Os homens estão perdidos?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Como criar meninos mais sensíveis

Nomear emoções, dividir tarefas de cuidado e rever os exemplos masculinos ao redor são caminhos para formar garotos mais seguros e igualitários

Ana Elisa Faria 21 de Junho de 2026

Como criar meninos mais sensíveis

Ana Elisa Faria 21 de Junho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Nomear emoções, dividir tarefas de cuidado e rever os exemplos masculinos ao redor são caminhos para formar garotos mais seguros e igualitários

O menino cai, faz cara de quem vai começar a chorar, mas “engole” o choro porque ouve que já está grande demais para isso. Depois do almoço em família, a irmã recolhe os pratos da mesa e vai com a mãe para a cozinha enquanto ele volta para a TV ao lado do pai. Na escola, uma piada machista passa batida como brincadeira. Nas redes sociais, vídeos prometem ensinar o que é “ser homem de verdade”.

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Muitas vezes, a criação de meninos passa por esses detalhes: nas frases repetidas automaticamente de geração em geração, nas tarefas cotidianas que alguém deixa de cobrar, no distanciamento que pode acontecer conforme o filho cresce, nas referências que ele encontra para entender quem pode ser.

Criar garotos mais sensíveis não significa que serão frágeis, culpados ou inseguros. Significa dar a eles mais ferramentas para lidar com a vida, aprendendo a reconhecer tristeza, medo e frustração; cuidar de si e dos outros; escutar, dividir espaço, pedir desculpas e lidar com limites. Em outras palavras, é uma forma de ajudá-los a construir uma identidade que não dependa da ideia de superioridade sobre meninas e mulheres, nem da obrigação permanente de parecer forte, invulnerável e no controle.

É justamente essa expectativa que o escritor Jaime Ribeiro, cofundador da Educa Saúde Emocional e autor do livro “Empatia Todo Dia” (LetraMais, 2019), chama de “man box”, uma espécie de caixa estreita de regras sobre o que um menino deve ser para ser reconhecido como homem: forte, dominante, competitivo, heterossexual, emocionalmente contido e distante de tudo o que possa ser associado ao feminino. Quanto mais apertada essa estrutura, menor tende a ser o repertório de emoções dos rapazes — e maior o risco de que tristeza vire raiva, insegurança vire agressividade e vulnerabilidade vire silêncio.

O ponto de partida para mudar o viés da educação dos meninos parece simples, mas exige atenção constante e disposição para rever hábitos profundamente enraizados. A criação, defendem especialistas, precisa reconhecer diferenças sem transformá-las em hierarquia. “O problema é quando a diferença se torna desigualdade”, diz Marcos Nascimento, psicólogo, doutor em saúde coletiva e pesquisador da Fiocruz. Para ele, respeito, cuidado, escuta, carinho e atenção são as bases para formar garotos emocionalmente mais saudáveis.

Como resume Jorge Lyra, professor do departamento de psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador do grupo Gema, que estuda gênero e masculinidades, “o ideal é pensar na educação para a equidade”. A seguir, listamos pontos que a serem considerados quando se fala em criar meninos mais sensíveis.

O que vem antes da raiva?

Quando um menino chega em casa irritado, bate com força a porta do quarto ou responde atravessado para algum familiar, a reação imediata do adulto responsável costuma ser corrigir esse comportamento. A correção pode ser necessária, no entanto, há uma pergunta a ser feita antes: o que essas explosões estão tentando dizer? Para muitos, a raiva acaba funcionando como uma emoção-curinga. Ela aparece porque outras emoções foram desencorajadas ao longo do caminho.

Jaime Ribeiro observa que uma porção desses meninos cresce sem referências para diferenciar tristeza, medo, vergonha e frustração. Segundo o escritor, desde cedo os meninos aprendem que algumas emoções são mais aceitáveis do que outras. “Garotos podem sentir raiva, mas não podem se sentir com o coração partido”, exemplifica. A lógica da “man box” ajuda a entender esse processo. Se um menino aprende desde cedo que demonstrar fragilidade é sinal de fraqueza, ele tende a esconder justamente as emoções que mais precisam de acolhimento.

O resultado é que sentimentos legítimos acabam saindo pela única porta considerada aceitável: a irritação, a hostilidade ou o fechamento emocional. Por isso, escutar não é deixar passar tudo. É trocar o “pare de chorar” por perguntas que ajudem aquele garotinho a nomear o que está sentindo. É mostrar que medo, decepção e tristeza não são defeitos de caráter.

Marcos Nascimento defende a criação de espaços em que eles se sintam confortáveis para expressar dúvidas, medos, inseguranças e incertezas. Esse trabalho cotidiano ajuda a construir segurança emocional, o que faz o menino depender menos da agressividade para se afirmar e mais da comunicação para resolver conflitos.

Cuidado também é coisa de menino

A cena é antiga e comum em muitas casas, mas continua reconhecível: depois do lanche, a filha recolhe os copos; o filho segue jogando videogame. Quando isso se repete dia após dia, a família transmite a mensagem de que o trabalho do cuidado é tarefa feminina — e que ser cuidado, portanto, é um privilégio masculino.

O pesquisador da Fiocruz Marcos Nascimento lembra que meninas são treinadas para cuidar desde cedo, com bonecas, panelinhas e brincadeiras relacionadas ao universo doméstico. Aos meninos, esse repertório costuma ser negado ou desincentivado.

“A gente não oferece esse tipo de acesso aos meninos para que aprendam a cuidar também a partir de brincadeiras, como levando o ‘filhinho’ para a escola, trocando fralda, dando banho”, explica. “Mas, no futuro, muitos vão ser pais. Por isso, quando eles se veem com um bebê no colo não sabem o que fazer e aí parece que as mulheres são cuidadoras por natureza. Na verdade, não é assim; elas são ensinadas a cuidar desde muito cedo.”

Essa divisão aparentemente inofensiva repetida pela infância e pela adolescência reforça uma das mensagens centrais da “man box”: a de que homens devem ocupar o lugar de quem recebe cuidado, lidera ou decide, mas não necessariamente o de quem dá conta da vida cotidiana.

O problema é que cuidar não é apenas uma habilidade doméstica, é uma competência humana ligada à responsabilidade, à empatia e à capacidade de perceber as necessidades dos outros. Assim, a divisão de tarefas não deve aparecer como ajuda eventual nem como favor. Arrumar a cama, lavar a louça, organizar a mochila, limpar o que sujou e cuidar de um animal de estimação são formas concretas de autonomia e educação emocional. O menino aprende que faz parte da vida comum e que o funcionamento da casa depende de todos.

Vale ainda ampliar as possibilidades de brincadeira e interesses. Nana Queiroz, autora de “Os Meninos São a Cura do Machismo”, contou em entrevista a Gama, em 2025, que permitir que os filhos transitem por diferentes brinquedos e experiências abriu outras formas de expressão. “Quando você coloca meninos para brincar de cozinhar desde pequenos — caso dos meus filhos, que pediram uma mini cozinha de madeira de presente —, eles se tornam amorosos, delicados e carinhosos com os assuntos relacionados à cozinha, que é um interesse, tradicionalmente, tido como feminino.”

Cozinhar, conforme analisa, vira um gesto não só lúdico, mas uma expressão de amor. “Meus filhos também têm bonecas e ursinhos de pelúcia. E eu vejo eles sendo muito amorosos com crianças menores, com os bichinhos na rua. Ao criar os filhos dessa maneira, vemos desabrochar neles coisas muito inéditas dos meninos ‘padrão’”.

Elogiar com cautela

Depois de ampliar o repertório emocional e incluir o cuidado na rotina, surge outro desafio: construir autoestima sem alimentar a ideia de superioridade. “Você é o melhor”, “Ninguém segura esse menino”, “Ele nasceu para mandar, não para obedecer”, “Você pode tudo, filhão”. Frases do tipo confundem confiança com privilégio.

A cultura que coloca os rapazes dentro da “man box”, aquela caixa estreita mencionada anteriormente com regras sobre o que é ser um homem, não exige apenas força, mas também costuma associar masculinidade a liderança automática, protagonismo e poder.

Nesse contexto, alguns elogios acabam ensinando que ser homem significa ocupar mais espaço do que os outros — como meninas ou homens gays. O psicólogo e pesquisador da Fiocruz Marcos Nascimento pontua que meninos e meninas, ainda que sejam diferentes, não são desiguais. “Um não vale mais do que o outro”, comenta. Na prática, a dica é elogiar esforço, persistência, curiosidade, cuidado, escuta e capacidade de reparar danos. Um menino pode ser corajoso quando pede ajuda; pode ser forte quando admite medo; pode demonstrar maturidade quando reconhece um erro; pode se sentir seguro sem interromper meninas, monopolizar conversas ou ocupar todos os espaços disponíveis.

O escritor Jaime Ribeiro avalia que parte da cultura masculina ensina o garoto a definir o “ser homem” como oposição ao feminino. “Ou seja, para ser homem, eu preciso não ser mulher”, sintetiza ele. Dessa maneira, quando essa lógica se instala, a autoestima passa a depender da rejeição de tudo o que é associado às mulheres.

Criação pelo exemplo

Nenhuma conversa sobre emoções, cuidado ou autoestima se sustenta por muito tempo se os adultos ao redor transmitirem a mensagem oposta. Há pais que abraçam e beijam os filhos pequenos, mas param quando eles crescem. Não por falta de amor, mas por medo de que o afeto entre homens pareça inadequado ou “pouco masculino”. O recado para esses garotos, porém, chega cedo: carinho tem prazo de validade.

Marcos Nascimento fala que repara essa mudança com frequência. De acordo com ele, muitos homens deixam de “abraçar o filho”, “beijar o filho” e “externar fisicamente um certo carinho” quando o menino fica maior, como se aquilo já não coubesse em uma relação masculina. É como se demonstrar afeto, pedir ajuda, admitir dúvidas ou expressar vulnerabilidade são comportamentos suspeitos ou inadequados para homens.

É por isso que a criação de meninos mais sensíveis exige que pais, padrastos, avôs, tios, professores, treinadores e irmãos mais velhos ofereçam referências mais amplas de masculinidade. Homens que cuidam, erram, conversam, choram, escutam, pedem desculpas e consertam mostram, na prática, que existe vida fora dessa caixa estreita de expectativas.

O professor Jorge Lyra, da UFPE, insiste que a masculinidade não é um destino biológico. “Isso foi um processo construído, reforçado, fortalecido”, diz. E, se foi aprendido, pode ser refeito. “Se a gente aprendeu de uma maneira, podemos reaprender, desaprender e fazer de forma diferente”, grifa.

O algoritmo e o machismo

O garoto fecha a porta, coloca o fone e passa de um vídeo de humor para outro que ridiculariza meninas, mulheres ou qualquer homem que fuja do padrão dito viril. O algoritmo, conforme Jaime Ribeiro, não inventou o machismo, mas pode entregar comunidade, um vocabulário específico e validação a quem se sente perdido. Ele explica que conteúdos red pill e a chamada machosfera não criaram sozinhos essa cultura, no entanto, deram volume a algo já existente.

Em muitos casos, esses ambientes digitais prometem respostas simples para inseguranças reais e apresentam a masculinidade como uma disputa permanente por poder, controle e reconhecimento. Para adolescentes que enfrentam rejeições, dúvidas sobre pertencimento ou dificuldades emocionais, essa narrativa pode parecer sedutora. Ela entrega ao menino identidade, um grupo e explicações rápidas para problemas complexos, tudo às custas da hostilidade contra mulheres e da rejeição de qualquer traço associado à vulnerabilidade.

A saída, segundo os especialistas, começa com pensamento crítico, educação e acompanhamento adulto — dentro e fora das telas. “Piadas misóginas, comentários machistas em rodas de amigos, entre familiares, esse tipo de coisa tem que ser visto como violência”, afirma Ribeiro. A intervenção precisa acontecer nas nuances do cotidiano, inclusive quando o adulto é quem faz a piada.

O psicólogo Marcos Nascimento também aponta as redes sociais como uma preocupação frequente de pais e mães. “Muitos não sabem o que o filho está vendo no celular ou com quem está conversando, e a internet tem um mundo de desinformação e aliciamento para a participação de grupos de pedofilia, de misoginia”, elenca.

Ao mesmo tempo, é importante oferecer alternativas de pertencimento, com espaços seguros para que os meninos falem sobre emoções, amizade, frustração e autoestima. Nesse processo, também é fundamental reconhecer e acolher as dificuldades que eles enfrentam, sem transformar a conversa em uma disputa entre os desafios vividos por meninos e aqueles enfrentados por meninas e mulheres. Como alerta Nana Queiroz, “o sofrimento não precisa ser comparado, precisa ser acolhido”.

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