Violência contra a mulher: até quando?
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Conversas

Sophie Gilbert: "O poder sexual é o único que as pessoas querem que as mulheres tenham"

Autora britânica reflete sobre a influência da indústria e da cultura pop no crescimento da misoginia na virada do milênio e sobre como ainda afetam garotas de hoje

Isabelle Moreira Lima 08 de Março de 2026

Sophie Gilbert: “O poder sexual é o único que as pessoas querem que as mulheres tenham”

Isabelle Moreira Lima 08 de Março de 2026

Autora britânica reflete sobre a influência da indústria e da cultura pop no crescimento da misoginia na virada do milênio e sobre como ainda afetam garotas de hoje

O mundo está apaixonado pelo que ficou conhecido como o y2k, o período que compreende o final da década de 1990 e o começo dos anos 2000. A moda resgata e celebra itens icônicos da época como a cintura baixa e os tops curtos, os óculos estreitos de lentes coloridas, os sapatos altíssimos de plataforma, as fotos feitas com as então moderníssimas câmeras digitais. Era tudo muito divertido e havia uma euforia no ar, uma sensação de que nós, mulheres, poderíamos ser qualquer coisa que quiséssemos. Mas será que era assim mesmo? Não é o que diz a jornalista e crítica cultural britânica Sophie Gilbert.

Em “Garota Sobre Garota — Como a cultura pop colocou uma geração de mulheres contra si mesmo”, que acaba de ser lançado no Brasil, com tradução de Emanuela Siqueira, pela editora Todavia, Gilbert investiga a cultura pop do fim dos anos 1990 para mostrar como uma falsa ideia de empoderamento levou as mulheres de volta ao lugar do objeto sexual já nos 2000. A britânica reflete sobre como a atitude de combate do movimento do riot grrrl na música foi atropelado por uma cultura cada vez mais sexualizada: a moda recorria à pornografia e a música à estética de uma certa inocência pelada, enquanto a beleza descobria uma mina de ouro. O feminismo deu lugar a um pós-feminismo individualista. Saía Madonna, que se apropriou do sexo tendo seu próprio prazer como meta, para entrar Britney Spears, com looks que atendiam às fantasias masculinas mais clichês.

“Não acredito que o pós-feminismo individualista seja algo que sirva às mulheres. Sempre que as mulheres conseguiram obter ganhos significativos na história, foi porque conseguiram trabalhar coletivamente e pensar além de si mesmas. Então, minha esperança é que no futuro possamos ser compelidas a nos unificar em torno de um feminismo que funcione para todas as mulheres, em vez de um que nos isole”, diz Gilbert em entrevista a Gama.

 Foto: Urszula Soltys

Editora na revista literária norte-americana Atlantic, vencedora do prêmio National Magazine em 2024, na categoria Resenhas e Críticas e finalista do Pulitzer de Crítica em 2022, ela fala sobre como pouco mudou na misoginia de sua adolescência, nos anos 2000, e fala sobre a importância das mulheres estarem atentas a como são tratadas pela cultura pop, a indústria de beleza e a de moda, e de estarem unidas, sem reproduzir um passado recente de garota-contra-garota, pregado em ícones do empoderamento millennial como a “Girl Boss”, de Sophia Amoruso, que destrata outras mulheres com seu próprio sucesso em vista.

Quanto mais nos concentramos em encontrar falhas em nós mesmas, menos nos engajamos em mudar o que precisamos no mundo

  • G |Começando pelo subtítulo do livro, você fala que a cultura pop colocou uma geração de mulheres contra si mesmas. Já conseguimos nos libertar disso?

    Sophie Gilbert |

    Não tenho certeza se algum dia estaremos totalmente livres, justamente porque tantas indústrias, especialmente a da beleza, ganham dinheiro normalizando padrões impossíveis e fazendo com que as mulheres achem que lhes falta algo. Em vez de celebrar qualidades como sabedoria, coragem e graça, somos constantemente informadas de que o ideal feminino é uma jovem de 19 anos de roupa íntima. A cultura mainstream (TV, livros e filmes) melhorou muito em contar histórias diversas e com empatia sobre mulheres, histórias com que nos identificamos mais. Mas as redes sociais prosperam ao amplificar todos os erros do passado que estão em “Garota sobre Garota”: sexualização, arquétipos restritos, padrões de beleza arcaicos e conflito armado (ou instrumentalizado) entre mulheres.

  • G |No livro, você fala de como não gosta da palavra empoderamento. Por que ela é problemática?

    SG |

    Não é a palavra em si. Na minha pesquisa, ela sempre apareceu no contexto de alguém defendendo algo que havia sido criticado por ser sexista, algo que não tinha nada a ver com dar poder às mulheres. Wonderbras [sutiãs com bojo e enchimento tipo push-up] foram defendidos como sendo “empoderadores” nos anos 1990. O OnlyFans é descrito por seu CEO agora como “empoderando” suas creators. Alguma dessas coisas está realmente ajudando as mulheres a obter poder? Parece que estão tentando higienizar a hipersexualização comercializada de mulheres, a redução de mulheres a objetos, alegando que podemos nos tornar poderosas ao fazer outra pessoa ganhar dinheiro. O poder sexual é o único tipo que as pessoas querem que as mulheres tenham — e isso porque ele não é real.

  • G |No pós feminismo dos anos 1990 e 2000, a auto-objetificação passou a ser vista como uma ferramenta de poder, era uma expressão de liberdade, na linha de “eu posso fazer o que quiser com o meu corpo”. Já superamos essa ideia?

    SG |

    Não. Ainda estamos em uma era de feminismo da escolha, onde pessoas como a artista pornô Bonnie Blue podem participar de acrobacias sexuais ultrajantes sob o disfarce de “feminismo”, simplesmente porque ela está fazendo algo que lhe rende dinheiro, não importa o impacto mais amplo. Não acredito que o pós-feminismo individualista seja algo que sirva às mulheres. Sempre que as mulheres conseguiram obter ganhos significativos na história, foi porque conseguiram trabalhar coletivamente e pensar além de si mesmas. Então, minha esperança é que no futuro possamos ser compelidas a nos unificar em torno de um feminismo que funcione para todas as mulheres, em vez de um que nos isole.

Os impulsos básicos de ódio às mulheres são os mesmos, mas são amplificados pela internet

  • G |Como, à luz da sua pesquisa, você interpreta uma capa de disco como a que Sabrina Carpenter lançou no último ano, em que aparece de quatro com os cabelos puxados por um homem, mais de 20 anos depois de fenômenos como Britney Spears e as Spice Girls? O que isso comunica às garotas de hoje?

    SG |

    Achei esse momento fascinante porque exemplificou uma das principais tensões do pós-feminismo: escolha individual versus responsabilidade coletiva. Sabrina Carpenter é uma artista empolgante, descaradamente “sex-positive” e ela tem o direito de fazer o que quiser com sua música e sua autoapresentação. Mas seus fãs também têm o direito de se opor a imagens que sintam que estão bajulando o olhar masculino, ou enviando uma mensagem não caracteristicamente redutora, e eles o fizeram. O debate sobre aquela capa foi gratificante porque as mulheres estavam discutindo isso com tanto pensamento e rigor, deixando claro que não aceitariam cegamente o mesmo tipo de objetificação “brincalhona” que era tão padrão nos anos 2000.

Capa do álbum “Man’s Best Friend” (2025), de Sabrina Carpenter
  • G |Ser adolescente hoje é pior ou melhor que nos anos 2000? Como a cultura pop interfere na vida dessas meninas e jovens mulheres hoje?

    SG |

    Eu estava lendo um artigo de opinião de uma garota anônima de 15 anos descrevendo pelo que ela e suas amigas passam e o que me chamou a atenção foi que a misoginia que ela experimenta é a mesma que os garotos expressavam quando eu era adolescente. A diferença são as novas ferramentas para assediar garotas, assim como o exemplo de influenciadores expressando os tipos mais grotescos de misoginia online e lucrando enormemente com isso. Os impulsos básicos de ódio às mulheres são os mesmos, mas são amplificados pela internet. Por outro lado, as garotas de hoje têm muito mais contraexemplos de influenciadoras e pensadoras feministas.

  • G |Como vê as marcas de moda de hoje e a sua relação com as jovens? Acha que se preocupam mais na relação com as mulheres (ou são mais cobradas)?

    SG |

    Eu não acho que elas se importam, de modo geral. Existem muitas empresas de moda menores construídas em produção ética, como Brother Vellies, Girlfriend Collective e Parker Clay. Mas as grandes corporações só se importarão com as mulheres (ou fingirão que se importam) se isso elevar seus lucros. Fiquei chocada ao ver a Zara usando modelos extremamente abaixo do peso nos últimos anos.

Desconfie de qualquer um que esteja tentando te vender algo fazendo com que se sinta mal consigo mesma

  • G |Qual o papel da pornografia nesse cenário de guerra cultural contra o feminismo? Algo mudou em relação ao recorte de tempo da sua pesquisa?

    SG |

    Eu noto hoje mais disposição para considerar o impacto que a pornografia tem na cultura moderna. Eu não sou contra a pornografia em geral—os seres humanos sempre quiseram ver imagens sexuais e sempre o farão. Mas como crítica, meu objetivo com “Garota sobre Garota” era tentar entender o que a pornografia como forma de cultura de massa estava dizendo às mulheres (e aos homens) sobre si mesmos. Recentemente, com mais atenção da mídia a coisas como a geração de imagens abusivas do Grok e o uso de pornografia por Jeffrey Epstein como um manual de treinamento para as garotas, ficou mais difícil aceitar que a pornografia é apenas uma forma benigna de entretenimento.

  • G |Como as novas drogas para emagrecer alteram esse cenário?

    SG |

    Definitivamente tiveram um impacto cultural. Estamos vendo mais corpos esguios na imagética de massa do que vimos desde os anos 1990. Por um tempo, parecia que a positividade corporal estava realmente tendo um impacto, mas os medicamentos mudaram o jogo.

  • G |No seu livro, você elenca mulheres raivosas (as integrantes do riot girrrl), outras que eram pilares da resistência contra a misoginia (Madonna) e garotas que foram o símbolo do pós-feminismo (Britney Spears, Spice Girls). Passado o momento em que estavam mais ativas, como essas mulheres se colocam hoje?

    SG |

    Todas estão vivendo vidas tão diferentes. Temos tantas estrelas contemporâneas que são empolgantemente elas mesmas e não dão atenção à ideia de mais ninguém sobre o que deveriam ser: Chappell Roan, Doechii, Billie Eilish.

  • G |Daria algum recado de alerta sobre a cultura pop para as garotas de hoje?

    SG |

    Conheça seu valor. Há força na comunidade. Desconfie de qualquer um que esteja tentando te vender algo fazendo com que se sinta mal consigo mesma. A cultura da beleza e da dieta são uma farsa: quanto mais nos concentramos em encontrar falhas em nós mesmas, menos estamos engajadas em tentar fazer as mudanças de que precisamos no mundo.

Produto

  • Garota Sobre Garota
  • Sophie Gilbert (trad. Emanuela Siqueira)
  • Todavia
  • 416 páginas

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