COLUNA

Vanessa Rozan

Por corpos menos editados e mais próximos da realidade

Quanto mais olhamos corpos de modelos esqueléticas em nossas telas, mais acreditamos que, em comparação a eles, os nossos são errados demais

13 de Agosto de 2025

Estamos assistindo a um retrocesso nas conversas sobre diversidade e inclusão de corpos fora do padrão de beleza. Desde a pandemia, esse contramovimento ganhou força, quando celebridades passaram a aparecer mais magras em um curto espaço de tempo, vimos o surgimento e a ascensão das canetas emagrecedoras, a volta das modelos esqueléticas, o desaparecimento silencioso e repentino dos corpos plus size e mid size das passarelas, tudo com o suporte de divulgação que as redes sociais oferecem, regidas por algoritmos que promovem a circulação o corpo padrão. Garotas cada vez mais jovens passam a se preocupar com sua aparência física e com o envelhecimento e buscam formas de controlar seus corpos para fazê-los caber em uma forma cada vez menos possível, desenhada pela IA. Vejo garotas adolescentes preocupadas com a barriga ou querendo fazer longas caminhadas para queimar a refeição que (mal) acabaram de desfrutar, coisas que eu vivi sendo adolescente nos anos 1990, em plena moda do heroin chic, calças de cintura baixa e manchetes que escrutinaram o corpo feminino de todas as formas possíveis.

Não é da adolescência de hoje — e nem da minha — que a relação da mulher com o corpo não tem um dia de paz. Recentemente, o Reino Unido obrigou a Zara a retirar uma de suas campanhas do ar por apresentar fotos de modelos magra demais. O que acontece é que a sua filha e a minha, eu e você, estamos vendo milhares e milhares de corpos que são parecidos com os das modelos da Zara, só que o nosso cérebro não tem um regulador do que é real e saudável, como fez a britânica Advertising Standards Authority (ASA). Quanto mais olhamos esses corpos em nossas telas, mais acreditamos que, em comparação a eles, os nossos são errados demais. Os pelos, estrias, poros, dobras, rugas, asssimetrias, texturas e afins, que já eram pontos de atenção e de combate alarmados na mídia impressa, agora, na velocidade e na quantidade de conteúdo das redes sociais, passam a alugar um triplex nas cabeças da maioria das mulheres. Afinal de contas, antes você via modelos nas revistas, TV ou filmes de forma bem mais comedida do que temos acesso em nossos celulares. Você também se via refletido no espelho uma ou duas vezes no dia, depois se deparava com corpos de pessoas reais no clube, na praia. Hoje você vê mais corpos no on-line do que na vida real, da mesma forma que se vê refletido mais vezes do que há 15 anos.

Precisamos de um órgão que nos dê um alerta e estabeleça limites daquilo que nossos olhos já se acostumaram a ver como ideal

Enquanto acompanho de perto minha filha de 13 anos, mais vou me desesperando pelas conversas e comentários que as amigas e conhecidas fazem. Como muitas meninas gostam de dizer que quase não sentem fome ou que comem muito pouco perto umas das outras ou dos garotos, para passar a impressão de que são seres especiais que vivem de luz, capazes de controlar tanto esse corpo a ponto de que ele seja quase tão imaterial quanto os corpos virtuais são.

Vejo também a questão da comparação dos corpos entre adolescentes, que se observam em suas próprias fotos e se comparam com corpos de celebridades e modelos que têm acesso a uma equipe completa de cuidados, além dos procedimentos estéticos e cirurgias plásticas, e dos filtros que usam sem que a gente seja notificado da imagem editada. Essa obsessão com o corpo nos seus mínimos detalhes nos tira de qualquer visão macro que possa nos ajudar a enxergar a imagem maior. Além disso, tira nossa atenção para outras pautas tão caras à nossa existência, como projetos de leis que garantam melhores condições de vida e combatam os números alarmantes da violência de gênero.

De tão presente, a tendência da magreza chegou até a se misturar misturar com religião, em uma trend recente chamada “Perder Peso com Deus”. A relação corpo/sacrifício é bastante presente no cristianismo, tá aí o pecado da gula para regular os excessos. A escritora Stephanie Golden escreveu em “Slaying The Mermaid” que “na maioria das vezes, o autossacrifício é uma prática dos impotentes”, refletindo sobre o pensamento da filósofa francesa Simone Weil, que elevou o sofrimento a um valor transcendental. “Ela acreditava que numa sociedade como a nossa, construída sobre grandes desigualdades de poder, o sofrimento para os impotentes é o único caminho para a transcendência.” Todos nós sabemos o custo da manutenção de um corpo dentro do padrão de beleza, que sempre será excludente. Para se aproximar dele, sem os recursos de influencers e celebridades, vale tentar o autossacrifício.

Fato é que perdemos a escala de cinza dos corpos, como se só existisse o muito gordo e o “saudável” magro, que é o que eu leio nos comentários quando abordo o assunto do padrão de beleza de forma crítica. É urgente encontrarmos na publicidade, no cinema, na moda e nas redes sociais diversos formatos de corpos para que nos achemos representados entre eles, corpos menos editados e mais próximos da realidade. Mas, para isso, precisamos de um órgão como aquele lá do Reino Unido, que nos dê um alerta e estabeleça limites daquilo que nossos olhos já se acostumaram a ver como ideal.

Vanessa Rozan é maquiadora, apresentadora de TV, curadora de beleza e bem-estar e colunista da Gama. É fundadora do Liceu de Maquiagem, uma escola e academia de maquiagem e beleza profissional, que durou 14 anos. Fez mestrado em comunicação e semiótica pela PUC-SP, onde pesquisou o corpo da mulher no Instagram e, agora, segue com o doutorado na mesma instituição.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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