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A creepypasta Jeff The Killer apresentou ao mundo uma imagem que aterroriza a internet até hoje Creepypasta Files Wiki

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Reportagem

Contém imagens perturbadoras: quando a nostalgia vira medo

Marcada por elementos retrô e analógicos, a estética do terror digital atinge finalmente o mainstream com filmes como “Backrooms”

Leonardo Neiva e Mariana Pontes 12 de Julho de 2026

Contém imagens perturbadoras: quando a nostalgia vira medo

Leonardo Neiva e Mariana Pontes 12 de Julho de 2026
A creepypasta Jeff the Killer apresentou ao mundo uma imagem que aterroriza a internet até hoje Reprodução/Creepypasta Files Wiki

Marcada por elementos retrô e analógicos, a estética do terror digital atinge finalmente o mainstream com filmes como “Backrooms”

Compartilhada de forma anônima em um fórum na internet em 2019, a foto meio torta de uma sala amarelada, iluminada por luzes fluorescentes estilo escritório, se tornou o marco zero de todo um subgênero que está virando a nova febre do terror: o horror liminar. Com o sucesso recente do filme “Backrooms: Um não-lugar” (2026), talvez você já tenha ouvido falar no termo ou visto alguma das inúmeras imagens de lugares vazios e bizarros que se multiplicaram pela internet desde então.

A atmosfera inquietante típica dessas imagens ajudou a criar toda uma teia narrativa envolvendo dimensões paralelas repletas de salas e corredores infinitos. Esse tipo de história criada de forma coletiva, sem rumo determinado, é o que melhor descreve as creepypastas, lendas urbanas contemporâneas surgidas em lugares ocultos da internet — e que cada vez mais, como no caso dos Backrooms, “vazam” para o mainstream. O termo surgiu por uma brincadeira com as copypastas, textos copiados e colados à exaustão na internet.

Creepypastas são lendas urbanas contemporâneas surgidas em lugares ocultos da internet que acabam vazando para o mainstream

“Um dos diferenciais das creepypastas é o fato de serem criações que você não tem como definir. Algumas têm uma origem, um criador específico, mas muitas começaram com posts anônimos em fóruns como o 4chan e, a partir disso, foram se disseminando, com várias pessoas ampliando essa mitologia”, explica o doutorando em comunicação pela UERJ Luiz Felipe Salviano, autor do artigo “Uma reflexão sobre creepypastas e narrativas de horror online: o caso Kisaragi Station”.

Agora, o sucesso estrondoso de “Backrooms”, dirigido pelo YouTuber Kane Parsons, de apenas 21 anos, e de um filme como “Obsessão” (2026), também chefiado por um criador de conteúdo online — Curry Barker — parecem apontar para toda uma nova tendência liderada pelas narrativas digitais no cinema do gênero. Alguns anúncios recentes reforçam essa realidade. Já estão em desenvolvimento, por exemplo, uma adaptação da série do YouTube “O Catálogo Mandela” (2021-) e um filme baseado no terror viral Siren Head (cabeça de sirene), criatura humanoide de 12 metros de altura e com duas sirenes no lugar do crânio, que deve ser dirigido por Zach Cregger (“A Hora do Mal”).

O YouTuber Kane Parsons ampliou a mitologia dos Backrooms em uma série de curtas
O YouTuber Kane Parsons ampliou a mitologia dos Backrooms em uma série de curtas
Reprodução Youtube/Kane Parsons

Outros exemplos notáveis são personagens como o Slender Man, uma figura fantasmagórica magra, anormalmente alta e de terno preto que também ganhou filme próprio, e Jeff The Killer, garoto que teria desfigurado o próprio rosto, desenvolvendo um sorriso macabro eterno — e cuja imagem pálida tem assombrado a internet há tempos.

Apesar dos holofotes pontuais, esse vasto conteúdo online seguia desconhecido para a maioria das pessoas, com exceção dos fãs fervorosos de terror — ao menos até o momento. Mas será que o terror das telonas em breve vai assumir de vez a estética bizarra do horror digital?

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Pesadelos infantis e paisagens noturnas

Imagens propositalmente pixeladas e “ruins”, portas que surgem e desaparecem misteriosamente, desenhos animados ou brinquedos com tons vagamente ameaçadores e um orçamento baixíssimo. Os elementos dessa estética sombria, que para muita gente lembra pesadelos de criança, tornou o filme “Skinamarink” (2022) um dos fenômenos mais divisivos do terror nos últimos anos. E a vocação digital do longa independente é tanta que ele só ganhou reconhecimento depois que cortes do filme viralizaram entre usuários do TikTok.

Fator comum a várias creepypastas é o olhar que essas histórias lançam para os traumas do passado

Dirigido por Kyle Edward Ball, que ganhou fama ao recriar visualmente em seu canal no YouTube pesadelos reais enviados por seguidores, o filme traz embutidos muitos dos elementos característicos do terror feito na internet. Salviano, cuja pesquisa também se foca no horror japonês e em games do gênero, aponta que um dos fatores comuns a várias creepypastas é o olhar que essas histórias lançam para os traumas do passado, envolvendo elementos que vão desde a infância até uma estética típica dos anos 1990 e início dos 2000, conhecida como analog horror (terror analógico), que emula mídias de baixa resolução e VHS.

“É comum encontrar creepypastas relacionadas a jogos de videogame, como Zelda ou Super Mario, e desenhos como Bob Esponja e Mickey”, descreve o pesquisador. Salviano ainda relaciona essa tendência às narrativas góticas clássicas, em que imagens do passado retornavam de forma aterrorizante. “Na internet, muitas histórias usam transmissões de canais televisivos antigos, dos anos 80 e 90, ou sinais de TV invadidos que começam a transmitir imagens perturbadoras com significados enigmáticos.”

Um brinquedo infantil retrô ganha ares sombrios em
Um brinquedo infantil retrô ganha ares sombrios em “Skinamarink” (2022)
Divulgação

Um dos casos mais conhecidos é o dos curtas publicados pelo canal do YouTube Local58. Entre eles, um desenho animado fictício, protagonizado por um simpático esqueleto que se desespera conforme encontra aparições fantasmagóricas cada vez mais surreais em um cemitério. Outro exemplo é a primeira temporada da série “Channel Zero” (2016-2018), que conta a história de Candle Cove, um programa de TV infantil com marionetes perturbadoras, do qual todos parecem se lembrar — mas que na verdade nunca existiu. O seriado antológico, aliás, é um dos mais conhecidos a adaptar algumas creepypastas célebres direto para as telas.

Ilustre desconhecido

O uso de lugares e objetos cotidianos, só que distorcidos de alguma forma, também pode acabar gerando uma sensação de desconforto muito mais próxima de nós do que os monstros ou as casas assombradas do horror tradicional. Para explicar esse sentimento de repulsa, a jornalista e escritora Laura Redfern Navarro, que desenvolve uma pesquisa sobre espaços liminares no seu mestrado em literatura na PUC-SP, evoca o conceito do “estranho familiar”, criado por Freud.

“São objetos, lugares ou pessoas que você reconhece, mas que têm algo fora de lugar, e isso gera um desconforto”, explica a pesquisadora. “Então, a pessoa fica desconfortável diante daquilo que ela reconhece mas não completamente.”

A professora de mídia da Universidade RMIT, na Austrália, Jessica Balanzategui, é uma das poucas pesquisadoras no mundo a se debruçar sobre o horror digital. Num artigo para o site The Conversation, em que analisa o impacto do TikTok para o terror contemporâneo, ela aponta que o subgênero é composto por produções que, mesmo feitas no digital, possuem “uma qualidade tecnológica assustadoramente nostálgica”, frequentemente marcada por imagens de “um granulado nebuloso”.

São objetos, lugares ou pessoas que você reconhece, mas que têm algo fora de lugar, e isso gera um desconforto

“Elas podem retratar espaços domésticos mundanos que se tornam ameaçadores quando você percebe que os corredores têm cantos tortos, ou que é impossível encontrar a saída”, continua a especialista. Ou seja, a tal “sensação do familiar mesclada ao não-familiar.” A descrição se aplica tanto aos corredores apenas parcialmente reconhecíveis de “Backrooms” quanto ao ambiente doméstico que rapidamente se torna aterrorizante quando portas e janelas desaparecem em “Skinamarink”.

A jornalista e pesquisadora de cinema de horror Laura Cánepa também aponta que o conceito de Freud ajuda a traduzir o chamado “vale da estranheza”, termo criado originalmente nos anos 1970 pelo roboticista japonês Masahiro Mori (1927-2025). A noção, que ganhou vida nova na internet contemporânea, busca definir a aversão que sentimos frente a réplicas muito semelhantes, mas que ainda guardam pequenas diferenças na comparação com pessoas reais. Cunhada inicialmente para tratar de robôs humanoides, hoje o problema é mais sentido quando nos deparamos com imagens humanas geradas por IA.

Ela lembra ainda que o horror digital tem muitas características ligadas aos meios de comunicação, com gravações acidentais, ligações e glitches na tela — a estética típica do começo da era digital. Mas adverte que a nostalgia, ainda que de um momento próximo, é desde sempre uma característica do gênero: “A ideia de que o terror vem do passado, dessa nostalgia fascinada com o medo, com a sensação de que existem coisas mal resolvidas que podem retornar, não foi inventada agora”, diz Cánepa, que é professora de pós-graduação em comunicação na Unip e no Centro Universitário Belas Artes.

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Em “Milk & Serial” (2024), o diretor de “Obsessão” (2026) apresentou seu talento para o terror
Reprodução Youtube/that’s a bad idea

A estética da falta de grana

Embora não seja a maior bilheteria do ano, dá para dizer que o longa de terror “Obsessão” é, até o momento, a história mais surpreendente do cinema em 2026. Com um custo de produção de US$ 750 mil (R$ 3,87 milhões) — ridiculamente baixo para os padrões do cinema hollywoodiano —, o filme já rendeu mais de US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões) no mundo todo. E tudo isso graças a um cineasta novato, com um elenco de atores virtualmente desconhecidos.

O diretor Curry Barker já vinha há quase uma década produzindo vídeos de orçamento extremamente limitado para seu canal do YouTube that’s a bad idea. “Milk & Serial” (2024), seu primeiro longa, publicado diretamente na plataforma, custou meros US$ 800 (R$ 4 mil). Mas a trama gravada em estilo found footage, que envolve pegadinhas de mau gosto e um assassino slasher impiedoso, acabou caindo nas graças do público — o que teve importância fundamental na carta branca que Barker recebeu para gravar seu primeiro projeto com um estúdio de cinema.

O cineasta, assim como Kane Parsons, de “Backrooms”, se junta ao movimento crescente de diretores de horror que vieram da internet: Kile Edward Ball, de “Skinamarink”; os irmãos Philippou, de “Fale Comigo” (2022); Mark Fischbach, de “Iron Lung” (2026); Michael Shanks, de “Juntos” (2025); entre vários outros. Além do baixo custo, que faz crescer os olhos dos executivos da indústria cinematográfica, essa nova realidade também tem implicações visuais relevantes.

Os personagens de “Obsessão”, por exemplo, transitam entre um número limitado de cenários bastante comuns: o apartamento do protagonista, um bar, a loja onde os personagens trabalham… Em vez de efeitos especiais extravagantes, boa parte do terror é construída por diálogos, maquiagem e efeitos práticos. Ou seja, as limitações orçamentárias herdadas da internet afetam os rumos da narrativa e da própria estética dessas produções.

“Foi uma coisa de que eu gostei muito em ‘Backrooms’, o diretor não ter usado CGI (imagens geradas por computador), ter preferido efeito prático e maquiagem”, afirma o YouTuber brasileiro David Herick, um dos pioneiros na criação de contos de terror e creepypastas por aqui.

O criador de conteúdo também chama atenção para a forma como o tema e até o visual de muitas dessas narrativas evocam questões hoje amplamente discutidas na internet e nas redes sociais. Se as salas esquisitas de “Backrooms” servem de metáfora para a mente humana e a crescente preocupação com a saúde mental, os ambientes claustrofóbicos e escuros de “Obsessão” retratam de maneira quase física o que significa estar em uma relação tóxica, mote central do longa.

Em vez de lidar com monstros muito distantes da realidade, Herick também busca inspiração para a grande maioria de suas histórias no próprio cotidiano, seja em uma viagem ou num evento aleatório como o alerta recente de “misantropi4” que muita gente recebeu no celular. “Eu toco mais em coisas que podem acontecer ou que já aconteceram. Você não precisa fazer uma grande engenharia para lidar com o terror ou chamar a atenção das pessoas. E acho que os filmes têm feito bem isso”, avalia.

Criado pelo ilustrador canadense Trevor Henderson, o Siren Head emite sons distorcidos para atrair suas vítimas
Criado pelo ilustrador canadense Trevor Henderson, o Siren Head emite sons distorcidos para atrair suas vítimas
Reprodução Youtube/Shutter Authority

O terror da IA e do vício em tecnologia

Para o pesquisador Luiz Felipe Salviano, boa parte das narrativas do terror digital estão ligadas aos medos específicos dos millennials, já que retratam traumas de infância vividos entre o final do século passado e o início do atual. Mas também têm apelo visual para a geração Z, que hoje demonstra um forte interesse pela estética do período.

Nesse subgênero, o medo surge ao inverter o sentimento de nostalgia apresentando seus elementos em contextos perturbadores

“Elas possuem uma relação muito forte com a nossa memória afetiva, com elementos da nossa infância, mas são também um tipo de narrativa que está no limiar entre a ficção e a realidade — e o horror historicamente trabalha muito com isso”, analisa. O especialista considera que o medo surge justamente ao inverter o sentimento de nostalgia tão buscado atualmente, apresentando elementos outrora nostálgicos em contextos perturbadores.

No caso das imagens online de espaços liminares, a pesquisadora Laura Navarro revela que elas ainda são em sua grande maioria fotografias reais, sem intervenção digital. “Eu mesma fiz uma série de fotos em Belo Horizonte, num lugar onde tinha uma placa de área militar. E eu não editei essas imagens antes de postar”, conta.

Mas o que acontece conforme a IA apresenta tantas supostas facilidades na criação visual? Navarro admite que hoje alguns usuários já aderem à IA generativa para criar fotos do tipo. “Geralmente, elas ganham um caráter muito mais surreal”, aponta. Já Herick enxerga uma perda considerável de originalidade quando a IA está envolvida. “Levando em consideração a parte criativa, a lA é muito engessada. Ela pega elementos de coisas que existem e transforma em um clichê”, diz o YouTuber. “Em geração de imagem, fica muito na cara, não é a mesma coisa de um efeito prático.”

De livros empoeirados e amuletos milenares, os objetos de terror passam a ser fitas cassete e computadores, integrantes de um universo tecnológico acelerado que possibilita, em apenas duas décadas, olhar para trás e ver um mundo completamente diferente, lembra Laura Cánepa. Para a estudiosa do tema, além dos traumas psicológicos e de infância de toda uma geração, as características analógicas que marcam a estética do horror digital também revelam um medo criado pelo próprio ambiente online: o de perdermos subitamente o contato com as novas tecnologias.

“Toda a memória da humanidade hoje está na internet. Quase todas as nossas fotografias, as nossas lembranças… Então, é a ideia de que isso pode desaparecer”, avalia a pesquisadora. “Você cria, ao longo do tempo, uma dependência física e se sente realmente amputado quando perde o acesso.”

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