Trecho de livro

Matrescência

Nesta investigação da gravidez e maternidade, a britânica Lucy Jones parte da experiência pessoal para entender as transformações vividas pelas mulheres ao se tornarem mães

Leonardo Neiva 20 de Fevereiro de 2026

Engravidar, dar à luz e se tornar mãe é um processo acompanhado de uma série de metamorfoses físicas, mentais e sociais para todas as mulheres. E viver essa experiência foi para a jornalista e escritora inglesa Lucy Jones ponto de partida para investigar a fundo o significado de todas as transformações que giram em torno da maternidade. Ao desenvolver esse olhar muito mais voltado para a mãe do que para o bebê é que ela atualiza em seu novo livro o conceito de “Matrescência” (Fósforo, 2026), criado nos anos 1970 pela antropóloga norte-americana Dana Raphael (1926-2016), numa comparação direta com o período da infância e adolescência.

Com base em pesquisas de campos que vão da neurociência e da biologia evolutiva à psicanálise, filosofia e ecologia, a autora propõe que as mudanças que acontecem no corpo e no cérebro das mães são muito mais profundas e duradouras do que imaginamos. A obra, com tradução de Vanessa Barbara, também mostra que essa falta de conhecimento se deve em grande parte a uma cultura social e científica predominantemente masculina. Nela, os impactos sobre as mulheres foram ao longo do tempo diminuídos e ignorados, e as pesquisas frequentemente voltadas apenas às crianças, tornando invisíveis àquelas que as geraram.

A partir de fatos ainda pouco explorados, como o aumento dos episódios depressivos no período, Jones transporta a ideia de matrescência para a realidade atual, em que o capitalismo ajuda ainda mais a perpetuar o isolamento materno e as expectativas cada vez mais irreais em torno das mães. Intercalado com descrições do processo de matrescência de outros seres vivos, que jogam luz sobre invenções bastantes humanas como a do instinto materno, o texto da jornalista deixa cristalina a necessidade de um trabalho de cuidado muito mais extenso sobre as mães, algo que, como sociedade, ainda não parecemos dispostos a reconhecer.


Era desconcertante dividir meu corpo com outra pessoa, um ser humano com as próprias motivações, o próprio futuro, a própria corporeidade vulnerável. Fui confrontada, pela primeira vez, com minha falta fundamental de controle.

Não aprendi nada sobre esses aspectos emocionais ou existenciais da gravidez nos livros ou nos aplicativos semana a semana, que em sua maioria abordavam o tamanho do bebê em comparação a frutas. Kiwi, banana, abacaxi. Mesmo que a maioria das gestações envolva algum nível de estresse e perturbação emocional, como ansiedade, depressão, preocupação, insônia e dificuldade de concentração, a informação contida nas newsletters sobre gravidez versava sobre roupinhas de bebê e a quantidade de café que era permitido tomar. A desestabilização psicológica de ser habitada por outra pessoa não era nem sequer abordada.

Dominada pela estranheza de tudo, comecei a me silenciar. Quase ninguém do meu círculo tinha filhos. Recebi amigos em casa para um bolo de aniversário e uma xícara de chá, e mal falei uma palavra. No chá de bebê, senti como se estivesse atrás de uma parede de vidro. Não conseguia comunicar o que estava acontecendo comigo. “Ela sente-se ampla como o mundo; mas essa própria riqueza a aniquila: tem a impressão de não ser mais nada”, escreveu Simone de Beauvoir sobre a gravidez, descrevendo a experiência com uma precisão assombrosa.

Isso me lembrava o início da adolescência. Aquela velha sensação de constrangimento juvenil, de não saber o que viria a seguir nem como agir. De me encontrar em situações sociais aos catorze anos, tímida, sem saber o que dizer ou como me portar, completamente exposta ao julgamento, à crítica e à influência dos outros. De me sentir perturbada com as mudanças no meu corpo, os seios crescendo, o sangue. Vermelho-vivo em um papel higiênico branco. A consciência crescente de que isso significava que eu estava me tornando um outro ser. Meus pais ficaram emocionados naquele dia. Eu não entendi na época, mas agora entendo. O fim da infância.

Na adolescência, porém, havia rituais, ritos de passagem, canções, filmes, modas e gírias. Nós nos uníamos e reforçávamos quem estávamos nos tornando através da música, do álcool, dos telefonemas, das roupas, dos shows e da poesia. Assistíamos a filmes sobre amadurecimento, líamos livros sobre amadurecimento, ouvíamos músicas sobre amadurecimento. Não era fácil, mas era esperado, e estávamos juntos. Na gravidez, na matrescência, eu me sentia sozinha.

Tentei encontrar alguma coisa que explicasse a ruptura existencial e a melancolia que senti na gravidez. Mas essas perspectivas demoraram a aparecer

Tentei encontrar alguma coisa que explicasse a ruptura existencial e a melancolia que senti na gravidez. Mas essas perspectivas demoraram a aparecer.

Não era só que elas estavam ausentes dos livros contemporâneos sobre gestação e dos aplicativos de saúde: os campos da psiquiatria e psicanálise ignoraram quase por completo como a gravidez afeta a mente, o corpo e o desenvolvimento das mulheres. A repressão e a negação do corpo e da experiência gestacional e materna estão profundamente arraigadas. Rosemary Balsam, do Instituto de Psicanálise de Western New England, chama essa ausência de “o corpo grávido desaparecido”. De fato, eu descobriria mais tarde que, nos 23 volumes das obras de Freud, há apenas cerca de trinta menções à gravidez.

É quase como se o estado liminar da gravidez — o estado de ser dois em um, e não mais um eu distinto — deixasse as pessoas desconfortáveis. Balsam sugere que Freud talvez estivesse se referindo à gravidez e à gestação quando descreveu como o homem “teme o perigo […]. Talvez ele se fundamente no fato de a mulher ser algo diferente do homem, eternamente incompreensível e misteriosa, estranha e, por isso, aparentemente hostil”.

Estranha. Eu me sentia estranha, sobretudo quando ia nadar na piscina pública do bairro. Eu saía do vestiário em meu maiô de gestante, recém-consciente do meu corpo, especialmente na presença de homens, especialmente na reta final da gestação. O olhar masculino era diferente. Os homens desviavam o olhar da minha barriga esférica. Seria porque a gravidez é um sinal de sexo? Seria eu um símbolo de fluidos corporais — de excreções, vazamentos, secreção, das entranhas ocultas e confusas do corpo? Seria porque eu os fazia lembrar de suas próprias mães e de sua dependência infantil? Seria, como Adrienne Rich sugere, simplesmente porque “ele é lembrado, em algum nível para além da repressão, de sua existência como uma mera partícula, um coágulo de carne fraca e cega crescendo dentro do corpo dela?”.

Imagino que poderia ser, como escreve a filósofa francesa Julia Kristeva, que eu estava “nos limites de minha condição de viva”, e que esse estado limiar pode ser aterrorizante ou repugnante, pois nos lembra de nossa realidade corpórea ou, em outras palavras, da morte.

É quase como se o estado liminar da gravidez — o estado de ser dois em um, e não mais um eu distinto — deixasse as pessoas desconfortáveis

Finalmente, alguns anos depois, quando eu estava considerando ter um segundo filho, encontrei o trabalho da psicanalista e psicóloga social Joan Raphael-Leff no livro Gravidez: a história interior, publicado em 1993. Ela descreve a gravidez como um estado de existência entre dois mundos: “Num nível profundo, inconsciente, a mulher grávida paira entre mundos interiores e exteriores, em encruzilhadas do passado, presente e futuro; ela própria e outra”.

Raphael-Leff me ofereceu uma linguagem para descrever o “desequilíbrio emocional” e a reativação de “conflitos aparentemente resolvidos”. Ela desenvolveu a ideia de “placenta emocional”, segundo a qual imagens internas e fatos históricos inconscientes são os nutrientes ou venenos que influenciam a “gestação mental” da gravidez. Ela normalizou as distrações internas que perturbam a “habitual sensação de identidade unificada e indivisibilidade”. Olhando para a ansiedade que senti e para minha necessidade de reafirmação e monitoramento, o conceito de Raphael-Leff de “maldade interior” — o temor da mãe sobre as próprias deficiências morais e se o bebê seria capaz de suportá-las — foi revelador.

Na época, achei o desequilíbrio altamente perturbador, mas agora vejo que era uma parte inevitável e necessária do processo de metamorfose e do surgimento de um novo conceito de si mesma. O mais difícil era a pressão para fingir que a gravidez era um evento menos dramático e drástico do que eu sentia. Diferente do que ocorre em sociedades onde há rituais para marcar a transição entre fases da vida, a mulher grávida, nesse “período intermediário de estranheza”, como Raphael-Leff chama, é levada a se sentir profundamente sozinha.

Quando descobrimos que a bebê era uma menina, minha agitação interna se aprofundou. Eu me sentia ansiosa por trazer uma garota ao mundo e por não saber como a nossa relação se desenvolveria. Ao pensar na filha dentro de mim, vieram à tona sensações, medos e sentimentos há muito esquecidos. Passei a encarar as previsões de crise climática e colapso da biodiversidade com um novo nível de alarme. Em 2047, ela teria a minha idade. Quanto do planeta Terra ainda seria habitável a essa altura?

Era atordoante. A bebê estava ali, bem no centro de tudo. Não havia como escapar. Não percebi até mais tarde que a função essencial do meu corpo grávido — processar e metabolizar os “bons nutrientes e os maus resíduos” para alimentar a bebê — continuaria depois do nascimento, através da digestão e interpretação da experiência psicossocial da bebê no mundo, até que ela fosse capaz de fazer isso sozinha. Como sugere Raphael-Leff, o estado de “continente” da gravidez é contínuo, talvez até infinito.

O mais difícil era a pressão para fingir que a gravidez era um evento menos dramático e drástico do que eu sentia

Produto

  • Matrescência
  • Lucy Jones (trad. Vanessa Barbara)
  • Fósforo
  • 384 páginas

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