COLUNA

Observatório da Branquitude

Do you speak … branquitude?

O contato com uma língua estrangeira, o domínio do idioma para uso no trabalho e para oportunidades educacionais ainda é um poderoso marcador de classe e de acesso nos dias atuais

10 de Abril de 2026

Recentemente precisei fazer um exame de proficiência em inglês. Fazia anos que tinha me submetido a um teste desse tipo e, não vou mentir, fiquei nervosa. Precisava atingir uma certa pontuação. Tomei chá de camomila o dia inteiro e um calmante uns 30 minutos antes. Talvez você esteja pensando que é muito para um testezinho, e talvez até seja.

Só que tudo me fez pensar como o conhecimento de outro idioma é um marcador de acessos e de oportunidades. O nervosismo é uma resposta a um histórico de dúvidas sobre performance em outra língua.

Lembro de colegas de colégio que falavam muito bem o inglês, pois faziam cursos extra, tinham TV por assinatura e consumiam muito conteúdo estadunidense. Alguém me contou que aprendeu inglês jogando videogame, pois há 20 anos não existiam jogos traduzidos para português. Ter TV a cabo e videogame em casa naquela época não era fácil para a faixa de renda da minha família. Por mais triviais que esses bens pareçam hoje, o contato com uma língua estrangeira, o domínio do idioma para uso no trabalho e a oportunidades educacionais ainda é um poderoso marcador de classe e de acesso nos dias atuais.

Resultados de uma pesquisa de 2025 do British Council mostram que apenas 5% da população brasileira fala inglês e 1% têm fluência no idioma. Se o domínio de línguas estrangeiras é extremamente restrito entre a população, como pode ser algo tão requisitado no mercado de trabalho? Nesse ponto, é interessante pensarmos na história de reinvenção e permanência de critérios de exclusão. Por exemplo, nos anúncios de trabalho, do pós-abolição até muito recentemente, utilizavam-se da expressão “boa aparência” para indicar de forma indireta a preferência por candidatos brancos.

A “boa aparência” se referia a um capital intransferível e que é epidérmico: a raça. Cida Bento em “O Pacto da Branquitude” cita especificamente sobre suas experiências trabalhando como recrutadora para empresas, que verbalmente sinalizavam que não queriam funcionários negros para determinados postos. As vagas que eram como “cartões de visita”, trabalhos de recepção, por exemplo, eram direcionadas a pessoas brancas.

O conhecimento de outro idioma é um marcador de acessos e de oportunidades

Mas qual a relação entre o tema da “boa aparência” e o efeito da exigência de inglês para vagas em empresas com atuação estritamente nacional? Omar Koshin observa em sua pesquisa que o corte de acesso ao emprego representado pela exigência de inglês tem maior efeito sobre pessoas negras. Repito com ênfase: são elas as mais barradas, sobretudo nas vagas iniciais e nos degraus que levam a andares mais elevados da pirâmide do mercado de trabalho.

O racismo tem uma capacidade de se atualizar aos tempos e às demandas da sociedade e, portanto, se “boa aparência” não funciona mais, outras barreiras são postas favorecendo candidaturas brancas. E toda essa história tornou a pele branca um diferencial, oferecendo um lugar de conforto para a tentativa e para o sentimento de que “meu inglês não é tão bom, mas vou tentar mesmo assim”. Isso ficou ainda mais nítido quando entrevistei alunos do ensino superior para uma pesquisa. Os estudantes negros não se sentiam confiantes em tentar, se suas habilidades não estiverem em altíssimo nível.

A branquitude não encara oportunidades na chave do “tudo ou nada”. Ser branco permite que tentativas — mesmo as frustradas — não se convertam automaticamente em sentenças de falta de aptidão ou capacidade para uma função. É como se a autoestima fosse mais bem protegida através da pele.

Se o domínio de línguas estrangeiras é extremamente restrito entre a população, como pode ser algo tão requisitado no mercado de trabalho?

O inglês não é um critério fora da curva. A trajetória do ensino de idiomas se desenvolveu mais no ensino privado do que no ensino público no Brasil. Ter acesso a um curso no contraturno escolar ou acessar uma escola bilíngue realmente moldam as oportunidades ao longo da vida. Contudo, todos esses acessos são mediados por um aporte financeiro que a maior parte da população negra não possui. Se é verdade que a pobreza tem cor, a riqueza também tem.

Aquele nervosismo do início do texto é forrado pelo lastro do que o racismo causa nas nossas ações. As dúvidas sobre se minhas habilidades são suficientes, se estou realmente preparada não são particulares. Mensagens com essa mesma conotação são enviadas diariamente. Quer seja quando duvidam da minha especialidade em um tema ou nas reações de “ah, não achei que você soubesse disso”. É uma experiência racializada.

O idioma do mercado de trabalho não é o inglês, é a branquitude.

Nayara Melo é graduada em Odontologia pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), mestrado em Sociologia pela mesma instituição, com pesquisas voltadas para ensino superior e ações afirmativas. Cursa doutorado em sociologia, pelo IESP-UERJ, com foco em desigualdade racial no SUS. Possui experiência como pesquisadora no terceiro setor e como profissional de saúde no serviço público e privado. Atualmente, é analista de pesquisa no OdB (Observatório da Branquitude).

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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