Trecho de livro

Caos Calmo

Livro vencedor do Strega, principal prêmio literário da Itália, ganha nova edição no momento em que o autor Sandro Veronesi volta ao país para a Feira do Livro

Leonardo Neiva 24 de Abril de 2026

O escritor italiano Sandro Veronesi, um dos queridinhos do público na última Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, vai voltar a se encontrar com os leitores brasileiros em breve — leia aqui a entrevista dele para Gama. O autor duas vezes vencedor do Strega, mais importante prêmio literário da Itália — e um dos únicos dois escritores a conseguirem o feito — é um dos nomes confirmados na Feira do Livro 2026, que acontece de 30 de maio a 7 de junho na Praça Charles Miller, em São Paulo. Mas não é só Veronesi que retorna ao país este ano. Seu primeiro livro a vencer o Strega, “Caos Calmo”, volta às prateleiras numa nova edição pela Autêntica Contemporânea.

Publicada originalmente por aqui em 2007, pela Rocco, a obra evidencia uma das questões mais importantes para a ficção do autor: a capacidade do ser humano de seguir em frente mesmo em condições aparentemente impossíveis. Assim como os protagonistas de “O Colibri” (Autêntica Contemporânea, 2024), seu romance mais conhecido, e “Setembro Negro” (idem, 2025), seu livro mais recente, o executivo de sucesso Pietro Paladini precisa entender como continuar depois que um acontecimento trágico vira sua vida de ponta-cabeça.

Tudo começa num dia normal, em que ele e o irmão descansam sobre a areia da praia. Quando ouvem gritos de socorro, precisam tomar uma decisão em questão de segundos: se envolver ou não no drama que logo passa a se desenrolar à sua frente. Apesar de rapidamente se tornar uma luta de vida ou morte, o cenário é apenas a sequência de abertura para os intensos conflitos pessoais com que o personagem precisará conviver pelo resto de sua trajetória. Já adaptada para o cinema em 2008 por Nanni Moretti, uma narrativa que trata dos laços familiares e pessoais que construímos ao longo do tempo, do luto, do medo da perda e de como eventos aparentemente banais podem deixar marcas para toda a vida, cujo início você lê no trecho abaixo.


— Ali! — digo.

Acabamos de surfar, Carlo e eu. Surfe: como vinte anos atrás. Pegamos emprestadas as pranchas de dois garotos e nos lançamos entre as ondas altas, longas, tão insólitas no Tirreno que banhou toda a nossa vida. Carlo, mais agressivo e audacioso, ululante, tatuado, obsoleto, com os cabelos longos ao vento e o brinco reluzindo ao sol; eu, mais prudente e preocupado com o estilo, mais diligente e controlado, mais mimetizado, como sempre. Sua famigerada classe beat e meu velho comedimento em cima de duas pranchas que deslizavam ao sol, e nossos dois mundos que voltavam a duelar como nos tempos das terríveis brigas de juventude — rebelião contra subversão —, quando as cadeiras voavam; não era brincadeira, não. Não que a gente tenha dado um show, pois já foi muito se conseguimos não cair das pranchas; ou melhor: demos um show de quem também já foi jovem e, por um breve período, acreditou que algumas forças pudessem realmente prevalecer e, nesse período, aprendeu a fazer uma porção de coisas que, em seguida, se revelaram absolutamente inúteis, como tocar conga ou girar uma moeda entre os dedos, como David Hemmings em Blow-Up, ou desacelerar os batimentos cardíacos para simular um ataque de bradicardia e ser dispensado do serviço militar, ou dançar ska, ou enrolar os cigarros de maconha com uma mão só, ou usar arco e flecha, ou a meditação transcendental, ou, justamente, o surfe. Os dois garotos não podiam entender; Lara e Claudia já tinham voltado para casa; Nina 2004 partiu de manhã cedo (como Carlo troca de namorada todo ano, Lara e eu começamos a acrescentar o ano ao nome de cada uma): não havia ninguém para assistir, foi um showzinho entre nós dois, uma daquelas brincadeiras que só fazem sentido entre irmãos, porque um irmão é testemunha de uma inviolabilidade que, a partir de certo momento, ninguém mais está disposto a reconhecer em você.

— Ali! — digo de repente.

Depois, deitamo-nos na areia para nos enxugar, zonzos de cansaço, com os olhos fechados e o vento arrepiando os pelos do peito, e ficamos em silêncio, relaxando. De repente, porém, percebi que, para desfrutar daquela paz, estávamos negligenciando algo que, pouco antes, havia começado a se distinguir com uma urgência particularmente ruidosa: gritos. Sentei-me, imediatamente imitado por Carlo.

— Ali! — digo de repente, apontando para um grupo de pessoas muito agitadas, a uma centena de metros contra o vento.

Certas coisas, a gente faz sem pensar

Levantamo-nos de um salto, com os músculos ainda aquecidos pela longa cavalgada entre as ondas, e corremos até a pequena multidão. Deixamos para trás celulares, óculos, dinheiro, tudo: de repente, não existe nada além daquele amontoado de gente e daqueles gritos. Certas coisas, a gente faz sem pensar.

O tempo que segue é uma espécie de sequência mediúnica instantânea, sem outra sensação além daquela de formar um único ser com meu irmão: as perguntas sobre o que aconteceu, o velho desmaiado à beira d’água, o homem de cabelos loiros tentando reanimá-lo, o desespero de duas crianças gritando “Mamãe!”, os semblantes desorientados das pessoas que apontam para o mar, duas pequenas cabeças perdidas entre as ondas e ninguém fazendo nada. Em meio à estagnação frenética se destaca o olhar azul de Carlo, intenso, carregado de uma incrível energia cinética: esse olhar diz que, por alguma indiscutível razão, cabe a nós salvar os dois pobres coitados e que, na realidade, é como se já o tivéssemos feito, sim, é como se tudo já tivesse terminado, e nós dois, irmãos, já fôssemos os heróis daquele grupo barulhento de desconhecidos, porque somos criaturas aquáticas extraordinárias, somos tritões e, para salvar vidas humanas, somos capazes de domar as ondas com a mesma naturalidade com que tínhamos acabado de domá-las para nos divertir em cima de pranchas de surfe, e ali ao redor não há mais ninguém com competência para fazer isso.

Entramos correndo na água e nos arrastamos até onde rompem as primeiras ondas. Então nos deparamos com um homem estranho, muito magro e ruivo, tentando lançar desajeitadamente mar adentro uma corda muito curta, enquanto as pessoas que precisam ser salvas estão a pelo menos trinta metros de distância. Passamos rapidamente ao seu lado, e ele nos lança um olhar que nunca esquecerei — um olhar de quem deixa os outros morrer — e, com voz covarde, digna desse olhar, tenta nos dissuadir: “Não vão”, sibila. “Vocês também podem se afogar”. “Vá à merda”, é a resposta de Carlo um segundo antes de mergulhar em uma onda e começar a nadar. Faço o mesmo e, enquanto nado, vejo contra a luz as sombras das tainhas deslizando horizontalmente ao longo do muro verde que se forma sempre que uma onda se ergue para depois desabar sobre mim: os peixes estão surfando, divertindo-se como fizemos nós poucos minutos antes.

Vistas da praia, as duas cabeças pareciam próximas uma da outra, mas, na realidade, estão bem distantes, de modo que, a certa altura, Carlo e eu temos de nos separar: faço-lhe sinal para que se dirija à da direita, enquanto parto na direção da outra, à esquerda. Ele olha para mim de novo, sorrindo, assente, e de novo me sinto invencível; ambos partimos com força.

Quando estou bem próximo, percebo que se trata de uma mulher. Lembro-me das duas crianças desesperadas na praia: “Mamãe!”. A cabeça desaparece debaixo d’água e ressurge por uma indecifrável combinação de forças, à qual a mulher parece totalmente alheia. Grito para que aguente firme e reforço as braçadas, enquanto uma corrente muito forte tenta me arrastar para outra direção. Aquela mulher foi parar bem no meio de um redemoinho. Quando consigo chegar a alguns metros dela, começo a distinguir seus traços fortes, o nariz um pouco achatado, ao estilo Julie Christie, mas, sobretudo, o véu de puro terror que pousou sobre seus olhos: está no limite de suas forças, não consegue nem gritar, apenas soluçar. Dou as últimas braçadas nadando peito e a alcanço. Das profundezas de seu corpo sai uma espécie de gorgolejo sinistro, como de pia entupida.

Somos capazes de domar as ondas com a mesma naturalidade com que tínhamos acabado de domá-las para nos divertir em cima de pranchas de surfe

— Fique tranquila, senhora — digo —, agora vou levá-la para a…

Bruscamente, como se tivesse se preparado com zelo, a mulher crava as mãos na concavidade das minhas clavículas e me afunda na água com todas as suas forças. Surpreendido no meio da frase, engulo água, depois volto à superfície com certa dificuldade, tossindo.

— Calma — digo —, não me afun…

De novo ela me empurra para debaixo d’água sem me deixar terminar a frase, e de novo engulo água e tenho dificuldade para voltar à superfície e recuperar o fôlego. Não demora para que tente me afundar de novo, e tenho de me desvincular para escapar de seu aperto. Para me segurarem, suas unhas arranham meu peito até sangrar e me machucam muito. Ofegante, esfolado, dou duas braçadas para trás; e toda a minha força, aquela maravilhosa sensação de inviolabilidade com a qual eu tinha partido da praia, já desapareceu.

— Não me deixe! — gorgoleja a mulher. — Não me deixe!

— Senhora — digo, mantendo distância —, desse jeito não vamos a lugar nenhum! Fique calma!

Mas, como resposta, ela desaparece debaixo d’água e não reaparece mais. Merda. Mergulho, consigo agarrá-la pelos cabelos enquanto ela afunda como uma pedra, depois a seguro pelas axilas e a levo para cima, lutando contra a corrente que puxa para baixo. É muito pesada. Quando chego à superfície, meus pulmões estão prestes a explodir, mas, pelo menos, a mulher me deixa respirar algumas vezes antes de me afundar de novo.

— Não me deixe! — recomeça.

Frustro sua tentativa de me afundar de novo, e me antecipo dando um impulso com a lombar. Desta vez ela não me pega mais de surpresa, e pelo menos não engulo água, mas estou desperdiçando todas as minhas forças para impedir que ela me mate, e isso não é nada bom.

— Não me deixe!

— Não vou deixá-la, não! — grito. — Mas a senhora tem de me soltar! Do contrário, nós dois vamos nos afog…

Não tem jeito, a essa altura não resta dúvida de que a mulher não quer ser salva, quer apenas que alguém morra com ela. Mas eu não quero morrer, penso. Amo a vida. Tenho uma companheira e uma filha que me esperam em casa. Vou me casar em cinco dias. Tenho 43 anos, um trabalho: pombas, não posso morrer…

A essa altura não resta dúvida de que a mulher não quer ser salva, quer apenas que alguém morra com ela. Mas eu não quero morrer, penso. Amo a vida

Penso em fugir, em perder mais um pouco de pele debaixo das unhas predadoras dessa mulher e em escapar de seu abraço mortal, deixando que se afogue sozinha; mas seus olhos verdes e aquosos, que em condições normais devem ser muito bonitos, parecem tão extenuados, aterrorizados e apagados que é praticamente uma obrigação tentar salvá-la. Volto a pensar nas crianças. No imbecil que nos disse para não seguirmos em frente. Em meu irmão, que sabe-se lá o que está passando nesse momento.

— Não me deixe!

Não, não a deixo, não fujo e, ainda por cima, penso em uma solução. Desvinculando-me de suas presas, consigo deslizar para detrás de suas costas e agarrar seus braços pela concavidade dos cotovelos: sem aqueles dois tentáculos frenéticos, a mulher não tem mais como me matar, e isso já é um grande progresso. Só que agora, com os braços dela imobilizados e inutilizados, os meus também estão presos, e levá-la para a praia se mostra complicado. Tenho de conseguir transmitir a seu corpo morto a pouca força que restou ao meu, e isso em meio a um mar muito agitado, onde acabei de surfar, em meio a um redemoinho que continua a nos puxar para baixo e sem poder usar os braços. Um problemão. Tento refletir e realmente não vejo outra possibilidade além de usar as pernas e a pelve. Assim, dou um grande impulso com as pernas e, com força, lanço minha pelve contra a sua: avançamos um pouco em direção à praia. Repito a operação, enquanto seu inconsciente suicida a leva a debater-se e a lutar para dificultar as coisas: impulso com as pernas, impulso com a pelve e, de novo, avançamos um pouco em direção à praia. Mais um impulso, mais um pequeno progresso, e pronto: com paciência, com calma e dosando as forças, entendo que desse modo podemos conseguir e me sinto mais tranquilo. Só que eu disse “pelve”, porque também se pode dizer assim, mas a verdade é que estamos em uma posição um tanto quanto obscena e, na realidade, sua pelve é um traseiro, um traseiro largo e macio de madre superiora, enquanto a minha pelve não é outra coisa além de um pênis. Estou empurrando meu pau no seu traseiro, isso é o que estou fazendo, com todas as minhas forças, prendendo seus braços por trás, dando impulsos frenéticos com as pernas, em uma posição tão absurda, despudorada e selvagem que, de repente, acontece uma coisa absurda, despudorada e selvagem: tenho uma ereção. Percebo enquanto ocorre, enquanto essa violenta sensação de potência chega do nada (onde estava, um segundo antes?) para se concentrar em um único ponto e, a partir dele, tensionar meus músculos, se fosse possível curvá-los, e logo depois espalhar-se em sentido contrário pelo corpo como uma onda de calor, preenchendo-o, de modo que, em poucos instantes, todo o meu corpo está em ereção, como se nessa posição com a mulher eu me encontrasse não no meio do mar revolto e com nossas vidas em perigo, mas praticando sexo selvagem em uma cama grande e desconhecida, em um quarto de conto de fadas, em estilo arabesco: sinto isso enquanto acontece e fico espantado, mas todo o espanto desse mundo não impede que meu pau continue a inchar e a enrijecer debaixo do calção como se fosse uma entidade autônoma, independente de mim, uma irredutível minoria hormonal que se recusa a aceitar a ideia da morte ou, talvez justamente por tê-la aceitado, lança ao universo seu último e ridículo grito de batalha.

Todo o meu corpo está em ereção, como se nessa posição com a mulher eu me encontrasse não no meio do mar revolto e com nossas vidas em perigo, mas praticando sexo selvagem

Produto

  • Caos Calmo
  • Sandro Veronesi (Karina Jannini)
  • Autêntica Contemporânea
  • 440 páginas

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