Livros que a equipe da Gama leu em 2025 e recomenda

Da poesia de Antonio Cicero a narrativas premiadas e existenciais, veja as obras que selecionamos como destaques do ano para os membros da revista

Leonardo Neiva 26 de Dezembro de 2025

Da poesia completa de Antonio Cicero (1945-2024) a uma história em quadrinhos de traços existencialistas, de uma viagem espacial filosófica vencedora do Booker Prize a um retrato da busca dos millennials por autenticidade, a equipe da Gama seleciona alguns de seus livros preferidos publicados em 2025 no Brasil. Confira a seguir.

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    “Fullgás: Poesia reunida” (Companhia das Letras)

    de Antonio Cicero

    “Sofisticada e acessível, sensual e filosófica, musical e reflexiva. Não são poucos os pares de adjetivos aparentemente opostos que definem a poesia de Antonio Cicero (1945–2024), celebrada neste volume que reúne seus três livros — ‘Guardar’ (1996), ‘A Cidade e os Livros’ (2002) e ‘Porventura’ (2012) — além de poemas soltos e inéditos. Ler o autor carioca é se impressionar a cada página com a precisão do uso das palavras e a expansão de seus sentidos em cenas muitas vezes banais, como um passeio ou um encontro. Seus poemas são como fotografias: capturam um instante com precisão, não há o que tirar nem pôr, e ainda assim oferecem novas descobertas a cada leitura. O livro chegou às prateleiras poucos meses após sua morte assistida na Suíça, ocorrida anos depois do diagnóstico de Alzheimer. Filósofo de formação e ensaísta, Cicero dedicou parte de seus escritos a questões que, de algum modo, dialogam com aspectos afetados no fim de sua vida, como memória, consciência e linguagem. Além disso, também abordou o amor, o desejo homoerótico e o cotidiano urbano. Para quem, assim como eu, é apaixonado pelos poemas que se transformaram em hinos do pop rock brasileiro — como ‘Fullgás’ e ‘À Francesa’ — ter toda a sua poesia reunida na ponta dos dedos é um privilégio e uma fonte inesgotável de inspiração.” (Amauri Terto, coordenador de mídias sociais)

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    “Orbital” (DBA)

    de Samantha Harvey, tradução de Adriano Scandolara

    “Em 2014, assisti a um filme meio teatral, meio nonsense, cujo título me marcou tanto quanto a obra: ‘Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência’, em que personagens caricatos observam a vida e aguardam a morte. Logo nas primeiras páginas de ‘Orbital’, da escritora inglesa Samantha Harvey — com tradução de Adriano Scandolara —, lembrei do longa-metragem do sueco Roy Andersson. No livro, no lugar da ave columbiforme, seis astronautas em órbita na Estação Espacial Internacional refletem sobre as angústias do viver — ali e aqui embaixo — enquanto circundam a Terra e testemunham diariamente 16 alvoradas e 16 anoiteceres. Uma leitura surpreendente, inclusive nos trechos mais banais, em que a autora descreve o trabalho mecânico e ordinário dos tripulantes. Deixo aqui dois trechos para darem um gostinho: ‘Aqui em cima, legal parece uma palavra tão alienígena. É brutal, desumano, avassalador, solitário, extraordinário e magnífico. Não há uma única coisa que seja legal’ e ‘Com frequência, ela se flagra com dificuldades para contar as coisas aos seus de casa, porque as coisas pequenas são mundanas demais e o resto é estarrecedor demais, e não parece haver nada no meio do caminho’.” (Ana Elisa Faria, repórter)

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    “O Polonês” (Companhia das Letras)

    de J. M. Coetzee, tradução de José Rubens Siqueira

    “O que faz com que uma pessoa se apaixone por outra? Como alguém recebe o amor inesperado de alguém? Como se ama no fim da vida? Até quando uma mulher despera o desejo de um homem? Essas são algumas das questões que envolvem este pequeno grande livro, que traz de volta aos fãs de Coetzee um dos maiores narradores da literatura contemporânea. Acompanhamos o desenrolar da rápida e unilateralmente profunda relação de amor entre o pianista polonês Witold, especialista em Chopin, e Beatriz, que está à frente de uma sociedade de amigos da música em Barcelona. Rica, culta, casada e entediada, ela vê sua vida balançar pelo inusitado crush de um homem no ocaso da vida.” (Isabelle Moreira Lima, editora executiva)

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    “As Perfeições” (Todavia)

    de Vincenzo Latronico, tradução de Bruna Paroni

    “O livro do escritor italiano pode ser um teste de paciência. Seu estilo narrativo lembra uma análise sociológica, só que focada na vida de um casal aparentemente comum de jovens nômades digitais. É com o tempo e o folhear das páginas que a escolha narrativa, inspirada num romance de Perec, de fato ganha força. Ainda que o livro não faça muito além de apontar um espelho para o rosto de uma geração e uma classe social específicas, forçando-as a reconhecer sua alienação e sua falta de autenticidade, ao final ele ressoa como um recorte bem-sucedido do sentimento de vazio da existência atual. Um vazio no qual o próprio Latronico certamente se reconhece — senão, não seria capaz de descrevê-lo de forma tão precisa.” (Leonardo Neiva, repórter)

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    “Setembro Negro” (Autêntica Contemporânea)

    de Sandro Veronesi, tradução de Karina Jannini

    “Existe algum acontecimento que dividiu a sua vida entre antes e depois? Para Gigio Bellandi, que narra esta história, um evento significativo aconteceu aos 12 anos: ‘a partir de certo dia, não fui mais feliz’, conta logo no início de ‘Setembro Negro’. Duas vezes vencedor do prêmio Strega, o autor italiano reconstrói em detalhes a vida do garoto, de forma que somos cativados pelos cheiros, sons e imagens das férias de verão de 1972 na Versilia, noroeste da Toscana, na província de Lucca. Em uma juventude feliz, quando está perdendo a inocência de criança, o protagonista se apaixona, descobre a música, a leitura, o desejo — mas as alegrias são interrompidas bruscamente. Para mim, a leitura foi um exercício de paciência, já que o protagonista — que às vezes pode ser um pouco irritante com suas obsessões muito específicas por esportes — me deixou ansiosa para entender o trauma que só aparece no final. Ainda assim, a escrita fluida de Veronesi nos conduz sem esforço e deixa uma reflexão sobre a maneira como a vida insiste em seguir adiante, mesmo quando tudo parece impossível. Você pode ler as primeiras páginas da obra aqui na Gama.” (Sarah Kelly, estagiária de texto)

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    “Análise” (Zahar)

    de Vera Iaconelli

    “Neste relato acompanhamos a história da psicanalista Vera Iaconelli e de seus familiares, mas também entendemos como os anos de análise a ajudaram a organizar suas memórias. Não apenas botar no papel o que viveu — o que é diferente de falar durante uma sessão de análise —, como entender a importância de acontecimentos e sensações que às vezes deixamos passar, mas que se mostram essenciais para o nosso próprio entendimento. “Disfarçamos os lapsos, os sonhos, os sintomas, os atos falhos e os chistes, fingindo que eles não têm nada a dizer sobre nós”, ela escreve. Um livro que nos envolve pela história contada de maneira direta, sem firulas, e também por nos ajudar a decifrar um pouco (muito pouco) a psicanálise lacaniana.” (Luara Calvi Anic, editora-chefe)

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    “Aula de Teatro” (Veneta)

    de Nick Drnaso, tradução de Cris Siqueira

    “Um casal entediado, um modelo nu, uma fisioterapeuta, uma avó e um ex-presidiário entram numa aula de teatro comunitária. Esta é mais ou menos a premissa de Nick Drnaso em ‘Aula de Teatro’, lançado este ano no Brasil. Dez estranhos, que têm em comum apenas o desajuste social e a procura desesperada por uma mudança na vida, se encontram pela primeira vez nessa aula misteriosa, com um professor carismático que vai se mostrando cada vez mais peculiar. À medida que as aulas vão se desenrolando, os cenários fictícios encenados parecem se confundir cada vez mais com a realidade dos alunos. Os traços  básicos, andróginos e inexpressivos dos personagens muitas vezes os tornam indistinguíveis, contribuindo para o tom surrealista e perturbador do quadrinho. É uma obra esquisita, inquietante e engraçada (à la Nathan Fielder), que nos leva por uma desconexa jornada ao refletir sobre os conceitos de individualidade, comunidade e realidade como algo cada vez mais fluido.” (Isabela Durão, editora de arte)

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    “Os Sorrentinos” (Autêntica Contemporânea)

    de Virginia Higa, tradução de Sílvia Ornelas

    “Achei que tinha pegado um livro quase bobo pra ler: uma leitura fácil, leve, engraçada, que ia me liberar um pouco da densidade das anteriores. Mas o que encontrei foi um falso livro bobo. Ao desenhar personagens profundamente humanos, nem bons nem maus, a argentina Virgínia Higa consegue nos fazer refletir com profundidade sobre a nossa humanidade. As histórias de cada um são contadas como as fofocas de família, sabemos primeiro do jeito deles, depois de pequenos causos, até saber o desfecho de cada um. Pelo ‘jeito deles’ entenda seres humanos cheios de complexidade, com idiossincrasias, desejos, vontades, bondades e malícias. Aprendemos tudo isso também com um vocabulário próprio dessa família, a de Chiche, numa piscadela ao clássico ‘Léxico Familiar’ (Companhia das Letras, 2018), de Natalia Ginzburg. E ainda tem a história central, dos sorrentinos, massa recheada inventada pela família do protagonista. Se você é amante da cozinha, vai gostar. O livro nos lembra que é ao redor da mesa que vivemos a maior parte do tempo com quem amamos. Agora, se você é um observador de como nos relacionamos com o outro, vai encontrar um prato cheio para reflexão.” (Isabelle Moreira Lima, editora executiva)

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