Trecho de livro

Pão dos Anjos

Em sua obra mais pessoal, a cantora e escritora Patti Smith reconta desde a infância até a consagração nos palcos, numa jornada de celebração da arte e da memória

Leonardo Neiva 05 de Março de 2026

Pão dos anjos é uma das formas de se referir ao alimento espiritual da eucaristia, o corpo de Cristo simbolizado pelo pão consumido no sacramento católico. Mas, apesar da criação religiosa, não é ao conceito litúrgico que a cantora, compositora e escritora Patti Smith se refere no título de sua nova autobiografia. Na posição de escritora, o que ela deseja mesmo é aquele “raio repentino de luz que contenha a vibração de um momento específico”, como descreve em certo momento de “Pão dos Anjos” (Companhia das Letras, 2026). Pequenas lembranças que emergem feito descargas elétricas, deixando em seu rastro as reverberações que só o passado pode ter.

Smith cita, por exemplo, o instante em que um interesse amoroso do passado amarrou seu cadarço ou aquele em que uma outra paixão da juventude extraiu um ferrão de vespa de seu pescoço — ações que hoje ganham um significado congelado no tempo. Com tradução de Camila von Holdefer, o novo livro da autora de “Só Garotos” (Companhia das Letras, 2010) e “Linha M” (idem, 2016), aliás, é repleto de cenas como essas. Perto de completar 80 anos, a lendária artista norte-americana lança sua obra mais pessoal, uma viagem que leva o leitor desde sua infância humilde, mas repleta de prazeres sutis, até a consagração artística.

Filha de um operário e uma garçonete, a cantora de “Gloria: In Excelsis Deo” e “Because the Night” relembra os anos iniciais de uma vida familiar amorosa e o encontro com a literatura e a música em artistas como Lewis Carroll, Rimbaud e Bob Dylan. Passando pelo relacionamento tumultuado com o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989), que ela já narrou em “Só Garotos”, pelo punk dos anos 1970 e o encontro com o guitarrista Fred “Sonic” Smith (1948-1994), que se tornaria seu marido e companheiro, a autora faz um verdadeiro inventário de seu passado. No entanto, ao se perder nas memórias, nunca deixa de expor tudo aquilo que move sua veia artística eternamente inquieta, numa celebração da arte como força capaz de transformar a vida.


Nas manhãs de sábado eu posava como modelo na Academia da Filadélfia em troca de aulas de desenho. Havia uma barraca de livros a 99 centavos em frente à estação de ônibus. Como sempre, fui até ela e me senti atraída pelo rosto do jovem poeta na capa de Iluminações. Bastou uma leitura rápida para que ficasse tão enfeitiçada pelas palavras quanto por sua beleza insolente. Sem ter um dólar, e tampouco disposta a gastar, deslizei o livro para o bolso, um crime do qual não me arrependi. Embora fosse uma obra um tanto impenetrável, oferecia uma nova linguagem poética. Procurei algo sobre ele na biblioteca e encontrei as palavras que me atraíram, que despertariam algo dentro de mim,fixas e efêmeras, Uma temporada no inferno, meu furioso guia.

Uma temporada no inferno é tanto uma confissão ignóbil quanto poesia; Rimbaud admite seu poder aparentemente sobrenatural sobre a linguagem enquanto exibe um veemente desprezo por si mesmo. Você sempre será uma hiena, ele escreve, dilacerando-se em dois, enquanto trava uma guerra civil na própria personalidade. Reconheci ali uma dualidade com a qual me identifiquei, o demoníaco lado a lado com o caridoso. E me impressionou o fato de ele ter apenas dezenove anos e seu sofrimento estar selado nas páginas de um livro. Queria acreditar que sua confissão o libertara de seu conflito interior e procurei segui-lo em sua trajetória espiritual devastadora.

Então, no meu aniversário de dezesseis anos, minha mãe me deu um exemplar de A vida fabulosa de Diego Rivera. Nunca tinha lido a biografia de um artista, e o impacto sobre mim também foi profundo, como se tivesse sido atingida por flechas, embora nada venenosas. Acompanhei as aventuras de Rivera pelo mundo e suas muitas fases, o que aprendeu e descartou de Picasso, o envolvimento com as turbulências políticas e a herança e a personalidade de seu país natal. Fiquei intrigada com as imagens das mulheres que influenciaram sua vida, o rosto forte e masculino de Guadalupe Marín e a artista revolucionária Frida Kahlo. O livro era um testemunho do sacrifício, do labor e da integridade visionária do artista, algo que eu ansiava tomar para mim.

Reconheci ali uma dualidade com a qual me identifiquei, o demoníaco lado a lado com o caridoso

Minha mãe não fazia ideia de como eu reagiria a um livro como aquele, nem aos outros presentes maravilhosos que inocentemente me dava. Ela fazia o possível para me manter na rédea curta e, ainda assim, sem querer, me fornecia os manuais de voo. Primeiro Silver Pennies, depois Diego Rivera, e mais tarde Another Side of Bob Dylan. Ela comprou o disco num balaio de promoções na farmácia por menos de um dólar, dizendo que ele parecia alguém de quem eu iria gostar. Aos dezessete anos, a transição de Rimbaud para Bob Dylan foi natural. Aqui estava outro que reinventava a mão sagrada da poesia. Até os rostos, angelicais e desafiadores, pareciam refletir um ao outro. Eu tinha certeza de que “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” bebia de “Depois do dilúvio” em Iluminações, e era capaz de imaginar Rimbaud estirado num campo ouvindo “It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)”. As palavras dos dois pareciam escritas para a tribo das ovelhas desgarradas, outsiders tentando existir no tempo que precisavam enfrentar. Ambos os poetas pareciam presos num presente estático, ao mesmo tempo que percebiam dimensões futuras se desdobrando e entrelaçando.

Nos centros de ensino superior, inclusive na faculdade de formação de professores que frequentei, os alunos se sentavam a longas mesas dissecando Rimbaud ou analisando as faixas de Highway 61 Revisited. Não conseguia me juntar a eles, não me interessavam os métodos de decodificação. Ninguém jamais conseguiria entender por completo o que Rimbaud ou Dylan pretendiam nos interstícios da “Alquimia do verbo” ou de “Desolation Row”. Assim como só João de Patmos, apesar das mil interpretações, poderia conhecer de fato o Apocalipse. Eu tinha objetivos mais verossímeis do que especular sobre o significado desse poema ou daquela canção. Desejava habitar aquela linguagem recém-descoberta, como a certa altura desejei me alimentar da cobra branca para entender a língua dos pássaros ou falar as línguas dos apóstolos aflitos. O Revelador detinha a chave apocalíptica, assim como Rimbaud detinha as chaves do circo selvagem. E se essas mesmas chaves tivessem escorregado misticamente para as calças sagradas de Bob Dylan, e, depois de um tempo, uma delas se soltasse da corrente? Que eu possa encontrá-la no pó, pisoteada por mil cascos, a nova moeda de prata.

Aos dezenove anos, com pouca experiência, no meu terceiro ano de faculdade, descobri que estava grávida

No desmonte da inocência, Peter Pan, Raggedy Ann e o Urso Smokey são deixados num santuário empoeirado. Todas as moedinhas do mundo não podem comprar de volta nossa Terra dos Brinquedos. O limiar é marcado com entalhes que nós mesmos, sem querer, esculpimos. Aos dezenove anos, com pouca experiência, no meu terceiro ano de faculdade, descobri que estava grávida. Ciente da dureza da sociedade e dos inúmeros desafios que me aguardavam, dei os primeiros passos dilacerantes rumo à decisão mais difícil da minha juventude. Em 1966, ainda havia um estigma terrível sobre mães solo, e, sem que minha família soubesse, cada hora do meu dia era dedicada a planejar o bem-estar do bebê que estava por nascer.

Rezei para ter tomado a decisão certa, depois chamei a família para contar sobre a minha situação. Eu sabia que depositavam muita fé em mim, esperavam que eu concluísse a faculdade, conseguisse um emprego e ajudasse a família. Temia frustrar suas expectativas, mas também confiava em sua compreensão e tolerância. É impossível transmitir todas as emoções conflitantes que sobrecarregaram aqueles momentos, que logo se fundiram aos momentos seguintes. Fiquei diante deles, consciente dos sacrifícios que haviam feito, da orientação que me deram e das doenças que me ajudaram a atravessar. Estou grávida, falei. Assumi a responsabilidade e encontrei uma boa família para a criança. Depois disso, se não conseguir trabalho em uma fábrica, vou embora. Fiquei ali, no peso da atmosfera carregada, diante do silêncio perplexo de incredulidade dos meus pais. Meu irmão apagou o cigarro com força. Era isso que eu tinha para dizer, acrescentei, e instintivamente me virei para Todd, que sempre me admirara. Estou grávida, repeti, e agora, o que você pensa de mim? Mas antes que alguém pudesse dizer uma palavra, Todd se adiantou. Para nosso choque coletivo, ele revelou que também lutava havia anos com um grande dilema pessoal. Confessou que se vestia com roupas femininas em segredo, e que todas as peças desaparecidas dos nossos guarda-roupas miseráveis estavam escondidas no armário dele, debaixo de equipamentos de beisebol e gibis. Ele se virou e nos olhou com firmeza, Linda num silêncio compassivo, nossa mãe chorosa, nosso filosófico porém devastado pai, então fixou o olhar em mim. Sou metade mulher, metade homem; sou uma travesti, ele falou. E agora, o que você pensa de mim?

Ele se lançou sobre a própria espada por mim, desviando o peso da minha desonra. Talvez eu também tenha aberto uma porta para ele, mas não compreendi por completo a dor do seu conflito, o quanto havia sofrido e como lidaria com isso no futuro. Não restava nenhuma dúvida de que tinha o meu cavaleiro, não importa a roupa que usasse, sempre ali, abrindo caminho para mim.

Prendi o cabelo num rabo de cavalo frouxo, vesti meu casaco de artista e, de forma um tanto cruel, deixei minha família, minha educação, a criança que pari e os espinheiros da morada de Deus

Deixamos para trás qualquer ideia de mapa, tiramos a bússola do colete e navegamos por um mar desconhecido. Nós nos separamos e partimos para um novo mundo que resiste a ser mapeado. Guardamos nossos próprios talismãs, jurando avançar mesmo com dor, reparando com delicadeza um relógio frágil. Mais uma virada da ampulheta, os grãos se espalhando por caminhos já percorridos. Antecipando-se ao recrutamento, Todd ingressou na Marinha. Perto do Dia da Independência, prendi o cabelo num rabo de cavalo frouxo, vesti meu casaco de artista e, de forma um tanto cruel, deixei minha família, minha educação, a criança que pari e os espinheiros da morada de Deus na beira do Campo dos Thomas para perseguir um voto que havia sussurrado baixinho, com não mais que treze anos, no salão de Picasso.

Produto

  • Pão dos Anjos
  • Patti Smith (trad. Camila von Holdefer)
  • Companhia das Letras
  • 272 páginas

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