor era concebido na Antiguidade e o que pensamos do assunto hoje. Uma das principais é aquela que Constâncio define como a “cisão entre o sensível e o inteligível, entre a verdade e a beleza“. Trata-se, na verdade, de algo bastante simples e até óbvio atualmente: a experiência da beleza em eros, ou para o apaixonado, é subjetiva e fruto de projeções individuais.

Mas, pelo contrário, “Platão compreende a beleza como algo que pertence intrinsecamente às coisas, tais como elas são”, aponta o entrevistado. Essa forma de pensar, que coloca coisas e seres como belos ou não em si mesmos, se perdeu para nós, segundo Constâncio.

Aquilo que me parece central no texto platônico é que a ideia de estar apaixonado é não compreender o que nos está a acontecer

A visão do amor como a busca pelo belo e ideal — algo que inclusive está na base da expressão amor platônico como a usamos hoje: um sentimento idealizado, espiritual e inatingível — pode ser também uma das razões porque o sentimento deixou de ocupar, ao longo do tempo, lugar central na filosofia. “É em parte por culpa de Platão e daquilo que se tornou o platonismo. Ou seja, o eros como uma experiência que deve ser sublimada para se transformar num puro amor à verdade”, diz o escritor.

Ainda assim, a relevância do pensamento platônico se mantém em pontos atemporais da experiência de se apaixonar. São reconhecíveis, por exemplo, a loucura e o querer bem, a vontade de sacrificar-se pelo outro, exemplifica Constâncio.

Outro fator crucial seriam as brumas do mistério que continua ainda hoje envolvendo esse sentimento. “Aquilo que me parece central no texto platônico é que a ideia de estar apaixonado é não compreender o que nos está a acontecer. Por que vemos aquela pessoa e não outra como a mais bela? Por que aquela e não outra é por quem estamos apaixonados?”, questiona Constâncio.

“Essa experiência de não saber, que desperta os seres humanos para aquilo que Platão chama de filosofia, tudo isso são dimensões do eros e formas de subjetivização que nós reconhecemos também na nossa experiência atual. Essencialmente por isso é que a reflexão platônica se mantém viva.”

Produto

  • Três Discursos Sobre Eros
  • João Constâncio
  • Tinta-da-China Brasil
  • 288 páginas

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