COLUNA

Marilene Felinto

“Que marcha para Jesus, que nada!”

Religião é crença, não é saber, mas minha mãe sempre soube distinguir fé de uso da religião como instrumento de dominação das massas

22 de Junho de 2026

Minha mãe desaprovava o que chamava de “os desfiles de falsa fé”, de exibicionismo, de verde-amarelismo de ocasião e oportunismo político de direita, como a tal “Marcha para Jesus”, que ocorreu este ano, em São Paulo, no dia 4 de junho último. “Que marcha para Jesus, que nada!”, indignava-se. E ela protestava com todo o direito que tinha — a partir do chamado “lugar de fala” legítimo, como se diz hoje em dia. Filha de pastor da Assembleia de Deus, tinha sido criada na crença protestante antiga e tradicional. Mais ainda: passou parte de sua infância e juventude no município conhecido como “a capital dos evangélicos” de Pernambuco: Abreu e Lima, na região metropolitana de Recife.

Não gostava que a chamassem de “evangélica”, mas sim de “crente” ou “protestante”. E repudiava o uso da fé pelos interesseiros das igrejas neopentecostais e seus asseclas da política: “Como se religião e fé tivessem algo a ver com pátria!”, reclamava. Dizia que pátria é do governo dos homens e que o governo do sagrado é somente a fé e a oração na igreja, o ajoelhar-se no banco duro e o pedir a Deus.

Recriminava veementemente a tal “marcha que se espalhou feito praga país afora, por tudo quanto é cidade grande e pequena”. E de nada adiantava o meu contra-argumento: “mas não tem as procissões católicas no meio da rua? Não é a mesma coisa?”. Ela respondia que não, porque as procissões eram parte do ritual católico, enquanto que as tais marchas para Jesus nunca tinham feito parte da Igreja dela. Pelo contrário: o protestantismo dela era austero, estóico, dos tempos em que havia certa ética na religião, então pautada pela discrição, pelo antiespetáculo, pela não devoção a imagens.

Ela teria tido engulhos ao avistar pelo noticiário o palanque principal da tal marcha em São Paulo, ocupado por figuras do neofascismo nacional, o senador Flavio Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Para não mencionar a presença de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, todo animado em cima do trio elétrico.

“Começa que trio elétrico é coisa de Carnaval”, minha mãe diria, soltando muxoxos de condenação, que protestantes não dançam Carnaval, rejeitam a festa, recolhem-se nessa época, em penitência, em círculos de oração. Teria engulhado ao ver um representante da Suprema Corte no meio da “algazarra” da marcha. O que queriam essas figuras? (ela perguntaria) Divinizarem-se? Atribuírem para si as virtudes cristãs?

Ela também dispensava os programas de TV evangélicos, reprovava a exploração da fé dos pobres, a mentira capitalista, o mais extorsivo procedimento do neoliberalismo: a mistura indigesta de mídia com religião. Excomungava os falsos pastores, citava livros, capítulos e versículos da Bíblia que denunciavam os mercenários, os “falsos profetas”: Jeremias, Mateus, Pedro, João.

O protestantismo dela era austero, estóico, dos tempos em que havia certa ética na religião, então pautada pela discrição

Nos tempos de sua igreja, o dízimo era solicitado em cestinhas de plástico azuis e cor-de-rosa, que iam passando de mão em mão entre os fieis durante o culto da igreja comunitária, solidária. A igreja da época era o pastor no púlpito, lendo e ensinando a Bíblia, e ela, minha mãe, cantando afinadíssima os hinos da harpa na hora dos cânticos. Não havia marchas espetaculosas como as de hoje, em que se sorteiam carros elétricos para os evangélicos, como ocorreu em São Paulo.

Religião é crença, não é saber, mas minha mãe sempre soube distinguir fé de uso da religião como instrumento de dominação das massas, coisa que de fato a horrorizava. Ela morreu faz somente quatro anos. Sua Bíblia, quem guarda sou eu, herança de páginas do fino papel-bíblia sublinhadas a caneta vermelha em muitos trechos, tão reveladoras de seus estudos, de sua crença, de suas falas, de sua indignação contra os aproveitadores. Nunca impôs a seus filhos e filhas a sua religião.

Terminada a infância religiosa obrigatória, viramos todos ateus e agnósticos, aferrados à contradição da existência, que só se encontra mesmo na razão, que, absolutamente, não se encontra na fé à ação do divino. Todo dia eu torço para minha mãe estar no céu que ela tanto desejou nesta vida.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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