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Foto: Leon Kahane. Fundo: Hito Steyerl, Power Plants (2019). Cortesia da Artista/Andrew Kreps Gallery

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Conversas

Hito Steyerl: "Ao olhar imagens hoje, já presumimos que foram geradas artificialmente"

Artista visual, cineasta e escritora alemã lança livro em que reflete sobre o status incerto das imagens num mundo cada vez mais dominado pela IA

Leonardo Neiva 12 de Julho de 2026

Hito Steyerl: “Ao olhar imagens hoje, já presumimos que foram geradas artificialmente”

Leonardo Neiva 12 de Julho de 2026
Foto: Leon Kahane. Fundo: Hito Steyerl, Power Plants (2019). Cortesia da Artista/Andrew Kreps Gallery

Artista visual, cineasta e escritora alemã lança livro em que reflete sobre o status incerto das imagens num mundo cada vez mais dominado pela IA

Três refugiados curdos da Síria se dirigem ao público. Da tela, revelam como é o seu trabalho captando e “rotulando” imagens no campo de refugiados de Domiz, no Iraque. Em uma de suas instalações mais recentes, que já rodou museus na França, Itália e Portugal, a artista visual, cineasta e escritora alemã Hito Steyerl revela a mão de obra, muitas vezes mal paga e em condições degradantes, usada para treinar a Inteligência Artificial ao redor do mundo.

Intitulada Curdos Mecânicos, a instalação faz referência a um falso robô do século 18 que parecia jogar xadrez sozinho — na verdade, um mestre enxadrista estava operando a máquina o tempo todo pelo lado de dentro. A obra encapsula alguns dos principais interesses do trabalho da artista: aquilo que se esconde por trás da geração “automática” de imagens por IA, seu impacto na realidade geopolítica contemporânea e como sua utilização ainda depende de trabalhos humanos extremamente precarizados.

Eleita a pessoa mais influente do mundo na arte contemporânea pela revista ArtReview em 2017, Steyerl costuma usar suas obras para investigar a relação entre arte, tecnologia e poder, questionando os modos de produção e circulação de imagens no capitalismo global.

Hito Steyerl, Fabrik (2015)
Hito Steyerl, Fabrik (2015)
Cortesia da Artista/Andrew Kreps Gallery

Em seu primeiro livro publicado recentemente no Brasil, “Meio Quente: As imagens na era do calor” (Ubu, 2026, trad. André Albert), a artista reúne uma série de textos que escreveu ao longo dos anos sobre o impacto das imagens digitais na sociedade contemporânea. E, como não poderia deixar de ser, acaba desembocando no atual domínio das imagens produzidas por IA, no chamado slop que hoje sobrecarrega nossas redes sociais e naquilo que chama de “burrices artificiais”.

O título da obra não é por acaso: ele constrói uma relação direta do nosso uso crescente de IA com o consumo excessivo de energia, o colapso climático e o aumento das temperaturas no mundo todo. E acrescenta a isso o aquecimento dos conflitos bélicos no mundo, que acabam se tornando enormes laboratórios para novas armas controladas por IA, e o derretimento da confiança do público nas imagens e na verdade como um todo.

A perda da imagem como prova da realidade é um fato

Formada na Universidade de Televisão e Cinema de Munique, com doutorado em filosofia pela Academia de Belas-Artes de Viena, a artista vem participando de inúmeras bienais e exposições internacionais, incluindo as de São Paulo, Veneza, Berlim e Gwangju, com obras que falam de forma direta com nossos tempos.

Em entrevista a Gama, Steyerl afirma que a proliferação de imagens genéricas criadas por IA romperam de vez um vínculo antes sagrado para a compreensão do mundo: o elo entre fotos e realidade: “Ou seja, acho que as pessoas, ao olharem para imagens hoje, já não presumem que elas representam nada real, e sim que foram geradas artificialmente.” Leia a seguir os principais trechos da conversa:

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Memeocracia

“[As imagens geradas por IA hoje afetam o mundo] em uma escala gigantesca. Curiosamente, na maior parte das vezes, não se trata de mentiras descaradas. Isso até pode acontecer, com deepfakes e coisas do tipo, mas seu uso hoje é mais voltado para memes cínicos, representações muito violentas e diretas, mas que não apresentam nem pretendem apresentar a verdade em si.

Um meme do Trump não é uma imagem documental; é, basicamente, um insulto disfarçado de imagem. Acho que é assim que a tecnologia está sendo usada agora: para formas muito diretas de propaganda, que não tentam se passar por fatos.

Essas coisas acontecem muito rápido. Quem imaginaria, três anos atrás, que estaríamos vivendo numa ‘memeocracia’? Então, é difícil prever os próximos três anos. Mas acho que a perda da imagem como prova da realidade é um fato; não voltaremos ao status quo tão cedo.”

Um meme do Trump é um insulto disfarçado de imagem. A tecnologia está sendo usada para formas muito diretas de propaganda

Imagens medíocres

“As imagens não são otimizadas necessariamente de acordo com uma média estatística, mas sim com o intuito de chamar a atenção. Então, basicamente, elas evoluem de uma determinada forma: aquelas que chamam mais atenção tendem a ser replicadas. Acho que esse é o fator de perpetuação.

Existe uma regressão em direção ao meme, a um conjunto de imagens muito semelhantes entre si que se repetem infinitamente com pequenas variações, porque as pessoas acham que essa é a imagem ideal. Depois, essas novas imagens passam a servir novamente como dados de treinamento para a própria IA, e assim por diante. Por isso, começam a surgir estilos que se propagam. E conteúdos mais atípicos, fora da curva, tendem a desaparecer.

Basta lembrar dos banco de imagens de uns dez anos atrás. De repente, todos os anúncios pareciam iguais. Ainda não eram, mas já pareciam imagens geradas por IA. Até certo ponto, aquilo se tornou uma estética dominante, mas as pessoas também a rejeitavam porque era algo produzido excessivamente em massa. E acho que algo parecido vai acontecer com a IA.

Já existe um grau real de saturação, uma reação negativa contra o slop de IA, que se estende a praticamente qualquer tipo de imagem digital. Sentimos isso muito diretamente no mundo da arte, onde hoje qualquer imagem digital é rejeitada. Mas, claro, quanto mais desse conteúdo é criado, mais ele afeta as bases de outros modelos de IA, que acabarão sendo treinados a partir do slop, e assim por diante. Então, temos um mecanismo que se autoperpetua.”

Hito Steyerl, Power Plants (2019)
Hito Steyerl, Power Plants (2019)
Cortesia da Artista/Andrew Kreps Gallery

Artistas e IA

“Eu me preocupo com o consumidor, mas ao menos ele tem a escolha de ver essas imagens ou não. Não é obrigado, certo? Por outro lado, as pessoas que criam imagens, que realmente trabalham nessa indústria, vão sofrer muito. Elas já estão sofrendo muito no cinema, no audiovisual, na publicidade, na produção de jogos. Então, já existe um impacto enorme aí.

Precisamos aprender a fazer e a operar essa tecnologia. Caso contrário, seremos constantemente soterrados pelo slop

Meu trabalho mudou de várias maneiras distintas. Comecei a experimentar com isso [imagens geradas por IA] há cerca de dez anos, em 2016, e passei por diferentes fases. Depois, parei completamente por um tempo, porque o volume do slop digital era simplesmente implacável. Mas hoje existem outras possibilidades. Então, o que estou fazendo agora com um colega é treinar nosso próprio modelo. Precisamos aprender a fazer e a operar essa tecnologia. Caso contrário, seremos constantemente soterrados pelo slop. Vamos ver, é um experimento.

Acredito que qualquer tipo de arte só acontece quando existe uma resistência material de um meio. Seja música, pintura ou dança, não importa muito, existe algo que oferece um tipo de resistência, e os artistas tentam trabalhar contra ela. Pense na resistência da pedra para alguém que quer fazer uma escultura. Se essa resistência não existe — como no caso dos prompts, em que você só precisa digitar um comando e apertar um botão —, acho muito difícil criar arte.

Existe uma proteção muito simples para o trabalho dos artistas, que funciona bem há 7 mil anos. Chama-se tributação. Impostos são uma ótima maneira de redistribuir lucros para as pessoas envolvidas na criação de algo. Dá para pensar em várias formas diferentes de incluir as pessoas nos lucros da IA ​​gerados a partir do trabalho delas. E muitas dessas formas são bem complicadas: direitos autorais, blockchain e outros sistemas desse tipo. E tudo bem, se funcionar, para mim está ótimo. Mas é melhor manter a simplicidade. Basta pegar o lucro e repassá-lo às pessoas.”

Buraco negro energético

“Se você me perguntar sobre um horizonte de três, dez ou cem anos, não tem como saber [se, em algum momento, a IA vai justificar seu custo energético e ambiental]. A curto prazo, não; definitivamente não. A forma como as coisas estão organizadas agora envolve a construção de enormes centros de dados, precisamos de muitas GPUs da Nvidia para isso, além de água, eletricidade e toda uma infraestrutura. Basicamente, é assim que a indústria funciona atualmente.

Se analisarmos apenas a tecnologia em si, não são necessários tantos recursos. Os chineses estão criando modelos bem pequenos e compactos, que são dez vezes mais eficientes em termos energéticos. Por isso, acredito que muita coisa é feita apenas por fazer e para vender, não é realmente necessário. Talvez, em algum momento, as pessoas percebam isso e entendam que, para ter certos tipos de IA, não devemos desperdiçar tantos recursos. Mas, enquanto continuar sendo lucrativo desperdiçar, receio que a situação vai persistir.

A IA precisa de eletricidade. Então, se não tivermos eletricidade, não existe IA. E essa escassez pode muito bem acontecer de uma forma ou de outra, seja por falta de combustível, problemas na rede ou qualquer outra coisa… Portanto, não devemos tomar isso como algo garantido. Tudo pode acontecer.”

Hito Steyerl, How Not to Be Seen-  A Fucking Didactic Educational .MOV File (2013)
Hito Steyerl, How Not to Be Seen- A Fucking Didactic Educational .MOV File (2013)
Cortesia da Artista/Andrew Kreps Gallery

Corpos desiguais

“Já existem cirurgiões plásticos falando sobre o ‘rosto de IA’, pessoas que chegam com imagens geradas por IA de si mesmas e pedem: Quero ficar desse jeito. Mas, na prática, não é possível criar esse tipo de rosto. A IA consegue, mas nem mesmo o melhor cirurgião plástico seria capaz de reproduzi-lo.

E acho que já temos — e continuamos tendo — visões completamente distorcidas de como são os corpos humanos, fruto de décadas de publicidade, redes sociais e tudo mais. A IA vai apenas adicionar mais uma camada de irrealidade a tudo isso.

A IA acabou se tornando uma grande ferramenta para aumentar a desigualdade. E um excelente meio para que bilionários fiquem ainda mais ricos

Além disso, há ideias como o transumanismo, a noção de que, na verdade, não precisamos de um corpo. Podemos simplesmente transferir nossa consciência para uma máquina e nos tornar imortais. É outra forma de nos livrarmos do corpo. Existem também várias maneiras de tentar excluir as mulheres do processo de reprodução, permitindo, por exemplo, a clonagem de seres humanos. Ou seja, as tecnologias podem impactar nossos corpos de diversas formas.

A IA acabou se tornando uma grande ferramenta para aumentar a desigualdade em todos os níveis. E um excelente meio para que bilionários fiquem ainda mais ricos. Para mim, a questão não é usar IA ou não, mas sim se essa desigualdade vai aumentar ou não. Se a desigualdade diminuir, também implicaria outros tipos de IA. Ou seja, a tecnologia precisaria se transformar como consequência. Mas isso não é nem um pouco provável num futuro próximo”

Produto

  • Meio Quente: as imagens na era do calor
  • Hito Steyerl (trad. André Albert)
  • Ubu
  • 224 páginas

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