COLUNA

Marilene Felinto

Já que a pauta é misoginia

São dez anos do impeachment de Dilma, a mais repulsiva demonstração pública de misoginia e violência política de gênero já vista no país

18 de Março de 2026

Já que é março (nomeado mês da mulher), já que a pauta é misoginia, incitação ao ódio e à violência contra mulheres e feminicídio, é bom relembrar de onde saiu (e ainda sai) a licença para perseguir, humilhar, abusar, violar e matar cada vez mais mulheres.

Neste ano, em abril, completam-se dez anos da votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, a mais repulsiva demonstração pública de misoginia e violência política de gênero já vista no país. Naquele ano de 2016, em 17 de abril, 338 homens deputados (aproximadamente 73% do total de deputados homens da Casa) estupraram o mandato da ex-presidenta eleita democraticamente, sob a acusação fabricada e mentirosa de crime de “pedaladas fiscais”.

(Forçoso lembrar também que, das 51 mulheres deputadas daquela instituição, 29 delas votaram a favor do afastamento da presidenta — eram as voyeurs da fraude, da corrupção e da doblez sexista, deslumbradas, acanalhadas pela malignidade do poder.)

Em agosto daquele mesmo ano, o Senado consumaria o ato ilegal de desrespeito e violação: 51 senadores machos manifestaram-se a favor do impeachment; aos votos deles, somaram-se dez votos de senadoras fêmeas de baixeza moral assombrosa, inesperada.

Aquele foi o ápice do golpe parlamentar, jurídico e midiático contra o governo Rousseff, contra o país, contra a democracia, contra as mulheres do Brasil. O golpe — é preciso jamais esquecer —, foi engendrado e incensado também pela mídia comercial corporativa, ela que segue dando asas à direita fascista, como deu na ditadura militar, sempre nadando de braçada para onde correr o rio do poderio econômico e político, não importa a que grau de aliciamento depravado.

Hoje, passados dez anos, qual veículo de mídia virá a público fazer sua mea-culpa: o grupo Folha? O grupo Globo? Qual grupo? Quais machos baixarão a cabeça para admitir sua colaboração ao golpismo? Ou esperaremos 30 anos para que, somente então, venham pedir desculpas pelo apoio à manipulação de fatos e dados, pela deformação da realidade, pela invenção (essa, sim, criminosa) de notícias que resultaram na ignomínia do golpe contra o governo Dilma?

O aumento escandaloso do feminicídio e dos atentados violentos contra mulheres é resultado desse caldo de licenciosidade golpista

Não foi quase esse tempo (três décadas!) que a Globo levou para “reconhecer e pedir desculpas” pelo endosso ao regime assassino dos militares do golpe de 1964? Ou teremos que ainda ouvir o deboche, a molecagem da Folha de S. Paulo, que chamará talvez de “estupro brando” o golpe que ajudou a orquestrar contra o governo de Dilma Rousseff? Assim fez aquele jornal no mais irresponsável e indecente dos editoriais do jornalismo brasileiro ao apelidar de “ditabranda” a ditadura militar que torturou barbaramente a própria Dilma, que matou opositores do regime e que esconde ainda hoje seus cadáveres.

O momento culminante do golpe abriu as portas do inferno para o que se seguiria. O que aquele julgamento de impeachment significou não foi simbólico nem metafórico, foi real, concreto, literal, efetivo. O recado estava dado, dito e feito: “nós, machos, não permitiremos, não dividiremos o mando, o comando, o poder com você, mulher, nós perseguiremos você, fêmea insignificante e ousada, nós haveremos de humilhá-la, de sabotá-la, de maltratá-la, de estuprá-la e até de matá-la quando necessário”.

O que se seguiu foi a tragédia maior que estava mesmo a um passo de nós, verdadeira epifania: apenas dois anos após o golpe, a licença para matar foi consumada com o assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco, em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro. Mulher negra e de origem pobre — o mais vulnerável dos seres humanos brasileiros, juntamente com crianças e jovens negros das favelas e periferias, Marielle foi alvo preferido da covardia da milícia carioca travestida de autoridade, de deputado, de delegado, de conselheiro e afins.

Abriram-se as portas do inferno, sob a chancela também do Judiciário, e logo o bolsonarismo sentou-se na imundície do trono armado todinho para ele: chafurdando no atoleiro de lama do golpe, aquele rudimento de governo tratava a causa da violência contra as mulheres com desprezo, com desdém inaceitável. A hostilidade misógina atingiu o cúmulo no parlamento, com o chefão da máfia do pseudogoverno, Jair Bolsonaro, hoje trancafiado no xadrez, humilhando publicamente parlamentares, arrotando pilhérias machistas, intimidando, tratando congressistas mulheres como as ratuínas com quem seu grupo político estava acostumado a se deitar.

Não é um ‘botton’ na lapela, apelando pela vida das mulheres, que vai alterar este atual quadro de terra arrasada para nós, brasileiras

Que ninguém se iluda: o aumento escandaloso dos índices de feminicídio e atentados violentos contra mulheres no Brasil atualmente é resultado desse caldo de licenciosidade golpista, de permissividade ao assédio, à discriminação de gênero, à violência misógina, à mentira midiática.

Afinal, “quem criou o Collor foi a mídia. Quem criou o Sérgio Moro foi a mídia. Quem projetou Jair Bolsonaro foram os grandes veículos de comunicação. Ele era um deputado federal medíocre, que aprovou um único projeto de lei em anos de mandato”, disse Renata Mieli, doutora em Ciências da Comunicação, em recente entrevista ao “Brasil de Fato Entrevista”. Mieli acrescentou ainda que a imprensa atuou para desestabilizar o governo Dilma e, ao mesmo tempo, blindar o golpista maior, Michel Temer, seu vice.

Saímos daquele período de golpe e ascensão do fascismo de extrema-direita, e de aumento da violência de gênero em todos os âmbitos, cheias de tristeza e nojo, olhando para aquele Congresso de “pais de chiqueiro”, para aqueles dentes de rastelo da justiça insolente e inconsequente, como quem observa uma estrebaria fedorenta. Sabemos hoje que não é um “botton” na lapela, apelando pela vida das mulheres, nem uma tornozeleira eletrônica, nem uma medida protetiva, nem um mês de março ou abril que vão alterar este atual quadro de terra arrasada para nós, brasileiras. Seguimos e seguiremos incrédulas e alarmadas, debalde.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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