COLUNA

Observatório da Branquitude

Quando a alimentação revela desigualdades raciais

Se estamos diante de uma alimentação que não nutre e ainda adoece, que futuro será garantido para essas pessoas?

12 de Março de 2026

Nasci e cresci dentro de uma estrutura familiar em que as interações começam na cozinha. Nesse espaço de transformação, preparo e encontros, ideias e festejos muitas vezes nascem — e os desafios são compartilhados. É ali que tudo se organiza, quase sempre pelas mãos de mulheres pretas e, muitas vezes, para alimentar crianças e outras mulheres.

Uma verdade simples atravessa gerações: ninguém se organiza com fome.
Esse ensinamento veio da minha bisavó, passou pela minha avó, pela minha mãe, chegou até mim e segue para a próxima geração.

Em muitos momentos, em conversas íntimas, minha avó paterna me disse, com orgulho: “Nunca passei fome”. Ela afirmava, acredito, um dos maiores bens que alguém pode possuir: o direito a ter uma alimentação digna.

Do outro lado da minha história familiar, uma mulher negra, hoje uma senhora com mais de sete décadas de vida, me contou que, na infância, conheceu a fome. Quem não comeu direito, mal conseguiu estudar. Entre essas duas memórias familiares aparecem marcadores importantes da realidade brasileira: vivemos em um país onde comer ainda é motivo de celebração. A fome impede projetos de vida, enquanto comer é princípio básico para realizá-los.

Vivemos em um país onde comer ainda é motivo de celebração. A fome impede projetos de vida, enquanto comer é princípio básico para realizá-los

Essas realidades não começaram na geração de minha avó. Ainda no período colonial, a economia agrícola, especialmente a produção de açúcar, foi estruturada a partir da exploração do trabalho de pessoas africanas e indígenas escravizadas. Esse sistema consolidou hierarquias raciais profundas e padrões de desigualdade que continuam influenciando o acesso a recursos básicos, incluindo a alimentação.

Esse passado não terminou com a abolição formal da escravidão. Ele se atualiza nos padrões contemporâneos de consumo e nas desigualdades em saúde. Hoje, comunidades negras são desproporcionalmente expostas a alimentos ultraprocessados ricos em açúcar, seja pela localização dos mercados, já que, em muitos territórios periféricos, o acesso a alimentos frescos é mais limitado e concentrado em áreas de maior renda; seja pelo preço mais alto desses alimentos ou pelas estratégias agressivas de marketing direcionadas às populações periféricas.

O que antes era exploração pela produção hoje também se manifesta pela exploração via consumo, reproduzindo assimetrias estruturais que expõem desproporcionalmente corpos negros a alimentos que adoecem, ao mesmo tempo em que sustentam um mercado lucrativo. Assim, a desigualdade alimentar contemporânea não pode ser compreendida apenas como resultado de escolhas individuais, mas como consequência de processos históricos e estruturais.

A desigualdade alimentar contemporânea é consequência de processos históricos e estruturais

No contexto atual, comunidades vulnerabilizadas estão mais expostas a condições que dificultam o acesso a alimentos saudáveis, como menor renda média e a localização em territórios com menor oferta de alimentos frescos e maior presença de ultraprocessados. Segundo pesquisa divulgada em reportagem do Jornal da USP (2025), pessoas negras apresentam maior probabilidade de enfrentar insegurança alimentar e de vivenciar situações de fome no Brasil. Esse cenário evidencia como desigualdades sociais e raciais também estruturam o acesso à alimentação.

Isso resulta em padrões alimentares marcados pelo maior consumo de refrigerantes, bebidas açucaradas, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo e embutidos… Produtos geralmente ricos em açúcar, sódio e gorduras.

Podemos usar aqui o conceito de nutricídio, criado pelo médico norte-americano Llaila Afrika em 1990. O termo pode ser compreendido como uma forma de violência estrutural, na qual desigualdades sociais, econômicas, raciais (e de gênero) moldam os padrões alimentares da população.

É um processo que, na prática, contribui para determinar quem pode viver com saúde. Em síntese, o conceito aponta como populações negras e pobres são reiteradamente expostas à fome e à precarização nutricional, sendo privadas do direito de escolher uma alimentação saudável, dinâmica que também se manifesta por meio do racismo alimentar.

Ter uma alimentação saudável não deveria ser motivo de comemoração, mas uma realidade básica

Para além da fome ou da escassez de alimentos, trata-se da produção social de dietas que adoecem.
No Brasil, as mulheres negras aparecem no centro dessa vulnerabilidade alimentar. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2023 apontam que famílias chefiadas por mulheres negras enfrentam, de forma desproporcional, insegurança alimentar e nutricional. Esse quadro evidencia que as desigualdades sociais, raciais e de gênero também se manifestam nos padrões alimentares e no acesso à comida saudável.

A exposição prolongada a dietas baseadas em alimentos ultraprocessados está associada ao aumento de doenças crônicas, como obesidade, diabetes, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares. Esses produtos costumam apresentar baixa qualidade nutricional, alta densidade energética e elevados teores de gordura, açúcar e sódio, além de conterem pouca ou nenhuma quantidade de alimentos in natura. O aumento do consumo desses produtos tem sido relacionado à pior qualidade da dieta e ao maior risco de desenvolvimento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), segundo informações do Ministério da Saúde.

Assim, o debate sobre alimentação e saúde precisa ultrapassar a ideia de responsabilidade individual e considerar os determinantes raciais, sociais, históricos e de gênero que moldam os padrões alimentares.

A má alimentação, além de comprometer o futuro, impede que o presente seja vivido com dignidade

Mas o enfrentamento do nutricídio, felizmente, também já está em curso. Diversos grupos, além de realizarem denúncias, promovem estratégias concretas, como as cozinhas solidárias, que garantem acesso imediato à alimentação para quem precisa. Há também programas sociais, como o Bolsa Família, que atuam nesse sentido.

No entanto, é necessário ir além. É preciso construir estratégias que reconfigurem as bases dessas desigualdades, de modo que a escassez deixe de ser a regra. Ter uma alimentação saudável não deveria ser motivo de comemoração, mas uma realidade básica.

A qualidade da alimentação é outro tema que merece atenção. Embora o Brasil tenha saído do Mapa da Fome, ainda convivemos com um elevado consumo de alimentos ultraprocessados, classificados pela Organização Mundial da Saúde como prejudiciais à saúde.

Uma alimentação saudável é o ponto de partida. Como pensar em futuro, em projetos de vida, transição energética, em finanças ou inovação com um corpo adoecido? A má alimentação, além de comprometer o futuro, impede que o presente seja vivido com dignidade.

Se estamos diante de uma alimentação que não nutre e ainda adoece, que futuro será garantido para essas pessoas?

Monique Borges é mestranda em Engenharia Industrial na UFBA. Pós-graduada e graduada em Engenharia da Produção com MBA em Gestão Financeira e Controladoria. Atua em negócios de impacto social corporativos. No Observatório da Branquitude, é analista financeira.

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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