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Livros em que a herança e as relações familiares são o motor da narrativa

De Djaimilia Pereira de Almeida e Julieta Correa a Milton Hatoum, nove autores presentes na 24ª Flip contam histórias de cuidado, afeto, conflito, luto, memória e ausência

Ana Elisa Faria 22 de Julho de 2026

Na literatura, família também é aquilo que se herda sem escolher: amor, rancor, silêncio, culpa, dor, histórias interrompidas e perguntas que rondam gerações. Nos livros de autores presentes na 24ª Flip, realizada até 26 de julho em Paraty, esses vínculos aparecem sob diferentes formas — na convivência com a demência de mães e avós, na infância, no rompimento com os pais, na rivalidade entre irmãos, no luto, no abandono e na busca por quem desapareceu.

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Nas linhas abaixo, Gama apresenta nove obras em que as relações familiares são o motor da narrativa. Entre romances e relatos de inspiração autobiográfica, os títulos investigam o que recebemos de quem veio antes e o que fazemos com heranças marcadas tanto pelo afeto quanto pela ausência.

  • “Por que São Tão Lindos os Cavalos?” (Editora 34, 2026), de Julieta Correa

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    Quando as falhas de memória da mãe se tornam frequentes, uma filha, jornalista, começa a registrar consultas, conversas, esquecimentos e episódios da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, ela percorre os cerca de 80 cadernos que Sari, a mãe, escreveu ao longo de décadas. Entre os diários da matriarca os registros do presente, o livro — traduzido por Mirella Carnicelli — recompõe uma história familiar marcada pela perda progressiva da linguagem, pela inversão dos papéis entre mãe e filha e pelo esforço de preservar uma vida sem preencher todas as suas lacunas.

    A escritora argentina Julieta Correa participa da mesa Como revelar-te se me revelas? junto da autora mineira Flávia Péret. No encontro, elas refletem sobre a relação entre mãe e filha, neta e avó, além de falar sobre memória, esquecimento e demência. Quando: sexta-feira, 24 de julho, às 15h.

  • “Coisas Presentes Demais” (Relicário, 2025), de Flávia Péret

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    Durante visitas à avó, que vive em uma casa de repouso após ser diagnosticada com Alzheimer, a narradora tenta se reaproximar de uma mulher exuberante, contraditória e por muito tempo distante. Em fragmentos que combinam encontros do presente, lembranças da infância, fotografias, gestos e silêncios, ela recompõe a trajetória da avó, que contrariou os papéis reservados às mulheres de sua geração, sem apagar os incômodos e as rejeições que marcaram o vínculo entre as duas. Enquanto uma esquece e a outra se põe a lembrar, o livro apura como a memória, o afeto e a herança familiar participam da construção da identidade.

    A escritora mineira Flávia Péret participa da mesa Como revelar-te se me revelas? junto da autora argentina Julieta Correa. No encontro, elas refletem sobre a relação entre neta e avó, mãe e filha, além de falar sobre memória, esquecimento e demência. Quando: sexta-feira, 24 de julho, às 15h.

  • “O Aniversário” (Companhia das Letras, 2026), de Andrea Bajani

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    Dez anos depois de romper definitivamente com os pais, o narrador desta história retorna, por meio da memória, à sua juventude, vivida entre Roma e uma cidadezinha do norte da Itália. Aos poucos, ele reconstitui uma família submetida à autoridade paterna, ao apagamento da mãe e a uma rotina de silêncios, medo e controle. O afastamento, inicialmente apresentado como um gesto radical, ganha contornos mais complexos à medida que o filho revisita os mecanismos que moldaram sua infância e sua relação com os demais integrantes da família.

    Autor do livro, que tem tradução de Iara Machado Pinheiro, o romancista italiano Andrea Bajani participa da mesa A infância volta devagarinho junto da escritora brasileira Maria Esther Maciel. No encontro, eles discutem as relações familiares e o amor compulsório. Quando: quinta-feira, 23 de julho, às 17h.

     

  • “Essa Coisa Viva” (Todavia, 2024), de Maria Esther Maciel

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    Um ano após a morte da mãe, Ana Luiza, uma botânica reconhecida internacionalmente, revisita a relação difícil que manteve com ela. A partir de “coisas”, tais como plantas, insetos e objetos ligados à casa e à infância, a protagonista recompõe lembranças marcadas por culpa, rancor, cobranças e instabilidade. Ao recuperar a história de uma mulher que foi, ao mesmo tempo, vítima das limitações impostas por sua época e responsável pelo sofrimento da filha, o romance analisa os vínculos que continuam agindo sobre nós mesmo depois da morte.

    Autora do livro, a escritora mineira Maria Esther Maciel participa da mesa A infância volta devagarinho junto do autor italiano Andrea Bajani. No encontro, eles discutem as relações familiares e o amor compulsório. Quando: quinta-feira, 23 de julho, às 17h.

  • “O Livro do Meu Pai” (Todavia, 2025), de Djaimilia Pereira de Almeida

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    Após a morte do pai durante a pandemia, a narradora procura o romance monumental que, há décadas, ele dizia estar escrevendo, mas que ninguém parece ter lido. A busca pelo manuscrito, talvez inexistente, conduz a filha por lembranças, luto, documentos e histórias familiares. Em fragmentos, ela tenta se aproximar de um homem que conhecia intimamente e que, ao mesmo tempo, permanece misterioso, transformando a obra inacabada do pai em matéria para o próprio livro.

    A escritora portuguesa nascida em Angola Djaimilia Pereira de Almeida reflete, na mesa Luto e memória, sobre a relação entre escrita e vida, rememorar e resistir. Quando: sexta-feira, 24 de julho, às 14h30.

  • “Ressalga” (Record, 2026), de Bethânia Pires Amaro

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    O romance acompanha três gerações de mulheres de uma mesma família: Janaína, Graça e Flora. Depois de anos afastada, Flora retorna a Salvador e tenta reconstruir o destino da mãe a partir das histórias que ouviu da avó e das marcas deixadas pela ruptura familiar. Nessa viagem, as memórias das personagens se confundem com as transformações da cidade, seus mitos e seus apagamentos.

    A escritora e advogada que nasceu em Recife e cresceu em Salvador participa do encontro Filhas do fogo, filhas da maré, em que fala sobre o que herdamos das mulheres que vieram antes de nós e o que fazemos com essas heranças. Mediada por jovens de Paraty, a conversa parte das histórias e dos territórios que habitamos para refletir sobre identidade, crescimento, memória e futuro. Quando: sábado, 25 de julho, às 17h.

  • “O Retorno” (Editora Âyiné, 2022), de Hisham Matar

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    Depois de décadas no exílio, Hisham Matar — filho de pais líbios, ele nasceu em Nova York e cresceu entre Trípoli e o Cairo — retorna à Líbia em busca de informações sobre o pai, sequestrado pelo regime de Muammar Gaddafi e desaparecido desde então. A investigação, que virou este livro traduzido por Odorico Leal, reúne lembranças da infância, relatos de parentes e vestígios deixados pela repressão política. Ao procurar o pai, o autor também relembra a história de sua família e a relação interrompida com o país de origem.

    Matar, participa da mesa Não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago junto do escritor manauara Milton Hatoum. No encontro, eles falam sobre histórias de famílias que têm seu destino determinado por governos autoritários. Quando: sábado, 25 de julho, às 17h.

  • “Dois Irmãos” (Companhia das Letras, 2022; nova edição), de Milton Hatoum

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    Em Manaus, a rivalidade entre os gêmeos Yaqub e Omar, de ascendência libanesa, atravessa décadas e desorganiza toda a família. A preferência da mãe por um dos filhos, a distância do pai e os ressentimentos acumulados moldam a convivência familiar. Narrada por Nael, filho de Domingas, a empregada indígena da casa, a obra, lançada originalmente em 2000, também se constrói em torno de temas como pertencimento e de uma dúvida a respeito da paternidade do próprio narrador.

    O escritor Milton Hatoum participa da mesa Não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago junto do autor Hisham Matar. No encontro, eles falam sobre histórias de famílias que têm seu destino determinado por governos autoritários. Quando: sábado, 25 de julho, às 17h.

     

  • “Repatriação” (Companhia das Letras, 2025), de Ève Guerra

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    Vivendo na França, Annabella Morelli recebe a notícia da morte do pai — um trabalhador exilado franco-italiano, com quem havia rompido anos antes — nos Camarões e precisa organizar o traslado do corpo. Enquanto enfrenta as dificuldades da repatriação, ela recompõe a figura paterna, rememora a infância vivida entre diferentes países e sem a mãe, uma aldeã congolesa que deixou a família numa noite de Natal. O percurso faz emergir uma história familiar marcada por deslocamentos, distâncias afetivas e pelas assimetrias entre a África e a Europa. Com tradução de Diogo Cardoso, a obra é baseada na vida da autora.

    A congolesa Ève Guerra participa da mesa A porta está aberta junto do escritor e diplomata brasileiro e guineense Ernesto Mané. No encontro, eles refletem sobre a relação com a diáspora africana contemporânea e tocam em temas como imigrações, violência, famílias birraciais, afeto, identidade e pertencimento. Quando: domingo, 26 de julho, às 10h.

Neste ano, Gama é parceira de mídia da Flip.

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