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ConversasMilton Cunha: "Virei carnavalesco por ver a grandeza cultural dessa vitrine fabulosa"
Comentarista, acadêmico e psicólogo diz que festa está em eterna negociação da tradição com a modernidade e que força do povo negro e proximidade com comunidade LGBTQIA+ devem dar o tom de 2025
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Comentarista, acadêmico e psicólogo diz que festa está em eterna negociação da tradição com a modernidade e que força do povo negro e proximidade com comunidade LGBTQIA+ devem dar o tom de 2025
Milton Cunha é a cara do Carnaval. Mais que isso, é também a voz. Neste ano, além da presença constante como comentarista em todos os dias da festa na TV Globo, o trabalho deste carnavalesco começou mais cedo: é apresentador das séries “Enredo e Samba”, em que mostra o trabalho das escolas cariocas no “RJTV 1ª edição”; e “Apoteose do Samba: Carnaval de lá pra cá”, em que resgata as seis décadas da festa transmitida pela televisão.
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Cunha, que é também cenógrafo, graduado em psicologia pela Universidade Federal do Pará, com mestrado e doutorado e letras e especialização em moda, avalia que nestes 60 anos o Carnaval mudou mas não perdeu sua eterna negociação entre tradição e modernidade. “O que não se pode perder é a força do desfilante, a comunidade que se exibe. O talento da negritude não pode se perder”, afirma em entrevista a Gama. Neste ano, os principais destaques das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo são a força do povo negro e a luta por um país não racista e mais inclusivo para a comunidade LGBTQUIA+. “Se isso reflete o Brasil, é o Brasil de uma inteligência negra, onde a voz do povo periférico se faz presente e ouvida.”
Hoje aos 62 anos, Cunha recorda que chegou ao Rio de Janeiro aos 19 porque queria seguir carreira artística. Ao chegar, conheceu as pessoas certas e logo se encantou pela noite carioca, caindo no encantamento do samba. “Eu virei carnavalesco por ver a grandeza cultural dessa vitrine fabulosa. Eu queria fazer teatro, cinema, ópera, balé, e quando eu vi o desfile da escola de cinema, eu me digo, ‘Nossa, isso é o máximo!’.”
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Enraizado há décadas na cultura carioca, o carnavalesco reconhece as complexidades e contradições da festa e não nega a proximidade dela com o jogo do bicho, mas diz que não se envolve. “Eu sou um estudioso, eu sou um admirador da beleza, eu não me envolvo, não. Não sei nem nada de nada”, diz Cunha, um dos entrevistados da série “Vale o Escrito”, que apresenta a genealogia da contravenção no Rio de Janeiro.
Neste Carnaval, solteiro pela primeira vez em 15 anos, além de trabalhar, ele espera se divertir: “Que Momo e Dionísio me possuam da forma melhor que eles puderem, mais bem-humorado. Adoro o Carnaval. Adoro a brincadeira, confete serpentina, purpurina, adoro!”.
Cada vez que uma escola de samba volta a desfilar, ela está atualizando a sua tradição
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G |Você está no ar com um programa de TV em que relembra as transformações das escolas de samba ao longo de 60 anos. Como o Carnaval mudou nesse tempo, evoluiu para melhor? O que temos hoje que é melhor, e o que perdemos que faz falta?
Milton Cunha |Eu acho que mudou bastante: as baterias aceleraram, os sambas encurtaram, as letras ficaram mais fáceis, mais chiclete, as fantasias subiram, os carros alegóricos ficaram gigantescos. Mas o que não pode se perder é a força do desfilante, a comunidade que se exibe. O talento da negritude não pode se perder. Mudou, mas preservar a base, as raízes, é importantíssimo. Hoje, não é que esteja melhor ou pior, é que a escola de samba sempre negociou a sua tradição com a modernidade; cada vez que ela volta a desfilar, ela está atualizando a sua tradição, então é um processo dialético que se retroalimenta. Muda o que emplaca, o que faz sucesso; não muda aquilo o que fracassa.
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G |Se o Carnaval é o retrato de uma época, qual é a sua expectativa para o de 2025? O que ele pode falar da gente?
MC |A principal mensagem é por um Brasil não racista e mais inclusivo para os LGBTQIABN+ — dez enredos são de negritude, um é LGBT. O Carnaval, o desfile das escolas de samba da atualidade, é um ato político. Não político-partidário, mas um ato político porque coloca as questões e a voz da periferia. Se você for analisar o Brasil pela avenida dos desfiles, falando em Rio e São Paulo porque eu comento os dois, são 26 comunidades de alto teor artístico em competição. Se isso reflete o Brasil, é o Brasil de uma inteligência negra, onde a voz do povo periférico se faz presente e ouvida.
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G |No programa de TV, você propõe um balanço entre o passado e o futuro das escolas de samba. O que imagina para o futuro?
MC |Eu desejo que o futuro valorize a estrutura narrativa da Escola de Samba. Eu desejo que a gente continue com as comunidades, os artistas populares, as estrelas do espetáculo, que elas continuem se apresentando em glória. O futuro é a tensão da negociação continuar, mas eu desejo a vitória do povo.
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G |Como no futebol, quem comenta o Carnaval deve sofrer um pouco se tem uma escola de samba do coração, né? Como você faz para manter seus comentários imparciais apesar da paixão? (E qual a sua escola do coração?)
MC |Minha escola de coração é a Beija-Flor, que me lançou, e eu também sou União da Ilha. Mas isso não tem nada a ver com comentário. O comentário é um ato de amor pelas comunidades, é um ato de amor pelo desfile, pouco importa para quem você torce. O que importa é se você pactua sobre a grandeza cultural do espetáculo. Quando eu estou ali comentando, eu não quero saber se é Beija-Flor, se é Mocidade, se é Mangueira. Eu quero é dizer da grandeza daquela gente.
Esse personagem, essa exuberância é muito mal vista pelo hétero normativo
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G |Você se apaixonou pelo Carnaval ao ter contato com o Carimbó, no Pará, onde você nasceu. Pode contar como foi isso? Ainda se sente próximo dessa cultura?
MC |As manifestações artísticas dos indígenas, dos paraísos da minha infância, os pássaros de São João, os ranchos de Carnaval são decisivos na minha formação estética, na minha admiração pela beleza. É claro que a chita, a cor, as bromélias, as araras, os tucanos, tudo isso está no meu imaginário de esteta. É uma influência total do Pará. Eu fico lá até os 19 anos, então, é uma influência total.
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G |E como (e quando) caiu de amores pelo samba?
MC |Eu saí de Belém para tentar a carreira artística no Rio. Cheguei menino, muito pobre, com uma mão na frente e outra atrás e comecei a trabalhar na noite, no entretenimento com [o empresário espanhol] Chico Recarey. Fiz de tudo, fui porteiro, lavador de prato, produtor de moda, apresentador, acendia a luz da boate, cobrava bilheteria, enfim, fiz tudo. Nessa, eu conheci a Fabíola [Oliveira], que viria a casar com o Anísio [Abraão David], uma modelo muito linda, casada até hoje com ele. Eles me convidaram para virar carnavalesco. Eu tinha uma carreira na moda, eu tinha uma carreira na universidade, eu tinha uma carreira no entretenimento, e eu virei carnavalesco por ver a grandeza cultural dessa vitrine fabulosa. Então, eu queria fazer teatro, cinema, ópera, balé, e quando eu vi o desfile da escola de cinema, eu me digo: “nossa, isso é o máximo”.
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G |Você tem uma formação acadêmica muito rica e diversa. Como ela é importante para o seu trabalho no Carnaval? Você tem a chance de utilizar seus conhecimentos em psicologia e literatura no trabalho que faz na TV e em outros meios em que comenta o evento?
MC |Essa formação cultural abre a possibilidade de pensar tudo. O acesso ao conhecimento, escutar os grandes mestres e ler, transitar pelo mundo da cultura é imprescindível para um comentarista da cultura popular brasileira porque tudo está interligado. Todas as formas de conhecimento, todas as expressões de arte dialogam. Essa intencionalidade de teatro, cinema, ópera, balé, literatura é total. Então, essa robusta formação acadêmica me prepara para falar cada vez mais simples, mais direto, celebrar mais o meu povo, a minha gente.
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G |Já sentiu algum tipo de desconfiança da academia pela sua atuação no Carnaval ou pela sua personalidade exuberante?
MC |O tempo inteiro, esse personagem, essa exuberância é muito mal vista pelo hétero normativo. Muito se discrimina, muito se aponta, muito se torce o nariz, não se contrata. “Ah, se você fosse mais discreto…” Meu amor, eu não passo pela tua legitimação, eu me legitimo. O meio acadêmico… Aliás, tudo é muito hétero normativo, é muito pseudo sério. E é tudo mentira, eles não são sérios, eles fingem, são hipócritas. Só que eu me joguei: ou eu dava certo, ou ninguém gostaria de mim. Eu também acreditei, eu me joguei, e hoje, 62 anos, eu estou numa fase bacana. Mas são seis décadas de luta, né? Então, sim, é bem difícil.
O bloco é a própria decisão de diversão. O bloco, no Carnaval, é a liberdade absoluta
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G |O Carnaval de rua tem crescido muito em cidades que antes não tinham tradição, como São Paulo, Fortaleza. Qual a sua avaliação desse fenômeno?
MC |O crescimento do Carnaval de rua reflete a vontade da população de gerir a sua própria diversão: você escolhe o teu bloquinho, você escolhe a tua fantasia. É uma forma de se aglomerar em público depois dos tempos sombrios da pandemia. O bloco atesta a decisão pessoal de ir aonde quiser, ser dono do seu destino. Claro que isso está crescendo, porque cada vez mais os humanos estão descobrindo que legislam sobre seu próprio corpo, seu sonho. Hoje ninguém mais está alugando a sua existência para cumprir tabela de outros. O bloco é a própria decisão de diversão. O bloco no Carnaval é a liberdade absoluta: você dança o que você quer, você bebe o que você quiser, você vai para onde você quiser, né? É muito o existir plenamente.
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G |A relação das escolas de samba com o jogo do bicho são íntimas. A série “Vale o Escrito”, da Globo, expõe isso muito bem. Você inclusive deu entrevista para essa série. Mas já declarou também que não se envolve com essa parte, que quer o glamour da festa. Como essas duas coisas podem estar separadas?
MC |Assim como está separado no resto da sociedade, da vida, da realidade. Como é que a corrupção está separada dos políticos? Que teatro é esse? Como é que o dinheiro sujo está separado das igrejas que cobram dízimo das autoridades religiosas? Parece que tem um pacto social que quer dizer que o dinheiro do jogo do bicho é sujo, quando na verdade o dinheiro é sujo de uma forma geral, porque a violência, os assassinatos na política, no poder, é tudo tão sujo que vai querer qualificar só o bicho? Qualifica tudo! Qualifica polícia, advogado, sistema prisional. Eu não acho que isso seja exclusivo da escola de samba, sabe? Eu acho que está em tudo. Em cada lugar desse que você estiver, você faz o teu. Qual é o teu? Você quer se envolver até onde? Você quer pegar o lugar de quem? Para quê? Por quê? Tem uma hipocrisia social aí muito grande. Então, eles lá e eu cá. Eu sou um estudioso, eu sou um admirador da beleza, eu não me envolvo, não. Não sei nem nada de nada.
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G |Você sempre deixa mensagens pros seus seguidores, algumas motivacionais, outras reflexões. Que mensagem deixa pro folião de 2025?
MC |Aproveitem vossas vidas dentro da verdade de vocês, dentro do conforto da pele de vocês. Façam o melhor que vocês puderem, porque passa rápido. Daqui a pouco você vai se olhar no espelho e vai ver a criança que você foi, sonhadora, que tinha um projeto de felicidade individual para você. Tomara que você não perca tempo ouvindo a voz da normatividade, que quer que você seja igual a teu pai, tua mãe. É muito vizinho, é muito juiz, é muito diretor, é muita polícia: todo mundo quer legislar sobre a vida da gente. Então não deixa, não deixa. Vai atrás do teu sonho, vai atrás da tua felicidade. Seja de verdade, não seja pela metade não. Não caiba no projeto de ninguém, porque a única pessoa que pode ser você é você. Seja você da melhor forma que você puder. Beijos, bom Carnaval. É melhor feito do que perfeito.
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G |Este é seu primeiro Carnaval solteiro depois de 15 anos de casamento? Qual a expectativa?
MC |É continuar sendo bem feliz, é continuar vivendo dentro dos meus parâmetros. Enquanto me interessou estar casado e passando os carnavais com o meu companheiro, fui inteiro. Quando isso já não mais me aplacava, completava, quando já não era mais bacana, aí não. Agora estou na folia, estou no desejo, estou na brincadeira, estou no aproveitar a vida mesmo. As expectativas são as melhores possíveis. Que Momo e Dionísio me possuam da forma melhor que eles puderem, mais bem-humorado. Adoro o Carnaval. Adoro a brincadeira, confete serpentina, purpurina, adoro! Adoro os bailes, os blocos, as escolas de samba, os coretos. Adoro tudo, então quero me divertir.
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CAPA Vai fazer o que no Carnaval?
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