Namorar dá trabalho?
Icone para abrir
Ilustração de Isabela Durão

1

Reportagem

Solteiros demais para amar: por que voltar a se relacionar ficou tão difícil?

Em tempos de obsessão por compatibilidade, diagnósticos afetivos e autopreservação, apaixonar-se novamente após muito tempo na própria companhia pode parecer assustador pra muita gente

Mariana Pontes 07 de Junho de 2026

Solteiros demais para amar: por que voltar a se relacionar ficou tão difícil?

Mariana Pontes 07 de Junho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Em tempos de obsessão por compatibilidade, diagnósticos afetivos e autopreservação, apaixonar-se novamente após muito tempo na própria companhia pode parecer assustador pra muita gente

Por décadas, o roteiro amoroso foi relativamente previsível. Namorar, casar, construir uma família. Hoje, em um mundo onde aplicativos de relacionamento geram burnouts afetivos com matches que não dão em nada e uma obsessão coletiva por performance e produtividade dita as regras, um número crescente de pessoas passa muito tempo, às vezes anos, sem viver um romance. Algumas, por livre escolha. Outras chegam a esse caminho após términos traumáticos ou simplesmente porque não encontraram alguém com quem desejassem compartilhar a vida. O fato é que a solteirice deixou de ser um intervalo entre relacionamentos e passou a ser, para muitos, uma forma legítima de viver.

Mas o que acontece quando alguém que passou muito tempo vivendo na própria companhia decide voltar a se relacionar? Por que algo que parecia tão desejável – encontrar companhia, intimidade e afeto – pode se transformar em um desafio complexo? A resposta passa por uma combinação de fatores que definem o nosso tempo: o excesso de individualismo, o medo do sofrimento, a exaustão contemporânea e uma crença cada vez mais disseminada de que existe uma pessoa ideal esperando para ser encontrada.

Nunca falamos tanto sobre amor e nunca fomos tão receosos diante dele. A pesquisa “Narrativas Afetivas: como o brasileiro traduz o amor”, realizada pelo canal Amores Possíveis, indica que 47% das postagens sobre o sentimento feitas nas redes sociais o relacionam à tristeza, medo, raiva ou desgosto. O levantamento avaliou mais de 1 milhão de posts sobre o tema, entre 2023 e 2024. “A gente está vivendo numa câmara de ecos fatalistas. Não bastassem as experiências individuais ruins nos relacionamentos, há também aquelas que lemos nas redes sociais ou acompanhamos na vida das celebridades”, explica a psicanalista Carol Tilkian, uma das autoras da pesquisa. “São relatos como ‘nunca vou esquecer minha ex’, ‘homem não presta’ ou ‘sempre levo ghosting’. E aí todo mundo fica esperando o pior quando se apaixona, num lugar de luta ou fuga, onde qualquer atitude é vista como red flag.”

A solitude ajuda a não buscar mais validação. Quando se apaixonam, muita gente quer agradar o parceiro a todo custo, nem que para isso tenha que desagradar a si mesmo

Não há de se negar os ganhos evidentes em passar longos períodos aproveitando as delícias da solteirice. A vida sem um parceiro costuma ampliar a autonomia, fortalecer o autoconhecimento e permitir que as pessoas descubram o que desejam para si. “A solitude ajuda a não buscar mais validação. Quando se apaixonam, muita gente quer agradar o parceiro a todo custo, nem que para isso tenha que desagradar a si mesmo”, afirma o filósofo Renato Noguera, autor do livro “ABC do Amor: o que a poesia e a filosofia têm a dizer sobre os afetos” (Oficina Raquel, 2025).

Segundo Noguera, quem passa um período significativo sozinho tende a consolidar melhor suas vontades, limites e valores. O problema surge quando a autossuficiência deixa de ser uma ferramenta de amadurecimento e se transforma em fortaleza de isolamento emocional. “Quem fica nesse hábito de estar enclausurado consigo mesmo pode se engasgar com as questões típicas do cotidiano a dois”, diz Noguera. “Permanecer em um excesso de si dificulta na hora de viver o principal ponto das relações: se encontrar na fronteira do outro”, completa.

Isso porque relacionamentos exigem algo que a vida solitária não demanda: negociação constante. Que programas fazer no final de semana, para onde viajar, que decisões financeiras tomar, se o casal necessariamente precisa fazer tudo isso junto. E aí, aquela mesma autonomia que permitiu construir uma vida independente, pode ser um obstáculo quando outra pessoa entra em cena.

O psicanalista Lucas Bulamah, autor do livro “Do Amor e seu Avesso” (Editora Planeta, 2026), com lançamento previsto para agosto, traz outra perspectiva para esse dilema. “Às vezes, essa proclamada autonomia é só um nome bonito que a gente dá para rigidez. Muitas pessoas que passaram anos sozinhas carregam uma bagagem emocional tão consolidada, que deixam de ser flexíveis”, pontua o psicanalista. “Simplesmente não querem ceder na rotina a dois e aí, a outra parte começa a achar que está com um parceiro rabugento, que não topa fazer nada proposto. Quem aguenta se relacionar com alguém assim?”

O amor nos tempos da conveniência

Se abrir espaço para o outro é difícil para quem se habituou à individualidade plena, o contexto contemporâneo tornou essa equação ainda mais complicada. Para a psicanalista Carol Tilkian, houve avanços importantes nos últimos anos, com homens e mulheres compreendendo melhor conceitos como abuso emocional, responsabilidade afetiva e relações tóxicas. Também existe menos pressão social para permanecer em relacionamentos insatisfatórios só para não dizer que se está sozinho.

Mas essas conquistas não vieram sem efeitos colaterais. “As pessoas estão sem elaborar os traumas de relações passadas e, ao mesmo tempo, estão certas do que querem num parceiro. Isso acaba afetando os encontros e a enxergar quem se apresenta ali bem na frente delas”, reflete.

Ao invés de viver o presente, experiências traumáticas passadas são usadas como gabarito de interpretação. “Se alguém demora para responder uma mensagem, conclui-se que há desinteresse ou que a pessoa deu um ghosting. Se ainda não apresentou a família, supõe-se que não quer compromisso. Pequenos sinais passam a carregar significados absolutos”, resume Tilkian.

Nesse cenário, o amor compete com uma série de alternativas menos decepcionantes. Depois de um dia cansativo de trabalho, a possibilidade de ficar em casa no sofá assistindo a uma série parece mais atrativa do que um date com alguém que não atendeu 100% das nossas expectativas. “Estamos desistindo do romance por muito pouco. Não existe amor sem risco”, aponta a psicanalista.

Estamos desistindo do romance por muito pouco. Não existe amor sem risco

Para quem já passou dos 40 anos, há outro fenômeno curioso. Depois de longos casamentos, relações frustradas ou anos de solteirice, pessoas maduras acreditam que só vale a pena investir em uma nova história se ela provocar um arrebatamento instantâneo. “Existe uma busca por um apaixonamento mágico, senão é perda de tempo”, diz Tilkian. “Quando ficam solteiros, os 40+ adotam uma postura de só querer entrar em um novo relacionamento se o outro os mobilizar rapidamente.”

O problema é que essa expectativa costuma estar mais próxima da fantasia do que da experiência real. “Quando meus pacientes 40+ trazem ao consultório esse tipo de desejo por paixão imediata sempre devolvo com a pergunta: ‘Mas quando isso aconteceu na sua vida?’. E a resposta costuma ser a mesma: nunca ou aconteceu lá na adolescência”, conta a psicanalista.

A consequência é uma espécie de triagem emocional permanente. Se o frio na barriga não aparece rápido, a relação é descartada antes mesmo de ganhar profundidade.

O emocionados e a cultura do desapego

E se você está há muito tempo solteiro, mas agora decidiu se jogar na pista das relações amorosas, um alerta: cuidado para não parecer “emocionado”. Esse é um dos novos códigos do mundo dos dates. Ao mesmo tempo em que se busca conexão imediata, existe uma pressão crescente para parecer desapegado.

Nas redes sociais e nos apps de relacionamento, demonstrar interesse ou querer saber o potencial do flerte pode ser interpretado como fraqueza e a figura do “emocionado” virou motivo de deboche. Noguera vê essa tendência com preocupação. “Sou favorável às pessoas serem emocionadas, se elas têm emoções legítimas. Se você está naquela fase de conhecer alguém, por que não dizer: ‘estou curtindo você’ ou ‘aquela noite foi espetacular’?”, sugere o filósofo. “Isso não significa que você está desesperado por afeto, que está pedindo o outro em casamento, que já decidiu que terão filhos.”

O filósofo acredita que essa cultura do desapego funciona como uma armadura. “Hoje existe um contrato social que opera a partir do medo crônico do amor. Mas por trás dessa aparente autossuficiência, muitas vezes existe o receio da rejeição.”

O vocabulário dos relacionamentos contemporâneos está repleto de outras expressões diagnósticas como ghosting, love bombing, orbiting… Embora esses conceitos possam ajudar a identificar comportamentos abusivos, também podem estimular uma lógica de vigilância constante. “É maravilhoso que a gente saiba o que é violência psicológica e responsabilidade afetiva, mas tem muita gente por aí vivendo de laudo do TikTok”, analisa Tilkian. “Alguém recém-divorciado pode muito bem estar emocionalmente disponível, porque já viveu o luto dentro do próprio casamento. Enquanto isso, uma pessoa solteira há dez anos pode não estar disponível e querer seguir solteira por mais 20. É preciso queimar as red flags, confiar menos no padrão e mais no encontro.”

Junto com os novos códigos, os apps ampliaram a sensação de que é possível minimizar os riscos e filtrar o amor como quem escolhe um produto. Altura mínima. Faixa etária. Hobbies. Posição política. “Terapia em dia”. A compatibilidade é moeda afetiva.

Os apps ampliaram a sensação de que é possível minimizar os riscos e filtrar o amor como quem escolhe um produto

Questões relacionadas a objetivos centrais podem, de fato, ser inegociáveis. A decisão de querer ou não ter filhos, por exemplo. Mas muitas diferenças pertencem ao campo da convivência, como explica o psicanalista Lucas Bulamah. “A gente se retirou da praça pública, que é onde existe a diferença, o não adequado, o não categorizado e isso empobreceu os encontros”, afirma. “As pessoas acham que sabem muito de si mesmas e não querem se relacionar com alguém que não tenha gostos e identidades parecidas.”

A grande ilusão contemporânea talvez seja acreditar que compatibilidade elimina o conflito. “Na prática, todo relacionamento envolve negociação, frustração, adaptação e descoberta. Por mais que a gente busque nossos semelhantes, na hora do vamos ver, as pessoas têm suas diferenças e têm que lidar com elas”, conclui Bulamah.

Se existe um ponto comum entre os os especialistas ouvidos para esta reportagem, ele está na ideia de que amar continua sendo um ato de risco. Não importa quanto de autonomia e autoconhecimento tenhamos desenvolvido ao viver muito tempo na própria companhia, quantos anos de terapia tenhamos feito ou quantas exigências listamos para dar match nos apps. Nenhum desses recursos é capaz de eliminar a incerteza que acompanha o encontro entre duas pessoas.

Voltar aos relacionamentos depois de muito tempo sozinho exige reaprender algo que a correria do dia a dia e o excesso de telas tenta nos fazer esquecer: relações amorosas não são entrevistas de emprego, nem planilhas de compatibilidade ou algoritmos capazes de prever resultados. São encontros entre pessoas imperfeitas, carregando traumas, desejos e contradições. Por isso, o filósofo Renato Noguera defende que, antes de buscar garantias impossíveis, é preciso construir disponibilidade emocional. “Uma relação é sempre uma aposta.”

Um assunto a cada sete dias