Trecho de livro

A Greve dos Mendigos

Obra de autora senegalesa pioneira satiriza visão higienista das cidades, ecoando o preconceito de políticos e da elite com a população em situação de rua

Leonardo Neiva 16 de Janeiro de 2026

A história se passa em Dacar, capital do Senegal, na África Ocidental. Mas poderia muito bem acontecer em alguma grande cidade brasileira — numa região como a Cracolândia, em São Paulo, por exemplo. “A Greve dos Mendigos” (Bazar do Tempo, 2025), uma das obras mais conhecidas da romancista senegalesa Aminata Sow Fall, narra o plano de uma autoridade política para “limpar” as vias da cidade da presença de pessoas em situação de rua e de outros grupos marginalizados, vistos com ojeriza e um indesejado sentimento de culpa pela elite local.

Mas Fall, pioneira da literatura africana francófona, não para por aí. Com um grau elevado de sátira e ironia, ela imagina uma população excluída capaz de se organizar para realizar uma greve, em protesto contra as decisões preconceituosas do poder público. Assim, ao desaparecer completamente das ruas, coloca em xeque a imagem da elite urbana que, incapacitada de praticar a caridade pública, perde uma base importante de respeitabilidade social e vida religiosa.

Publicado originalmente em 1979, o romance ganha tradução de Mirella Botaro e permanece assustadoramente atual quase 50 anos depois, época em que gestores públicos continuam lançando mão de estratégias como enviar a população de rua para cidades distantes ou impossibilitar seu acesso a áreas públicas. Tudo para justificar uma visão higienista das cidades, ocultando aquilo que supostamente mancha a imagem de ordem e modernidade do espaço urbano.

A obra também nos lembra que a sobrevivência simbólica e política dos poderosos pode ser uma faca de dois gumes, dependente da existência dos indivíduos que eles procuram apagar a todo custo. Assim, o sarcasmo da autora abre caminho para uma reflexão sobre dignidade, solidariedade e o lugar dos marginalizados na vida social.


Ainda nesta manhã o jornal comentou; esses mendigos, talibés*, leprosos, diminuídos fisicamente, esses trapos constituem a escória humana. É preciso limpar a cidade desses homens — na verdade sombras de homens —, lixo humano, que nos atacam e agridem a qualquer hora e lugar. Nos cruzamentos, chegamos ao ponto de desejar que os sinais nunca fiquem vermelhos! Mas, uma vez ultrapassado o obstáculo do farol, temos que vencer uma nova batalha até chegar ao hospital, desviar de um bloqueio para ir trabalhar no escritório, nos virar nos trinta para sair do banco, fazer mil e uma voltas para conseguir evitá-los nas feiras, enfim, pagar nossos pecados para entrar na casa de Deus. Ah! Esses homens, essas sombras de homens, são teimosos e estão em todo lugar! A cidade está pedindo para ser varrida desses elementos. Kéba Dabo está tão convencido disso que mais uma vez quase não conseguiu engolir a saliva; nesta sexta-feira, ele teve o azar de estar na loja de um vendedor libanês; ora, todo mundo sabe que sexta-feira é dia de trânsito para os mendigos. Um cego machucou um rapaz com a bengala bem na hora que o mendigo tateava para entrar na loja. O rapaz xingou o mendigo; este reagiu muito grosseiramente, para surpresa de todos.

— Mas como você se atreve a proferir insultos tão baixos?

— Ah, só porque somos mendigos vocês acham que somos cachorros! Já estamos de saco cheio!

Ninguém está entendendo mais nada; Kéba Dabo menos ainda, sua missão é justamente fazer uma limpeza humana. Ele é o adjunto de Mour Ndiaye, diretor do Serviço de Saneamento Básico. Mour Ndiaye foi categórico quando, uma semana antes, chamou o adjunto a sua sala; ele tinha na mão direita um texto do ministério que reiterava a ordem de limpar as vias públicas; com a esquerda, fez sinal para que Kéba se sentasse à sua frente.

O jornal comentou; esses mendigos, talibés, leprosos, diminuídos fisicamente, esses trapos constituem a escória humana. É preciso limpar a cidade desses homens

— Kéba, a situação está cada vez mais preocupante. Esses mendigos estão nos… enfim, estão dificultando a nossa vida, entende? Eu não tinha dito para você tomar uma atitude?

— Tinha, sim, senhor diretor. Executei suas ordens. E devo dizer que também não posso explicar… não sei como eles fazem para voltar. Nós organizamos batidas semanais; às vezes os jogamos a dois quilômetros daqui, mas tão logo fazemos isso, no dia seguinte eles estão de volta a seus pontos estratégicos. Já está passando dos limites, senhor diretor.

Kéba não disse a Mour Ndiaye o que sentia cada vez que um mendigo lhe estendia a mão; não lhe confessou o nó que lhe sufocava a garganta quando mãos sujas penetravam em seu carro após cometer o deslize de baixar os vidros, nem o remorso que sentia por causa do princípio que havia adotado, o de não dar esmola aos mendigos, não por maldade ou egoísmo, mas porque ele se chocava ao ver seres humanos — por mais pobres que fossem — ferirem a própria dignidade mendigando de forma tão vergonhosa e desabusada. Ele se esquecia da fome e da miséria que levavam alguns deles a pedir esmola, lembrando aos abastados que eles também existiam.

— Kéba, não tem o que entender, temos que dar um jeito de fazer essas pessoas desaparecerem. Pela reputação do nosso serviço. Será preciso nos acusarem de ineficazes, incapazes?

Não lhe confessou o nó que lhe sufocava a garganta quando mãos sujas penetravam em seu carro após cometer o deslize de baixar os vidros

O olho de Kéba encarava o grosso anel de prata com sinais cabalísticos que enfeitava o dedo anelar esquerdo de Mour Ndiaye.

— Você notou — ele prosseguiu — como a presença deles atrapalha o prestígio do nosso país; é uma ferida que temos que esconder, pelo menos na cidade. Este ano, o número de turistas baixou consideravelmente em relação ao ano passado, e é quase certeza que essa gente contribuiu para isso. Não podemos deixar que invadam nosso espaço, ameacem a higiene pública e a economia nacional!

— Está bem, senhor diretor, vamos dar início a um plano de intervenção eficaz. Pode confiar em mim, senhor diretor.

Mour Ndiaye sabia que podia contar com Kéba. Há seis anos ele estava sob seu comando, tempo suficiente para que o diretor pudesse apreciar suas qualidades: consciencioso, honesto, um verdadeiro viciado em trabalho que, em seis anos, nunca faltou sem motivo; nunca pediu um dinheirinho emprestado alegando que, nos tempos de hoje, estava impossível fechar as contas.

Tudo isso fazia com que Mour estimasse muito Kéba; ele era, na verdade, o cérebro do serviço. Mour havia sido nomeado para o cargo por razões estritamente políticas, era uma maneira de os chefes homenagearem seu passado de militante incondicional do Partido. Ele tinha consciência disso, mas se orgulhava de merecer tamanha homenagem; e se amparava totalmente em Kéba, que sabia ser competente — o que lhe importava era que as coisas fossem bem-feitas, para que ele pudesse tirar vantagem delas. Eram os títulos que o interessavam, as homenagens, e, para tanto, ele usava as aptidões de Kéba, homem metódico que sabia aonde queria chegar. Além disso, quem sabia se essa história de mendigos, se bem-sucedida, não se tornaria uma bela oportunidade para uma promoção?

Não podemos deixar que invadam nosso espaço, ameacem a higiene pública e a economia nacional!

*Os talibés são crianças senegalesas que frequentam escolas corânicas na cidade de Dakar. Longe de suas famílias, elas são frequentemente obrigadas a mendigar nas ruas para sobreviver. (n.t.)

Produto

  • A Greve dos Mendigos
  • Aminata Sow Fall (trad. Mirella Botaro)
  • Bazar do Tempo
  • 136 páginas

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