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Conversas

Marcos Nascimento: “Não existe lugar para cuidado na masculinidade tradicional”

Pesquisador da Fiocruz defende que precisamos de políticas públicas para criar novos modelos de paternidade, indo além da antiga ideia do pai provedor. “Existe uma aposta na produção de outras formas de ser homem”

Fredy Alexandrakis 09 de Agosto de 2026

Marcos Nascimento: “Não existe lugar para cuidado na masculinidade tradicional”

Fredy Alexandrakis 09 de Agosto de 2026
Foto: Divulgação

Pesquisador da Fiocruz defende que precisamos de políticas públicas para criar novos modelos de paternidade, indo além da antiga ideia do pai provedor. “Existe uma aposta na produção de outras formas de ser homem”

No domingo (9), o Brasil comemora o Dia dos Pais, quatro meses após ser aprovada a ampliação da licença-paternidade no Congresso. Previsto na Constituição de 1988, esse direito demorou quase 40 anos para ser regulamentado em lei. O benefício será estendido gradualmente, ano a ano, chegando a 20 dias de licença em 2029 — um avanço em relação aos cinco dias oferecidos hoje. A conquista reflete uma lenta e conflituosa transformação das atitudes em torno da responsabilidade pelo cuidado com os filhos.

O pai é o provedor, a mãe é a cuidadora, diz o discurso conservador sobre a família. Mas e quando o pai não consegue prover? “Isso é muitas vezes interpretado como uma falha: falhei como homem. É um gatilho para conflitos e violências”, diz o pesquisador Marcos Nascimento, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), psicólogo especializado em saúde coletiva, gênero e sexualidade. Um estudo recente do centro de pesquisas Prospera, associado à Universidade Federal de Pernambuco, sugere que se tornar pai no Brasil aumenta em 18% as chances de cometer crime nos dois anos após o nascimento da criança, efeito oposto daquele observado em países mais ricos, como os EUA. A principal hipótese dos autores para a causa desse comportamento é a pressão financeira — a mesma que tem empurrado milhões de brasileiros ao endividamento em apostas online, enquanto crescem os índices de violência contra a mulher.

“A violência é um repertório masculino”, diz Nascimento. Para o pesquisador, a negligência paterna na criação das crianças é reflexo de uma sociedade que não ensina meninos a cuidarem nem de si próprios (que dirá de outra pessoa): pesquisas mostram que os homens cuidam menos da própria saúde e buscam atendimento médico com menos frequência. Mas o trabalho de cuidado é incontornável na vida em sociedade, defende Nascimento. Por isso, precisa ser incentivado tanto na micropolítica do contexto doméstico quanto em políticas públicas, como uma aposta na construção de uma masculinidade mais cuidadora.

“O mundo masculino sempre valorizou o trabalho produtivo, que gera dinheiro, prestígio, sucesso, poder”, afirma. “O trabalho do cuidado é o trabalho do miudinho, do dia a dia. É repetitivo: todo dia tem que fazer comida, dar banho, lavar roupa. Não é um trabalho valorizado, apesar de ser essencial.” Em entrevista à Gama, o pesquisador explora as consequências dessa desvalorização e propõe caminhos para mudar esse cenário.

Para a sobrevivência da espécie humana, precisamos receber cuidado e aprender a cuidar dos outros

  • G |O cuidado costuma ser visto como um traço feminino, o que afasta muitos homens de querer desempenhá-lo. Cuidar dos filhos ameaça a masculinidade?

    Marcos Nascimento |

    Existe uma noção na nossa sociedade de que as mulheres são “naturalmente” cuidadoras. Isso não é verdade. Pelo contrário, elas são ensinadas desde muito cedo a cuidar, brincando de casinha com bonecas, recebendo amigas e fazendo almoços imaginários. É uma pedagogia do cuidado que não levamos aos meninos, para os quais o cuidado parece pertencer a um universo paralelo, sem nenhuma relação com eles. Eles são ensinados outras coisas: a proteger, por exemplo, o que leva muitos homens a confundir cuidado com proteção. A proteção é, sim, uma forma de cuidar, mas o cuidado não se resume a isso. Ensinar o cuidado aos homens passa também pelo autocuidado. Basta ver os dados: homens cuidam menos do próprio bem-estar e têm muita resistência a procurar os serviços de saúde. Não existe lugar para o cuidado na construção da masculinidade tradicional — nem com o outro, nem consigo mesmo. Precisamos instaurar uma cultura do cuidado. Isso começa na infância: quando dizemos que “menino não pode brincar de boneca”, estamos impedindo que eles brinquem de ser pai, da mesma maneira que meninas brincam de ser mãe (o que costuma ser incentivado).

  • G |Como mudar essas associações?

    MN |

    Em maio, tivemos o Festival Masculinidades no Rio de Janeiro, cujo mote foi “cuidar é político”. Por que é político? Porque precisamos de políticas públicas que incentivem o trabalho de cuidado. Neste ano, foi finalmente aprovada a ampliação da licença-paternidade, após quase 40 anos de luta. Quando temos uma licença-paternidade de cinco dias consecutivos, estamos dizendo aos pais que a presença deles no cuidado com os filhos é dispensável. Outros países têm uma licença parental, que permite ao casal decidir como usufruir do benefício, após o período de recuperação pós-parto. No Brasil, separamos: licença-maternidade e licença-paternidade. Cuidar não é um atributo feminino, é um atributo humano. Para a sobrevivência da espécie humana, precisamos receber cuidado e aprender a cuidar dos outros. O cuidado não pode ser visto somente como um atributo subjetivo do indivíduo: “este pai cuida porque ele é legal”. Ele cuida também porque tem condições materiais e políticas para fazê-lo.

  • G |Ainda existe alguma resistência da população brasileira a estender esse tipo de benefício aos pais?

    MN |

    Existe muita desconfiança em torno disso, que aparece com frequência nos discursos das mulheres: “é melhor que ele vá trabalhar do que ficar em casa dando trabalho”. As mulheres às vezes precisam cuidar do bebê e também do marido, que, em vez de dividir as tarefas, dá mais trabalho. Será que aumentar a licença vai produzir mais cuidado para essa mãe que acabou de parir e para o bebê recém-nascido? É uma aposta, torcemos que sim. Por isso precisamos fomentar uma cultura do cuidado. Estudos em outros países mostram que a participação dos homens no cuidado faz bem para eles também: eles reavaliam valores, prioridades, questões de vida. Consideram a responsabilidade que é ter um ser humano dependendo de você, reorganizam os arranjos de trabalho doméstico. Isso é um processo. Nunca mudamos a nossa cultura por decreto. Não podemos determinar que, a partir de hoje, vai ser tudo diferente. Mas existe uma aposta nessa produção de outras formas de ser homem, outras formas de masculinidade.

  • G |Quais outras políticas são necessárias para incentivar o trabalho de cuidado?

    MN |

    No Brasil, desde 2009, temos a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). Um dos eixos dessa política é voltado a paternidade e cuidado. Veio daí a implementação, em 2016, do pré-natal do parceiro, voltada a incentivar o envolvimento dos homens no pré-natal feminino. Ali, o homem começa a perceber que precisa cuidar mais da sua saúde, porque agora tem uma outra pessoinha que vai depender dele. Mas ainda falta muita coisa para que essa política se torne uma realidade efetiva. Somos um país continental, com muitas desigualdades sociais e regionais. O que acontece no Rio de Janeiro ou em São Paulo talvez não aconteça em uma zona rural, ou no interior da Amazônia. Temos trabalhado para fomentar essa ideia de que o cuidado passa pela saúde, pela educação e pelo acesso a direitos.

  • G |A figura tradicional do “pai provedor” afeta homens pobres que não conseguem alcançar esse ideal, com efeitos devastadores como a epidemia das bets, que tem sido associada a um aumento nos casos de violência doméstica. Quais efeitos as apostas online podem gerar na relação entre pais e filhos?

    MN |

    Desde pequenos, somos ensinados que, ao crescer, seremos capazes de trabalhar para sustentar nossas famílias. Isso provoca uma frustração enorme quando a expectativa não se concretiza. O trabalho é um pilar da construção da masculinidade. Se o homem não tem trabalho e não é capaz de prover a sua família, isso é muitas vezes interpretado como uma falha: falhei como homem, num sentido mais amplo. É um gatilho para conflitos e violências. Quando falamos de paternidade, chegamos sempre no tema da violência. Isso está presente na educação dos filhos, o uso do castigo físico. Apesar de termos, desde 2014, a Lei do Menino Bernardo, que proíbe o castigo físico de crianças e adolescentes, muitas famílias ainda veem essa punição como uma forma de pedagogia, pela ideia de que esse sofrimento vai ensinar a ele a “ser homem”. Então, a violência é um repertório masculino; basta ver nossa população carcerária, as populações adolescentes em conflito com a lei. Como podemos fomentar a aquisição de outros repertórios, baseados em afeto e cuidado? Este é o grande tema, e não tem receita de bolo. Há iniciativas tanto no âmbito micro — da educação infantil, das relações comunitárias e familiares, dos modelos de masculinidade — quanto no macro, das políticas públicas, de saúde. Precisamos trabalhar nas duas frentes.

Todo mundo dá trabalho para todo mundo. Criança dá trabalho. Adulto dá trabalho. Nós temos uma interdependência.

  • G |O que famílias LGBTI+ podem nos ensinar sobre a divisão do trabalho de cuidado e as diferentes formas de ser pai hoje?

    MN |

    Durante muito tempo, a paternidade foi vista como uma confirmação social de masculinidade e virilidade. Isso vai se modificando a partir do momento que temos, por exemplo, casais gays que agora podem ser pais, seja por adoção ou reprodução assistida. No geral, um casal LGBTQUIAPN+ não tem um filho por acidente. É quase sempre um projeto: o casal entrou na fila da adoção, ou optou pela reprodução assistida. Temos algo a aprender com esse desejo de ser pai que se manifesta em um projeto de família, de paternidade. Em famílias gays, vemos dois homens dividindo tarefas. Como se dá esse arranjo? Como acontecem essas negociações? Quem faz o quê? Como? Temos também a paternidade de homens trans, que costuma causar estranhamento, inclusive nos serviços de saúde, nas escolas, nas nossas instituições. Pensar em um homem grávido ainda provoca muito ruído para as pessoas. Tudo isso é muito recente na nossa história. É algo que produz uma modificação da ideia tradicional de paternidade, que realmente é uma coisa plural. Ser um pai negro, por exemplo, também é diferente de ser um pai branco. Existem outras preocupações: como criar uma criança negra numa sociedade racista? Isso não passa pela cabeça de um pai branco. Por isso precisamos falar de paternidades, no plural. Ser pai aos 18 anos é uma coisa, ser pai aos 40 é outra coisa. Muito depende da história desse homem.

  • G |Um discurso comum no Brasil diz que pessoas pobres não devem ter filhos, porque não conseguem lhes oferecer boas condições de vida. Qual o problema com essa ideia?

    MN |

    É uma ideia muito perversa de criminalização da pobreza, que aparece em falas de políticos, como o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho, que em 2007 disse que famílias da favela eram “fábricas de produzir marginais”. Isso é usado para defender cortes em benefícios sociais como o Bolsa Família, porque se pensa que as famílias pobres estão tendo filhos para “mamar nas tetas do governo”. Gente, isso não acontece. Nossa taxa de fecundidade é cada vez menor. Estamos envelhecendo como país. Vamos ter uma quantidade de pessoas idosas que nunca tivemos na história. Quem vai cuidar desse povo? Apesar de nem sempre reconhecermos, o cuidado atravessa a nossa vida do nascimento à morte. Muita gente confunde cuidado com dependência. Não é disso que se trata. Minha mãe sempre me dizia isso: “estou dando muito trabalho”. Todo mundo dá trabalho para todo mundo. Criança dá trabalho. Bebê dá trabalho. Adolescente dá trabalho. Adulto dá trabalho. Nós temos uma interdependência. Só sobrevivemos como humanidade pela relação de cuidado.

Um casal LGBTQUIAPN+ não tem um filho por acidente. Temos algo a aprender com esse desejo de ser pai que se manifesta em um projeto de família

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