COLUNA

Marilene Felinto

Página de não diário

Uma agonia a perspectiva de atravessar um dia inteiro como este rumo à incerteza de seu final — se será ruim demais ou ao menos suportável

22 de Abril de 2026

Que isso possa ser interpretado como uma página de diário, só me ocorreu depois. Isso também não é sobre guerra, ou as guerras do mundo. Mas será talvez influenciado por elas? Será, esse sentimento que se alastra como horror, resultado do inconsciente “espírito da época”, como se diz? Li hoje pela primeira vez a palavra “retrogosto”, que desconhecia, e que significa “gosto residual”, aquele resto do sabor que se experimentou e que resiste por um tempo na boca.

Deparei-me com o termo numa página de palavras cruzadas — aliás, se a guerra chegasse aqui, por exemplo, eu não faria outra coisa senão palavras cruzadas… Pensei isso, em mais uma associação sem nexo.

Já me encontro numa batalha pessoal, porém: este dia de hoje, um dia de sofrimento, porque não sei como ele vai terminar. Precisava que ele acabasse o quanto antes. Uma agonia a perspectiva de atravessar um dia inteiro como este rumo à incerteza de seu final — se será ruim demais ou ao menos suportável. É a isso, talvez, que chamam de “maldição”, palavra que os antigos da família temiam, porque julgavam de mau agouro, eles que nutriam muitas superstições. “Isso parece uma maldição!”, alguém exclamava. “Não diga essa palavra, não! Não diga nunca, ouviu?!”, outro respondia, com irritação.

Pequenas devastações podem ser às vezes muito mais dramáticas e definitivas do que as grandes provocadas pelas tempestades, pelas guerras

A espera pelo fim deste dia (que não termina) é da natureza da ansiedade dos fracos, dos covardes. Minha própria covardia é explícita, embora vire surpreendente (e desgastante) coragem na hora “H”. Acontece de ser este um dia de dúvida e pressentimento — melhor dizendo, dia de “premonição”, que antecede algum tipo de pequena devastação.

Pequenas devastações podem ser às vezes muito mais dramáticas e definitivas do que as grandes provocadas pelas tempestades, pelas guerras — porque tratam de eventos que vão acometer justamente quem já não tinha nada, ou tinha muito pouco e, portanto, terá menos ainda.

Estes tempos de carnificina humana — tempo de dias sinistros a vencer —, estes tempos de atos propositais de extermínio de tanta gente, não sei por quê me lembram Virginia Woolf, a escritora inglesa que não suportou o fim de um dia em 1941, durante a Segunda Guerra, e decidiu caminhar rio adentro até desaparecer, os bolsos cheios de pedras que ajudaram aquela mulher ultrassensível a submergir nas profundezas da água turva do rio Ouse, condado de East Sussex, a 70 quilômetros de Londres. Para fugir dos horrores da guerra, a escritora foi morar ali, numa espécie de aldeia rural chamada Rodmell, na cidade de Lewes.

No entanto, Virginia não suportou saber que seu apartamento no bairro londrino de Bloomsbury tinha sido bombardeado pouco tempo antes, num ataque aéreo alemão em 1940. Virginia era rica, branca, emocional e psicologicamente frágil. (Mas nós, não! Somos gente feita de outro material, que cresceu ouvindo: “Você precisa ser forte nesta vida, entendeu bem?!”, decretavam. “Seja forte!”, reforçavam.)

Minha força, normalmente eu fingia ter, porque precisava fingir — e não é que ela acabava por agir mesmo como força?

Força e fragilidade, que começam com a mesma letra — exatamente como “fracasso” — nunca me soaram, porém, como conceitos de sentido diferente nem oposto. Minha força, normalmente eu fingia ter, porque precisava fingir — e não é que ela acabava por agir mesmo como força?

Mas essa lembrança, esse revisitar Virginia Woolf se deve provavelmente ao fato de que, na minha ridícula juventude, ou quando jovem adulta — ou seja, quando li pela primeira vez grande parte da obra da escritora — eu invejava o grupo de artistas e intelectuais que formavam, junto com Virginia, o “grupo de Bloomsbury”, a pequena revolução daquele coletivo pacifista que discutia estética, defendia o feminismo e as sexualidades diversas. Atuavam como as “antenas da raça”, para usar a definição que Ezra Pound dava à função dos artistas no mundo.

Mas isso é sobre guerra? Não. É sobre um sentimento subjetivo, individual, um pressentimento, uma premonição que assombra um dia e tem um quê de “maldi…”. Não tem a gravidade de uma guerra, mas é sobre minha guerra particular da transcorrência de um dia de medo, guerra que seria cosmética não fosse a impotência que ela provoca.

Por acaso isso vai remeter a certa atmosfera dos escritos woolfianos? Estaria eu escrevendo num fluxo sem limites, ao estilo de Virginia Woolf, imitando o inimitável texto da inglesa, de qualidade tão refinada que chega a doer? Não foi absolutamente minha intenção.

Em outra associação sem nexo, pensei: não sei se saio e compro alguma coisa que está faltando na casa ou se deixo o tempo passar, o dia seguir simplesmente, ao sabor enlouquecedor do seu ritmo de paralisia, sem preenchê-lo com nada.

Precisava que esse dia cheguasse ao final com retrogosto limpo, sem resquícios de nada. E que se matenha essa aparência de que eu sou forte, sim. Necessário chegar ao final do dia como quem chega ao último capítulo, esse “enorme prodígio” que se realiza ao se alcançar o último capítulo de uma escrita.

Em seu diário de 1941, Virginia Woolf escreveu: “How could anyone write again after achieving the immense prodigy of the last chapter”?. (Como é que alguém consegue escrever novamente depois de chegar ao enorme prodígio do último capítulo?)

Mas isso nem é uma página de diário. Isso é sobre palavras e destinos cruzados. Aliás, se a guerra chegasse aqui, e como não tenho armas, o que eu faria é comprar um caderno de palavras cruzadas da categoria super difícil (daquelas antigas, em papel, que se compra na anacrônica banca de jornal e revistas) e ficar preenchendo os quadrados. Isso talvez ajude a encarar o dia interminável, a não pensar no fim dos dias.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras 12 publicações, do romance "As Mulheres de Tijucopapo" (1982 – já na 5ª edição; Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de autora revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é o romance "Corsária" (Fósforo, 2025).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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