Violência contra a mulher: até quando?

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Bloco de notas

Poemas escritos por grandes autoras brasileiras

Do livro “Inesquecíveis”, organizado por Ana Rüsche e Lubi Prates, leia os versos de mulheres que marcaram a poesia brasileira, de Maria Firmina dos Reis a Conceição Evaristo

Poemas escritos por grandes autoras brasileiras

Leonardo Neiva 08 de Março de 2026

Do livro “Inesquecíveis”, organizado por Ana Rüsche e Lubi Prates, leia os versos de mulheres que marcaram a poesia brasileira, de Maria Firmina dos Reis a Conceição Evaristo

  • Soneto

    Amada filha, é já chegado o dia,
    em que a luz da razão, qual tocha acesa,
    vem conduzir a simples natureza,
    é hoje que o teu mundo principia.

    A mão, que te gerou teus passos guia;
    despreza ofertas de uma vá beleza,
    e sacrifica as honras e a riqueza
    às santas leis do filho de Maria.

    Estampa na tua alma a caridade,
    que amar a Deus, amar aos semelhantes,
    são eternos preceitos da verdade.

    Tudo o mais são ideias delirantes;
    procura ser feliz na eternidade,
    que o mundo são brevíssimos instantes.

    Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira (São João del-Rei, MG, 1759–São Gonçalo do Sapucaí, MG, 1819), autora que teve papel relevante na Inconfidência Mineira; versos extraídos do conjunto de poemas “Conselhos a Meus Filhos”, em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Ela!
    (A pedido)

    Ela! Quanto é bela, essa donzela,
    A quem tenho rendido o coração!
    A quem votei minh’alma, a quem meu peito
    Num êxtase de amor vive sujeito…

    Seu nome!… não — meus lábios não dirão!
    Ela! minha estrela, viva e bela,
    Que ameiga meu sofrer, minha aflição;
    Que transmuda meu pranto em mago riso.
    Que da terra me eleva ao paraíso…
    Seu nome!… Oh! meus lábios não dirão!

    Ela! Virgem bela, tão singela
    Como os anjos de Deus. Ela… oh! não,
    Jamais o saberá na terra alguém,
    De meus lábios, o nome que ela tem…
    Que esse nome meus lábios não dirão.

    Maria Firmina dos Reis (São Luís, MA, 1822 –Guimarães, MA, 1917), escritora negra considerada a primeira romancista do Brasil; poema extraído do livro “Cantos à Beira-Mar” (1871), em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Sadness
    “Still visit thus my nights, for you reserved,
    And mount my soaring soul thoughts like yours.”
    — James Thomson

    Meu anjo inspirador não tem nas faces
    As tintas coralíneas da manhã;
    Nem tem nos lábios as canções vivaces
    Da cabocla pagã!

    Não lhe pesa na fronte deslumbrante
    Coroa de esplendor e maravilhas,
    Nem rouba ao nevoeiro flutuante
    As nítidas mantilhas.

    Meu anjo inspirador é frio e triste
    Como o sol que enrubesce o céu polar!
    Trai-lhe o semblante pálido — do antiste
    O acerbo meditar!

    Traz na cabeça estema de saudades,
    Tem no lânguido olhar a morbideza;
    Veste a clâmide eril das tempestades,
    E chama-se — Tristeza!…

    Narcisa Amália de Oliveira Campos (São João da Barra, RJ, 1852 –Rio de Janeiro, RJ, 1924), primeira mulher a se profissionalizar jornalista no Brasil, abolicionista e poeta de grande sucesso na época; poema extraído do livro “Nebulosas” (1872), em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Ser mulher…

    Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
    para os gozos da vida. a liberdade e o amor;
    tentar da glória a etérea e altívola escalada,
    na eterna aspiração de um sonho superior…

    Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
    para poder, com ela, o infinito transpor;
    sentir a vida triste, insípida, isolada,
    buscar um companheiro e encontrar um Senhor…

    Ser mulher, calcular todo o infinito curto
    para a larga expansão do desejado surto,
    no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

    Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
    ficar na vida qual uma águia inerte, presa
    nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

    Gilka da Costa de Melo Machado (Rio de Janeiro, RJ, 1893–1980), autora de oito livros de poemas, foi dona de pensão e cozinheira; poema extraído do livro “Cristais Partidos” (1915), em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Modinha para violão

    Há quinze anos passado
    Maria a que estende roupa na janela
    Tinha um marido que ficou soldado

    Gotas de sombra amarela
    Dançam no olhar de distância
    Aquele homem sim gostava dela

    Trazia todo o ordenado
    Ela desrecalcava privações da infância
    Ele ficava achado

    Seu coração se aperta em ânsia
    Perdido o bem-estar de um destino cortado

    Maria cujo olhar é feito de distância
    Tinha um marido que ficou soldado

    Julieta Barbara Guerrini (Piracicaba, SP, 1908–São Paulo, SP, 2005), participou de campanhas de alfabetização e formou-se em Ciências e Letras na USP, chegou a ser pintora e publicar em jornais; poema extraído do livro “Dia Garimpo” (1939), em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Canal

    Nada mais sou que um canal
    Seria verde se fosse o caso
    Mas estão mortas todas as esperanças
    Sou um canal
    Sabem vocês o que é ser um canal?
    Apenas um canal?

    Evidentemente um canal tem as suas nervuras
    As suas nebulosidades
    As suas algas
    Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
    Mas por favor
    Não pensem que estou pretendendo falar
    Em bandeiras
    Isso não

    Gosto de bandeiras alastradas ao vento
    Bandeiras de navio
    As ruas são as mesmas.
    O asfalto com os mesmos buracos,
    Os inferninhos acesos,
    O que está acontecendo?
    É verdade que está ventando noroeste,
    Há garotos nos bares
    Há, não sei mais o que há.
    Digamos que seja a lua nova
    Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
    Lembranças dos meus amigos que morreram
    Lembranças de todas as coisas ocorridas
    Há coisas no ar…

    Digamos que seja a lua nova
    Iluminando o canal
    Seria verde se fosse o caso
    Mas estão mortas todas as esperanças
    Sou um canal.

    Patrícia Rehder Galvão, a Pagu (São João da Boa Vista, SP, 1910–Santos, SP, 1962), escritora e jornalista que marcou o modernismo brasileiro, foi também militante comunista presa inúmeras vezes; poema extraído do jornal A Tribuna, em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • O segredo

    Entre pernas guardas:
    casa de água
    e uma rajada de pássaros.

    Olga Savary (Belém, PA, 1933 –Teresópolis, RJ, 2020), poeta, tradutora e antologista, recebeu quase todos os prêmios relevantes de literatura de sua época, foi responsável por reunir poetas em antologias que marcaram época; poema extraído do livro póstumo “Coração Subterrâneo: Poemas escolhidos” (2021), em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Cura

    Quem diz que se recupera tecido todo desfeito
    Em tramas que, já sem jeito, afirma ser aqui o lugar?
    Será preciso cerzideira, sábia e bordadeira
    Difícil de encontrar o ponto final da teia
    A trajetória ao contrário do que foi despedaçado
    Em horas de des-espero
    Horas em que desespero de sorte afinal, tão comum
    Não aconteceu o novo, na verdade, nada de novo
    Não foi o por mim querido
    Triste mulher mortal, que a tudo acha fatal
    Até um fio de esperança antes do juízo final.

    Maria Beatriz Nascimento (Aracaju, SE, 1942 –Rio de Janeiro, RJ, 1995), historiadora intelectual e militante do movimento negro, seus poemas foram reunidos de forma póstuma; poema extraído de “Uma História Feita por Mãos Negras: Beatriz Nascimento” (2021), em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Vozes-mulheres

    A voz de minha bisavó
    ecoou criança
    nos porões do navio.
    Ecoou lamentos
    de uma infância perdida.

    A voz de minha avó
    ecoou obediência
    aos brancos-donos de tudo.

    A voz de minha mãe
    ecoou baixinho revolta
    no fundo das cozinhas alheias
    debaixo das trouxas
    roupagens sujas dos brancos
    pelo caminho empoeirado
    rumo à favela.

    A minha voz ainda
    ecoa versos perplexos
    com rimas de sangue
    e
    fome.

    A voz de minha filha
    recolhe todas as nossas vozes
    recolhe em si
    as vozes mudas caladas
    engasgadas nas gargantas.

    A voz de minha filha
    recolhe em si
    a fala e o ato.
    O ontem — o hoje — o agora.
    Na voz de minha filha
    se fará ouvir a ressonância
    o eco da vida-liberdade.

    Maria da Conceição Evaristo de Brito (Belo Horizonte, MG, 1946), escritora e intelectual brasileira, autora de livros como “Ponciá Vicêncio” (2003) e “Becos da Memória” (2006), publica poesia desde 1990; poema extraído dos Cadernos Negros, em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

  • Insone ouço vozes

    Calor afogueia
    os pensamentos de espera. Quando
    embalo na cama da noite
    insônia de séculos.

    Ouço ruídos de tambores
    sobressaltos alimentam
    meus pés

    Nos pensamentos de esperança
    embalo na cama da noite
    as dores de meu tempo

    Ouço vozes
    emanadas dos exércitos humanos
    contidos.

    Na cama da noite
    movimento minhas mãos
    embalo medos, espantando-me
    diante do conhecido

    Nos pensamentos de espera
    solto minha rouca voz:
    bala de chumbo

    Nos pensamentos de esperanças
    espreito de olhos baços
    arregalados na insônia de aguardar
    a hora de entrar em ação.

    Miriam Aparecida Alves (São Paulo, SP, 6 de novembro de 1952), escritora que integrou o Quilombhoje, coletivo responsável pelos Cadernos Negros, autora dos livros de poesia “Momentos de Busca” (1983) e “Estrelas no Dedo” (1985), e dos romances “Bará na Trilha do Vento” (2015) e “Maréia” (2019); poema extraído de “Estrelas no Dedo”, em “Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras” (Bazar do Tempo, 2026)

Produto

  • Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras
  • org. Ana Rüsche e Lubi Prates
  • Bazar do Tempo
  • 320 páginas

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