COLUNA

Marilene Felinto

Sophia Loren Soares Camilo

Então, ninguém mais vai escrever sobre ela? Como é que pode, se ninguém disse por que mataram a menina?

13 de Fevereiro de 2026

Ninguém mais vai escrever sobre Sophia Loren? Não, não se trata da atriz italiana, mas sim da menina Sophia Loren Soares Camilo, dez anos, assassinada na favela do Gogó da Ema, bairro Bom Pastor, município de Belford Roxo, região da Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil, no dia 31 de janeiro, um sábado deste ano de 2026.

Sim… ninguém mais vai escrever sobre Sophia Loren Soares Camilo? Não vão escrever nem mesmo sobre o fato (para lá de comovente) de que ela tivesse o nome da atriz!? Caramba.

Não tive mais notícia sobre o assassinato de Sophia Loren Soares Camilo. A pauta — certamente desimportante para a mídia empresarial — foi breve notícia de poucos dias: “Uma menina de dez anos morreu após o carro em que estava com o pai ser alvo de tiros na comunidade do Gogó da Ema, no bairro Bom Pastor, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, neste sábado (31). Sophia havia completado dez anos no dia 13 de janeiro. Ela tinha um irmão de cinco anos. (…) Sophia Loren Soares Camilo foi baleada com pelo menos seis tiros, na perna e no tórax, por um homem supostamente alterado, drogado, que deu ordem de parada ao carro onde ela estava com o pai. (…) Mesmo tendo o pai de Sophia se identificado como morador da comunidade, o suspeito desferiu vários tiros contra o veículo. Diogo Camilo da Rocha, pai de Sophia, e a menina estavam voltando de um shopping center e se dirigindo a uma festa de aniversário no Gogó da Ema quando foram atacados”.

Pronto. Assim terminava o noticiário policial. E assim acabou-se Sophia Loren. Mas antes é bom acrescentar que o suspeito foi identificado e preso — embora isso em nada altere a desgraça em si, a de que se acabou mesmo a vida e a história de vida de Sophia Loren Soares Camilo, uma menina escura como tantas outras meninas da favela, uma menina linda sorrindo na fotografia do noticiário!

Então, ninguém mais vai escrever sobre ela? Como é que pode uma notícia dessa extinguir-se, mal redigida, em dois ou três dias? Como é que pode, se ninguém explicou, se ninguém disse por que mataram a menina, se ninguém disse por que se matam meninas escuras nas favelas do Brasil? Que droga é esta de país? Ninguém vai preencher as lacunas da notícia: por quê? Qual foi o motivo? Até quando?

Fui procurar na história e na etimologia dos nomes a explicação para tanta calamidade, tanta brutalidade.

Primeiro, “Belford Roxo”, o topônimo sinistro para quem, como eu, aqui de longe, só ouve falar de coisa ruim nas notícias do lugar: mas eis que o município tem essa designação por homenagem a um engenheiro brasileiro do século 19, Benjamin Guilherme Belford Roxo, funcionário da então Estrada de Ferro Central do Brasil. Seu nome foi dado primeiro a uma estação ferroviária construída na área, porque ele teve atuação destacada em obras de saneamento, drenagem e infraestrutura ferroviária na Baixada Fluminense, numa época em que a região era marcada por pântanos, alagamentos constantes, surtos de malária e febre amarela.

Nenhuma revelação do motivo pelo qual se assassinam meninas de dez anos nos morros, nos barracos, nos pântanos de pobreza e abandono atuais país afora

Ora, mas nada disso parece ter servido a Sophia Loren. Nada! Nenhuma explicação, nenhuma revelação do motivo pelo qual se assassinam meninas de dez anos nos morros, nos barracos, nos pântanos de pobreza e abandono atuais país afora!

Será que ninguém escreveu nem mesmo sobre o fato de a menina ter o nome “Sophia Loren”? Ninguém vai achar incrível de lindo que tenham dado a ela esse nome de estrela de cinema?! Ninguém teve coragem de dizer o quanto comovente isso pode ser? Caramba!

Ainda mais porque ela, Sophia Loren Soares Camilo, morreu provavelmente sem saber direito quem é a atriz Sophia Costanza Brigida Villani Scicolone, 91 anos, e cujo sobrenome artístico, Loren, foi adotado no início da década de 1950!

Já não se encontram mais notícias sobre o assassinato da menina. A pauta morreu com ela. Nem aqui, neste texto, darão destaque a alguma fotografia dela, como eu acho que deveriam — assim, desse modo, mais gente poderia conhecê-la: Sophia Loren Soares Camilo, assassinada no Gogó da Ema, comunidade pobre entregue a seu próprio destino pelo descaso do poder público do Rio de Janeiro.

Fui procurar, então, na história e na etimologia de “Gogó da Ema” um motivo que explicasse a tragédia anunciada. Nada encontrei além de descrições de confrontos violentos do crime organizado por disputa de território naquela localidade. Nada encontrei, senão narrativas sobre as operações noturnas dos bandos de criminosos rivais, sobre o horror pirotécnico provocado pelas balas traçantes, tipo de munição que corta o céu da favela deixando um rastro luminoso indicativo da trajetória dos disparos.

Pesquisei depois “gogó”, cuja etimologia, segundo o dicionário Houaiss, é tradicionalmente atribuída à alteração de “goela”, origem questionada pelo linguista Nei Lopes, que cita o umbundo “ngongo” e o iorubá “gogongo” para o significado de “pomo-de-adão, garganta, laringe”.

Concordei com essa última explicação, do léxico das Áfricas das gentes escuras, onde certamente estão as origens mais remotas das meninas brasileiras escuras como Sophia Loren Soares Camilo. E como referência zoomórfica, a favela teria esse nome “Gogó da Ema” por algum ponto do relevo, um trecho elevado ou uma curva do caminho, associado ao gogó de uma ema.

Por último, analisei “ema”, o bicho — e supõe-se que as emas, essas grandes aves, circulavam, sim, em tempos idos, pelos terrenos alagadiços e os campos abertos da área que hoje é a Baixada Fluminense.

Por último, soube também que, em registros atualizados sobre a distribuição da espécie Rhea americana (a ema) em alguns locais do Nordeste do Brasil, devido à caça intensa, perda de habitat e pressão humana ao longo de décadas, a população selvagem acabou desaparecendo da região. No estado do Ceará, por exemplo, a ema foi oficialmente declarada extinta em 2021 — ou seja, deixou de existir de forma natural naquele território.

Por último, noticiou-se, no dia 2 de fevereiro último, o velório e o enterro de Sophia Loren Soares Camilo no cemitério Jardim Redentor, em Belford Roxo — noticiou-se a extinção precoce dessa menina. E nada mais se disse sobre ela.

Entretanto, e finalmente, no dia 5 de fevereiro, deram uma última notícia sobre o pavoroso Belford Roxo: de que a prefeitura do lugar, através da “Secretaria Municipal de Serviços Públicos”, realizou um “grande mutirão de limpeza na região do Gogó da Ema, no bairro Bom Pastor”. A notícia era complementada com a seguinte informação: de que, no sábado seguinte (7/2), a prefeitura inauguraria “a nova base da Companhia Destacada da Polícia Militar no Gogó da Ema, além do Campo do Vicentão com grama natural e uma praça com academia e parquinho para as crianças”.

Caramba! Mas isso não é pura hipocrisia? Isso não é um ultraje, uma violência à memória de Sophia Loren Soares Camilo, a menina assassinada no Gogó da Ema? Ninguém mais vai escrever sobre isso?

Nem sobre o fato de que, no Rio de Janeiro (e alhures Brasil afora) não se sabe quem é pior, se o crime organizado ou os governos organizados em criminosos? Que desgraça! Ninguém escreve?

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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