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Foto: Bruna Vernes / Fundo: Maxwell Alexandre, 2026. Cortesia de Almeida e Dale. Foto de Julia Thompson

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Depoimento

Maxwell Alexandre: "Ver uma criança se desenvolvendo é ver a perfeição da máquina de Deus"

Em depoimento a Gama, artista visual reflete sobre as transformações pessoais e em seu processo criativo provocadas pelo nascimento da filha Goia

Amauri Terto 09 de Agosto de 2026

Maxwell Alexandre: “Ver uma criança se desenvolvendo é ver a perfeição da máquina de Deus”

Amauri Terto 09 de Agosto de 2026
Foto: Bruna Vernes / Fundo: Maxwell Alexandre, 2026. Cortesia de Almeida e Dale. Foto de Julia Thompson

Em depoimento a Gama, artista visual reflete sobre as transformações pessoais e em seu processo criativo provocadas pelo nascimento da filha Goia

Criado em um lar evangélico na favela da Rocinha, Maxwell Alexandre se tornou um artista visual de projeção internacional, com obras que confrontam estruturas de poder, classe, raça e privilégio. Hoje seus trabalhos, marcados pelo rigor estético, integram os acervos permanentes de instituições como o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, o Pérez Art Museum, em Miami, o MASP e a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Formado em design pela PUC-Rio, com passagem pelo Exército e 12 anos de carreira como patinador profissional de street, ele aborda em seu trabalho desde a identidade e a experiências de corpos negros periféricos até investigações sobre a branquitude em espaços de elite. O seu modo particular de observar o mundo, segundo ele, começou a se formar ainda na infância, marcada pela ausência do pai e por uma constante sensação de não pertencimento.

Maxwell Alexandre, 2026. Cortesia de Almeida e Dale. Foto de Julia Thompson

Aos 35 anos, Maxwell Alexandre vive uma nova fase, na vida e em seus processos artístcos, com a chegada da filha, Goia, de dois anos, fruto da relação com a educadora infantil Raissa. A paternidade, que ele chegou a evitar conscientemente, hoje traz elementos surpreendentes como seu constante estado de atenção. De imediato, a rotina de um estúdio com mais de 20 pessoas deu espaço a processos menores e, principalmente, à presença na vida da filha. Com ela, constrói uma relação que não teve com o próprio pai.

No apartamento onde vive no Flamengo, bem diferente da casa na Travessa Mesopotâmia, na Rocinha, Maxwell observa o crescimento da filha com a mesma atenção que dedica ao trabalho. É, segundo ele, ver “a perfeição da máquina de Deus”. A seguir, em depoimento a Gama, o artista reflete sobre solidão, trabalho, família e o que significa criar, uma obra e uma filha, a partir de suas próprias contradições.

A gente vai aprendendo a ser pai

“Meu pai não está mais entre nós. A nossa relação foi mais de ausência; ele saiu de casa muito cedo e foi morar em São Paulo. Eu o encontrava uma vez por ano, quando ia a São Paulo no Natal ou no Ano Novo.

Tive muitos traumas familiares, fui criado dentro de uma família muito desestruturada. Teve a ausência paterna, mas, sobretudo, existia algum diferencial na minha personalidade que fazia com que eu não me sentisse muito parte da minha família, pela maneira como ela se comportava. Retroativamente, entendo que isso tem a ver com o que hoje identifico como a posição de antropólogo e, claro, de artista: alguém que está observando o mundo de fora. Sou formado em design. A base da minha faculdade era a antropologia. Eu já exercitava isso muito novo, mesmo sem saber.

Fui criado em berço evangélico e frequentava a igreja. O evangelho trabalha muito a partir do medo e do temor a Deus. Você é criado sob dogmas que não pode questionar. Só que, desde cedo, eu já confrontava o pastor, questionava as passagens bíblicas e conversava com os meus primos presbíteros. Eu consigo mapear muita coisa da minha formação — vou me ‘terapeutizando’ assim. A única coisa que não consigo mapear de onde vem é a minha atenção, porque minha família era desfavorecida em termos de educação formal. Mas, desde pequeno, reconheço em mim esse traço de uma atenção diferente.

Sempre me senti muito sozinho em todos os ambientes por onde passei, na escola, no período do Exército. É claro que existe uma coisa vaidosa de se diferenciar, uma coisa competitiva e meio neoliberal de buscar um diferencial, e eu abraço isso, mas existe também essa autossuficiência de não ter medo de acabar sozinho. Aprendi a viver muito bem e a amar esse lugar solitário. A solidão é uma das coisas mais prazerosas para mim. A minha presença me basta. Isso é fundamental para você conquistar a liberdade de tomar decisões sem a necessidade de agradar aos outros e sem o medo de envelhecer só. Essa pressão social de arrumar alguém para não terminar a vida sozinho nunca me apavorou.

Paralelamente, desenvolvi um condicionamento obsessivo pelo trabalho. Conquistei minha independência financeira em 2017, tudo aconteceu muito rápido na minha carreira de artista. Se eu não tivesse uma família hoje, não haveria interrupções: seria trabalho 24 horas por dia. Sou muito viciado. Não consigo não trabalhar. Por gostar de estar sozinho e ter um tempo de trabalho infinito, por volta de 2020, quando tinha 30 anos, pensei pela primeira vez que dava para não ser pai. Foi um pensamento divisor de águas e libertador. Eu me imaginava tranquilamente em uma vida sem filhos.

Maxwell Alexandre, 2026. Cortesia de Almeida e Dale. Foto de Julia Thompson

Minha relação com a Raissa, minha namorada, refletia esse estilo de vida. Nós nos conhecemos há cerca de dez anos e estamos juntos há sete. Ela foi minha primeira namorada. Quando começamos a namorar, em 2019, nossa rotina se resumia aos fins de semana. Ela ia para a minha casa na sexta-feira à noite e saía na segunda-feira de manhã. Para mim, era fundamental passar a semana inteira sozinho, trabalhando.

Quando a Raissa engravidou da Goia, não foi algo planejado. A gente tinha vontade de ter filho, mas meu plano, na minha cabeça, era ter aos 36 anos — idade que completo agora em outubro. Quando a gravidez aconteceu, a Raissa disse que queria ter. Meu aconselhamento foi que, por mim, eu não teria naquele momento, mas nossa relação estava boa e tínhamos condições. Ela decidiu ter, abracei a ideia e ela se mudou lá para casa.

Nessa época, eu já tinha saído da Rocinha e morava em um apartamento de luxo no Flamengo, muito grande, de uns 300 m². Eu amava viver sozinho nesse apartamento. Viver naquele silêncio era muito bom. A mudança da Raissa para lá foi um impacto. Pensei: ‘Agora realmente casei, vamos morar juntos e a criança vai chegar.’ Corta para eu estar morando junto, agora com uma criança dentro de casa, e está sendo muito gostoso. A vida está muito boa com a Goia e com a Raissa.

A necessidade de estar presente para ela me forçou a repensar tudo

A chegada da Goia alterou diretamente a minha prática do meu trabalho. Foi a necessidade de estar presente para ela que me forçou a repensar tudo. No estúdio, eu comandava uma operação com mais de 20 pessoas, e era estressante sustentar uma estrutura tão grande. Percebi que estava cansado tanto física quanto mentalmente. Sinto que, em algum momento, eu ia colapsar. São dez anos de carreira, e eu não tirei férias até hoje. Foi nesse contexto que surgiu o que chamei de “Pintores de Berço”. Decidi que ia continuar pintando, mas precisava fazer isso de casa, para estar disponível para ela a qualquer momento. Então, fiz uma seleção de materiais que não sujam tanto e não tenham tanto cheiro, como o óleo. Isso me permitiu diminuir a escala e a velocidade do meu trabalho, voltando àquela imagem um pouco mais romântica do artista ermitão no seu ateliê, fazendo as próprias paradas sozinho.

Foto de Bruna Vernes

Observar uma criança se desenvolvendo é ver a perfeição da máquina de Deus. Você percebe coisas que já vêm na pessoa. Desde que saiu da barriga, ela demonstrou uma personalidade meio marrenta, meio esnobe. Com uma hora de vida, ela já olhava com esse ar, e continua assim. Uma coisa que eu observava de longe é que todo mundo fala: ‘Ah, meu filho é esperto demais’. Só que, com a Goia, é realmente isso, porque vejo pelas crianças da mesma idade ou mais velhas que ela. Ela começou a andar com nove meses, que é muito cedo, e logo começou a falar. Faz natação desde os seis meses e vem se desenvolvendo muito rápido.

A máquina de Deus, o ser humano, é muito perfeita. Os avanços humanos parecem individuais, mas, no final, é tudo uma coisa só. Por exemplo, na década de 80, 90, você tinha um único skatista que fazia o [manobra] 900, que era o Tony Hawk. Hoje não é tão difícil. Parece que, a partir do momento em que a espécie humana atinge uma conquista, aquilo se dissipa para todo mundo. É nesse sentido que você consegue ver a perfeição da máquina: parece que a próxima criança que nasce já tem um pouco mais de facilidade para fazer o 900. Ela não vai passar pelo mesmo esforço que o Tony Hawk passou, porque ele já conquistou isso para a humanidade.

Isso é uma parada que eu sinto muito forte vendo a Goia. É muito rápido o aprendizado por osmose, é muito rápido o desenvolvimento. Isso é muito interessante de observar. É impressionante como a máquina é perfeita.

A realidade em que ela cresce é o oposto da minha infância: ela frequenta uma escola de elite e tem acesso a outra condição de vida

A Goia tem a pele clara, mas tem o fenótipo negro. A gente vai entender qual é a exposição dela em termos sociais com o tempo. A realidade em que ela cresce é o oposto da minha infância: ela frequenta uma escola de elite e tem acesso a outra condição de vida. Na Rocinha, eu morava na Travessa Mesopotâmia. É uma travessa que tem tráfico, jogo do bicho, polícia, prostituição, briga 24 horas, tá ligado? Os meus últimos anos de Rocinha foram nesse fervo aí. Só percebi o barulho de lá depois que saí. No Flamengo, tenho o silêncio, a portaria e a vista do Morro da Viúva, uma montanha muito foda. A vontade de voltar àquele passado é realmente nenhuma. Tu realmente entende uma outra vida que é muito boa.

Fotos: Bruna Vernes

Falei da questão de ser solitário, mas sinto que, com a Goia, está nascendo uma nova relação. Porque é uma pessoa que demanda a tua confiança, teu cuidado. Você dorme todo dia e acorda todo dia com essa pessoa. Vai criando uma relação muito visceral. Escuta ela falando “papai, papai”. Agora ela está numa fase um pouco mais apegada comigo. Antes era mais esnobe, mas agora ela acorda, vem e dá um beijo, dá bom dia, um abraço, quer ficar junto, traz livros para ler e, quando saio para trabalhar, ela chora.

Eu chego ao estúdio às 10h e saio às 23h. Como ela vai para a escola às 10h, acordo e fico cerca de 20 minutos com ela. Interromper esse momento para ir trabalhar tem sido dolorido, ela diz que eu trabalho demais. Quando não estou em ritmo de grandes entregas, nossa rotina muda: às 20h30, nós três já estamos na cama, prontos para dormir. Nesse cenário, também trabalho mais em casa, levo e busco ela de bike na escola.

A paternidade, para mim, tem sido também uma espécie de experimento — o que pode até soar perigoso de se dizer. Acho que a gente vai aprendendo a ser pai também. Por isso, tento evitar posturas mais clichês de paternidade. Elas são clichês, mas também são importantes, porque estamos falando de uma vida, e certos clichês precisam ser cumpridos. Ainda assim, tento agir de uma forma mais natural, deixar as coisas acontecerem e ir respondendo a elas.

A criação dela dentro do estúdio é, com certeza, algo que considero importante. Hoje em dia, ela já entende qual é o meu trabalho, já reconhece as palmeiras Talipot. Acho importante construir isso. Uma criança que tem o privilégio de crescer dentro do ateliê, que desde cedo já visita exposições, vai a museus, faz viagens internacionais para conhecer museus lá fora, já cresce com essa cultura de livro.

A Raissa é educadora, ela trabalha com educação infantil. Isso também é algo especial. Ela é uma pessoa que entende profundamente de criança, que lida e gosta muito de criança. Isso me inspira, inclusive, num experimento que quero fazer em breve: pintar todos os brinquedos dela de preto. Vou recolher os brinquedos, trazer para o estúdio, pintar de preto e devolver para ela.

Ela vai crescer dentro desse universo. Não que eu seja a pessoa mais pública do mundo, mas existe uma publicização da minha atuação. E, como é uma obra que passa por questões sociais e raciais muito presentes, certamente vai existir algum tipo de afetação nesse sentido para ela.”

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