Trecho de livro

Um Hino à Vida

Francesa Gisèle Pelicot relembra em autobiografia o impacto dos abusos cometidos pelo ex-marido e outros 50 homens, e a busca por reconstruir sua vida

Leonardo Neiva 27 de Fevereiro de 2026

Em 2024, a francesa Gisèle Pelicot veio a público revelar um dos crimes de abuso e violência sexual mais perturbadores de que se tem notícia. Quatro anos antes, ela havia descoberto que, ao longo de uma década, o então marido Dominique Pelicot a drogara com frequência, permitindo que ele e outros homens a estuprassem. No total, foram 51 acusados e condenados por violentar Gisèle enquanto ela dormia — incluindo o próprio marido, que pegou a pena máxima de 20 anos de prisão por criar e perpetuar essa violências. Agora, ela conta na aguardada autobiografia “Um Hino à Vida” (Companhia das Letras, 2026) sua dura jornada pessoal, que inspirou outras mulheres vítimas de abuso a recuperarem suas vozes.

O subtítulo, “a vergonha precisa mudar de lado”, reflete o debate sobre culpa, vergonha e justiça que tomou o mundo depois que Pelicot veio a público. E é de muitos desses sentimentos que ela trata no livro, assim como do difícil processo judicial e da luta para reconstruir sua vida. A obra, com tradução de Julia da Rosa Simões, nos lembra que o desafio de descobrir que um crime tão horrendo foi cometido por alguém tão próximo não tem a ver só com reconhecer a gravidade do que aconteceu. Para lidar com o tamanho da violência que seu marido cometeu tantas e tantas vezes, foi preciso colocar em outra perspectiva muito mais sombria a realidade de sua família.

Por isso, um dos primeiros sentimentos da autora depois de receber a notícia foi de dor ao entender que seus filhos passaram a considerar o pai um verdadeiro monstro. “Eu compreendia o choque, a dor, as terríveis dúvidas que os assaltavam, compreendia que a estrutura da família havia sido abalada, mas eu não queria que fosse destruída. Meus filhos tinham recebido carinho e amor”, escreve no trecho que Gama publica abaixo. Pelicot lembra também do temor de que parte de sua vida seria apagada caso assumisse para si o nível de brutalidade do que o ex-marido fez e como isso ressignificava o longo relacionamento entre os dois. “Uma batalha começava a se travar dentro de mim. Entre a luz e a escuridão.”


Pierre nos esperava na Gare de Lyon. No carro, Caroline sentou na frente com o marido, eu fiquei atrás com meu neto Maxime. “Você pode terminar a lição de casa com a vovó”, Pierre disse, olhando pelo retrovisor. Era seu modo de conjurar o mal, de voltar à normalidade. O que resta a uma mulher da minha idade que já não tem marido, apenas os filhos e netos? Mas eu não conseguia. Não conseguia ser apenas a vovó. Eu tinha sido, e sempre seria, mas não conseguia encontrar consolo na rotina da família. Percebi isso assim que entramos na casa deles. Eu não me sentia à vontade. Quase não falava.

O jantar foi marcado por tudo o que havia acontecido, não poderia ser diferente. Como não ficar remoendo? A conversa girava em torno dos elementos fornecidos pelo inspetor, mas havia muito mais pairando sobre nós — a avalanche de tudo o que o policial ainda não mostrara, as fotos e os vídeos que mencionara para mim, e certamente também para David, Caroline e Florian. Eu não tinha a menor intenção de ver mais nada, já sabia o suficiente. Para os filhos, Dominique já não passava de um monstro. Era doloroso demais ouvir o que diziam. Eu compreendia o choque, a dor, as terríveis dúvidas que os assaltavam, compreendia que a estrutura da família havia sido abalada, mas eu não queria que fosse destruída. Meus filhos tinham recebido carinho e amor.

No fundo, eu parecia meu cachorro, Lancôme. Ele estava perdido. Não entendia o que estava acontecendo. Caroline implicou com ele, não suportava tê-lo em casa. “Ele me lembra demais o outro!”, me disse. O pai já não tinha nome. “Não quero esse cachorro na minha casa!”, ela bateu o pé. Mas ele era a minha tábua de salvação, o único remanescente daqueles últimos anos. Levei-o para dar uma volta no jardim, depois voltamos para o quarto de hóspedes que eu ocupava na casa de minha filha.

Para os filhos, Dominique já não passava de um monstro

Eu precisava ficar sozinha. Fechar a porta. Assim respirava melhor. Avançava no meu ritmo. Reencontrava minhas próprias palavras, o fio da minha história, um relato antigo, firmemente ancorado em mim, apesar de atacado por todos os lados — pela polícia e por meus filhos —, mas impossível de ser apagado como se nada tivesse acontecido. Os últimos cinquenta anos não tinham sido apenas uma mentira. Nosso encontro na cozinha de Andrée, a timidez de Dominique, nossa primeira noite naquela casa sem amor e nossos acessos de riso diante das adversidades não haviam sido mera ilusão. Tampouco a delicadeza de Dominique. Quando éramos jovens, passávamos horas conversando. Ele não tentava se impor. Com o passar dos anos, foi se tornando cada vez mais assertivo e, é verdade, começou a levantar a voz quando era contrariado, não gostava que discordassem dele. Mas isso não me intimidava, eu sabia enfrentá-lo, e nossos filhos também, à medida que cresciam. Ele nunca tinha levantado a mão para eles, e só foi violento comigo uma vez, quando pensou que eu fosse deixá-lo. Eu provavelmente não soube interpretar as mudanças de sua personalidade e seus surtos de autoridade, porque eles não o impediam de rir conosco e de cantar no carro, eles não eram ordens. Eu jamais teria ficado cinquenta anos com um tirano. Os últimos meses, porém, tinham sido difíceis. Ele levantava a voz de repente. “Você é igual ao seu pai”, eu dizia. “E você é igual ao seu, o submisso Guillou”, ele me respondeu um dia, sabendo o quanto me machucava. Será que sentia o cerco se fechar?

Eu precisava reexaminar minha vida, em busca dos momentos e dos sinais que não soubera interpretar. Por que minhas dores, minhas falhas de memória e meus problemas de saúde não o detiveram? Por que ele havia rido quando lhe telefonei tão aflita, com a sensação de estar perdendo um líquido equivalente ao estouro de uma bolsa amniótica? Problemas ginecológicos começavam a se somar a meus apagões. Ele riu. “Mas o que você anda fazendo?” Muito suspeito, esse corpo feminino que vazava e já não tinha mais idade para isso. Suspeita, portanto, essa mulher. Devo ter rido com ele. Ri com meu algoz. Mais tarde, ele diria à polícia e aos juízes que não me machucava, porque eu dormia. Mas quando eu telefonava, quando dizia que estava exausta, que um líquido estranho estava saindo de mim, eu sofria. Quando eu me beliscava com força no dorso da mão, para não ser engolida por meus apagões, para verificar meus sentidos, para me tranquilizar, para dizer a mim mesma “Sim, você ainda está aqui, você está viva”, eu tinha medo. E ele sabia. “Estou condenada, Mino”, eu dizia, convencida de que morreria como minha mãe. “Imagina, você não tem nada”, ele me tranquilizava. Passei dez anos buscando um diagnóstico. Coletas. Ultrassonografias. Supositórios vaginais. Exames neurológicos. Dez anos consultando médicos que me olhavam como quem diz que, na minha idade, uma mulher não tem muito o que esperar, era o caso de relaxar e deixar o tempo seguir seu trabalho de destruição. Nenhuma pergunta interessada, jamais. Nenhum diagnóstico. E Dominique ao meu lado, sabendo de tudo.

Ele diria à polícia e aos juízes que não me machucava, porque eu dormia. Mas quando dizia que estava exausta, que um líquido estranho estava saindo de mim, eu sofria

Na verdade, meus problemas de saúde começaram quando nos mudamos para Mazan. Ou seja, quando parei de trabalhar e passamos a ficar o dia inteiro juntos. Mas como eu poderia ter desconfiado de alguma coisa? Às vésperas da aposentadoria, desenhamos um círculo em um mapa, entre Valence e Marselha. Iríamos para o sul, para o sol. Começamos a trabalhar tão cedo, nós dois, que ainda tínhamos bastante tempo pela frente. Ele pensou em Ariège, mas eu não quis, ficava longe de tudo. Queria uma cidade grande por perto, um trem ultrarrápido para visitar meus filhos na região parisiense, e uma piscina para que passassem as férias conosco. Queria manter o vínculo com eles. Dominique já pensava em me isolar? O esplendor das paisagens do Vaucluse, junto ao monte Ventoux, nos fez chegar a um acordo. Nos mudamos em 1º de março de 2013. Tínhamos sessenta anos. Ele já havia planejado tudo?

Sim, a investigação revelaria que sim.

Naquela primeira noite em Paris, porém, e nas que se seguiram, eu ainda não conseguia desatar todo aquele nó. Minha cabeça era um imenso caos, uma verdadeira cacofonia que, estranhamente, me arrastava de volta aos primórdios, como se uma onda me devolvesse com força à praia. Eu precisava proteger aquele começo, separar nosso passado do presente, preservar a todo custo a centelha do nosso primeiro encontro. Eu não podia ter me enganado, aquele homem iria me amar, pensei isso com tanta força que ouvi, sim, essa promessa, ainda sinto a mesma sensação que tomou conta de mim quando o conheci. Hoje ela arde, machuca, mas ninguém vai tirá-la de mim. Ele era a possibilidade de afeto e confiança que me faltava. Ele me olhava como ninguém, com intensidade e timidez. Eu não era mais a menina feia e gorda que minha madrasta desprezava. Eu não me perderia mais nos olhos tristes de meu pai. De repente, parei de ter medo do olhar alheio. A felicidade finalmente me encontrava, nos encontrava. Logo que nos casamos em Azay‑le‑Ferron, Dominique se juntou a mim na região parisiense.

Eu precisava proteger aquele começo, separar nosso passado do presente, preservar a todo custo a centelha do nosso primeiro encontro

Meu pai arranjou um trabalho de eletricista para Dominique. Alugamos um apartamento na Résidence des Ombrages, em Brunoy, no Essonne. Dois cômodos no térreo de um prédio novo de três andares no meio de um parque. Escolhi viver cercada pela natureza por causa de Dominique, que havia crescido entre campos e árvores. No início, não tínhamos nada, apenas um colchão que, na falta de um estrado, era isolado do frio com papelão. Um fogareiro a gás esquentava a comida. Dominique improvisou um armário. Nosso despojamento era a marca da nossa liberdade. O preço de nossa fuga. Ríamos o tempo todo. Eu usava botas brancas de cano alto com uma saia curta, era a moda. Ouvia o clamor da época, a batalha pela pílula, pelo aborto. Entendia tudo, mas aquela causa não era a minha. Minha conquista pessoal era construir a vida em família de que tinha sido privada, de que todos os que amei também haviam sido.

David nasceu um ano depois. Dei a ele o nome do pintor que havia devolvido a mãe ao imperador. Parei de trabalhar, não queria deixar meu filho com ninguém. Dominique se tornou gestor de obras na Trindel, que fazia instalações elétricas e obras públicas. Um auxílio-moradia nos ajudava a fechar as contas no fim do mês. Éramos felizes. Os problemas haviam ficado para trás. Quando ele era chamado para um serviço noturno, eu deixava a luz acesa no quarto e ligava o rádio. Ouvia Gonzague Saint Bris na Europe 1, gostava especialmente da Gnossienne n. 1, de Erik Satie, que abria o programa Ligne Ouverte, à meia-noite. Gonzague Saint Bris atendia telefonemas de desconhecidos que compartilhavam suas angústias com ele. Eu poderia ter sido uma dessas pessoas. Esperava Dominique voltar, tinha medo de adormecer.

Tudo vinha à tona naquela noite, na casa de Caroline. Já não sei em que ordem as lembranças chegavam a mim, provavelmente todas ao mesmo tempo. Distantes e próximas. Como ele pôde estragar tudo, me expor, me sacrificar? Como pôde me transformar naquela mulher inerte, quase morta? Sozinha na escuridão, eu ora me dirigia a ele, ora a meus filhos. Eles, que às vezes nos diziam “A infância de vocês é puro Zola”, não podiam entender o laço que se formara entre nós, todas as batalhas que havíamos lutado — que correnteza poderia nos arrastar?

Como ele pôde estragar tudo, me expor, me sacrificar? Como pôde me transformar naquela mulher inerte, quase morta?

Uma batalha começava a se travar dentro de mim. Entre a luz e a escuridão. Da centelha do nosso encontro, eu havia feito uma chama. Deveria soprá-la, apagá-la de vez, como queriam David e Caroline? Para isso, teria que abrir os olhos, me ver desesperadamente só no meio da noite, em um quarto que não era meu, com a respiração ofegante de meu buldogue como única companhia. Eu não conseguia fazer isso.

A vida não se repete. Se eu apagasse tudo, estaria morta, e há muito tempo.

Produto

  • Um Hino à Vida
  • Gisèle Pelicot (trad. Julia da Rosa Simões)
  • Companhia das Letras
  • 208 páginas

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