O futuro é chinês?
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“Ne Zha 2” (2025). Beijing Enlight Media/Divulgação

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Reportagem

Já viu o novo blockbuster chinês?

Apesar de sua indústria de cinema gigantesca, China ainda luta para exportar suas superproduções, mas garante presença cultural no mundo com sci-fi, animações e games

Leonardo Neiva 03 de Agosto de 2025

Já viu o novo blockbuster chinês?

Leonardo Neiva 03 de Agosto de 2025
“Ne Zha 2” (2025). Beijing Enlight Media/Divulgação

Apesar de sua indústria de cinema gigantesca, China ainda luta para exportar suas superproduções, mas garante presença cultural no mundo com sci-fi, animações e games

Se alguém te perguntar qual é a animação de maior bilheteria de todos os tempos, talvez você se sinta tentado a responder algum filme da Pixar, como “Divertida Mente 2” (2024). Ou vai se lembrar do grande sucesso de “Frozen” (2013) e da eterna popularidade da franquia “Shrek” (2001). Mas dificilmente responderá “Ne Zha 2” (2025), superprodução chinesa que acaba de arrecadar mais de US$ 2 bilhões. E um detalhe: tudo isso só na China.

Uma das razões para esse desconhecimento é que o filme nem estreou na maior parte do mundo. No Brasil, a previsão é que chegue aos cinemas em setembro. O longa é o exemplo mais recente da enorme força do mercado audiovisual chinês, responsável por algumas das maiores bilheterias atuais sem que muitos filmes nem saiam de casa. Trata-se de um mercado com muralhas praticamente intransponíveis, que permite a estreia de apenas 34 longas estrangeiros por ano, geralmente grandes blockbusters de Hollywood. Não à toa, “Vingadores: Ultimato (2019)” é o único penetra no top 10 de bilheterias da China.

Mas por que um mercado audiovisual de tanto sucesso chega tão pouco até nós? Deixando de lado grandes cineastas cult como Jia Zhangke e Wong Kar-Wai, que ficam longe dos números astronômicos do cinema comercial, você se lembra de ter ido ao cinema assistir a uma superprodução da China?

“Esse investimento em filmes com grande valor de produção é algo que vem aparecendo nos últimos 15 anos na China”, revela Cecília Mello, professora de cinema na USP, especialista em cinema chinês e asiático. “Antigamente, havia uma produção saudável, mas o blockbuster, como a gente conhece do modelo hollywoodiano, não existia na China.”

Nos anos 1990, a indústria cultural passou a ser considerada um setor tão estratégico quanto a do aço

A grande maioria dos filmes e animações chineses era feita com baixo custo e de forma rápida, visando abastecer o mercado local. A mudança aconteceu nas últimas décadas, com o investimento em tecnologia no audiovisual, considerada central para a política do país, diz Mello. A estratégia foi adaptar técnicas estrangeiras à realidade chinesa, com o intuito de bater de frente com as produções de Hollywood.

Esse movimento de valorização da cultura nacional começou na China como política do governo nos anos 1990. Foi ali que a indústria cultural passou a ser considerada um setor tão estratégico quanto a do aço, aponta Rafael Dirques Regis, engenheiro de produção e pesquisador da cultura asiática no NECO (Núcleo de Estudos Culturais Orientais da CEFET/RJ).

E essa aposta no soft power — poder e política exercidos pela cultura — só se intensificou. O 14º Plano Quinquenal — diretriz que norteia o desenvolvimento econômico e social do país —, válido de 2021 a 2025, estabelece como meta ampliar a influência da cultura chinesa no globo. Esse investimento já tem tido resultados, ao menos financeiros: a indústria cultural chinesa cresce de forma sólida ano após ano, alcançando uma receita recorde de R$ 11,5 trilhões em 2024.

O Instituto Confúcio, fundado pelo Ministério da Educação da China em 2004 para levar a língua e a cultura chinesa ao mundo, é um dos maiores exemplos dessa política. Hoje, há cerca de 541 unidades espalhadas em 162 países. No Brasil, são 11, instalados em instituições de ensino superior.

O professor de relações internacionais Luís Antonio Paulino, diretor do Instituto Confúcio da Unesp — o primeiro do Brasil, criado em 2008 —, destaca o papel da organização na popularidade de manifestações tradicionais da cultura chinesa: apresentações de companhias de dança e até de ópera.

“O conhecimento mútuo da cultura e da língua é um aspecto fundamental para qualquer outro tipo de relação. Na medida em que a China ganha mais importância no mundo, se torna cada vez mais importante ter a sua visão de mundo e a sua cultura melhor compreendida“, afirma Paulino, que aponta inclusive um aumento do interesse no aprendizado do mandarim entre os brasileiros.

A grande muralha contra a China

Por que então não sentimos essa invasão cultural chinesa no nosso dia a dia? Segundo Mello, há vários motivos. Além de uma parcela da indústria estar voltada ao enorme mercado interno, a especialista no cinema da China aponta que o conteúdo de boa parte das produções que vêm do país ainda é uma barreira.

“Muitos blockbusters chineses têm conteúdo político, ideologizado e nacionalista, bastante simplório e sem tanto apelo para o público internacional”, explica a docente da USP. Há exemplos na lista de filmes chineses de maior bilheteria. “A Batalha no Lago Changjin” (2021), que só perde para “Ne Zha 2”, é um longa encomendado pelo Partido Comunista Chinês, que retrata de forma bastante politizada a luta dos soldados do país contra as forças norte-americanas na Guerra da Coreia.

Embora haja muitos exemplos hollywoodianos igualmente políticos e ufanistas, a produção chinesa esbarra também no fato de o mercado audiovisual global ser historicamente dominado pelos EUA e na resistência de plateias que cresceram acompanhando outros tipos de narrativa.

O cientista político e professor de relações internacionais da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Maurício Santoro já sentiu essa resistência na pele. “Tenho uma experiência de vários anos recomendando filmes chineses para alunos e parentes, que geralmente têm reações muito negativas”, conta. Apesar de considerá-los longas interessantes, Santoro destaca as diferenças cruciais na linguagem e conteúdo.

“A gente está acostumado com a narrativa hollywoodiana que é uma celebração da individualidade, daquele homem ou mulher que desafia a sociedade em nome da sua visão de mundo”, explica o cientista político. “Já as histórias chinesas trazem sacrifícios de um herói pela sua família ou pátria. São muito mais moralistas e puritanas em termos de sexualidade.”

Cena do filme
Cena do filme “A Batalha no Lago Changjin” (2021), que tem fortes traços nacionalistas
Pequim Dengfeng International Culture Communications Company/Divulgação

Sci-fi e animação

A cultura chinesa não se reduz ao cinema — ou aos bonecos Labubu, que tornaram bilionária a multinacional chinesa Pop Mart. Há sim uma gama de produções em diversos setores que têm conseguido ultrapassar os limites do país. Santoro, que ministra uma aula sobre as manifestações culturais dos BRICs, tem interesse especial pela literatura chinesa.

A China recebeu seu primeiro Nobel de Literatura apenas na década passada, com a vitória de Mo Yan em 2012. O autor é conhecido por sua mistura de história e contos populares, com um estilo comparado ao realismo mágico de Garcia Márquez. O escritor chinês Gao Xingjian, que levou o prêmio em 2000, é naturalizado francês e geralmente ignorado pela China.

Santoro também destaca a ficção científica chinesa, que tem ganhado visibilidade no mundo a partir da obra do escritor Cixin Liu, autor de “O Problema dos Três Corpos” (Suma, 2016). “Para mim, é uma obra comparável às melhores de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Um best-seller global que veio da China”, aponta.

O livro foi adaptado para uma minissérie bastante ocidentalizada da Netflix, em que parte da ação é deslocada para Londres. A China também fez uma versão própria, além de ter adaptado outro livro de Liu para a franquia de cinema “Terra à Deriva” (2019), outro recordista de bilheteria.

O sucesso de “Ne Zha 2”, aliás, não é um fenômeno isolado quando se fala em animação chinesa. Filmes como “Big Fish & Begonia” (2016), “A Lenda da Serpente” (2019) acumularam elogios e receberam distribuição pelo mundo.

São gêneros muitas vezes voltados a um público jovem e que geralmente ocultam seu conteúdo político por trás de temas tecnológicos ou fantasiosos, escapando da veia abertamente nacionalista da produção chinesa, aponta a especialista em cinema chinês Cecília Mello. Isso ajuda a explicar a maior facilidade para encontrar público no cenário global. “A China vem apostando muito nisso, e acho que o potencial é grande.”

A animação chinesa
A animação chinesa “Big Fish & Begonia” (2016) ganhou distribuição global na Netflix
Netflix/Divulgação

O anime chinês

Não tem como falar em animações chinesas hoje sem citar o caso dos donghuas — séries semelhantes aos animes japoneses, só que feitas na China. O criador de conteúdo Gustavo Barbosa — o Guto do canal Cronosfera, um dos mais populares sobre o tema — começou a prestar atenção no mercado chinês lá em 2016, com o lançamento da animação “The Outcast” (2015-2023). “Agora a gente está no ápice, um momento em que vários e vários [donghuas] estão chegando e sendo distribuídos no Ocidente de maneira muito rápida”, conta.

“The Outcast” acabou se desdobrando em adaptações live action, livros e games, o que abriu seus olhos para o desenvolvimento dessa indústria já na época e a visão comercial dessas produções enquanto propriedades intelectuais. Agora, os donghuas são a principal surpresa da temporada 2025 num setor com forte histórico de dominação nipônica.

“Lord of Mysteries” (2025-), por exemplo, acumula elogios por seus visuais em 3D e pela trama complexa. Baseada em uma web novel chinesa — romance publicado na internet —, mescla elementos de terror e sci-fi para contar a história de um viajante de outra realidade que resolve mistérios sobrenaturais, numa versão alternativa da Londres vitoriana. Já “To Be Hero X” (2025-) se passa numa Terra em que super-heróis batalham para ascender ao posto de X, o mais forte de todos.

A aposta chinesa em animações para o consumo na internet, em streamings como Crunchyroll e Netflix, é recente, com estúdios que surgiram na década de 2010 após um forte investimento do governo, explica o pesquisador de cultura asiática Rafael Dirques Regis. Só entre 2016 e 2020, a receita com a exportação de animações chinesas passou de US$ 5 milhões para US$ 36 milhões, um crescimento de 724%.

Embora tenham semelhanças com os animes tradicionais, os donghuas também contêm diferenças importantes. Guto afirma que as animações chinesas apresentam um estilo narrativo e um timing diversos, muitas vezes jogando o espectador no meio dos acontecimentos sem muitas explicações prévias.

“No começo, eu achava estranho e, por consequência, errado”, admite o criador de conteúdo, que mais tarde mudou sua visão. “As culturas são diferentes. Não é que as obras que vinham da China estavam erradas, elas eram puramente diferentes.” Até a língua pode causar estranhamento no início. “É mais palatável o jeito que o japonês é pronunciado, porque a gente, no Brasil, usa as exatas mesmas sílabas. Quando cai para o mandarim é diferente, tem muitas variações de sons.”

Avanço estratégico

Ele destaca nos donghuas um uso de técnicas visuais inéditas nos animes. “Tudo está cheio de detalhes, luzes, movimentações de câmera que não são habituais para esse estilo de animação.” Em parte, porque há uma lógica na indústria japonesa de reduzir custos, algo que não acontece na realidade chinesa. “‘Lord of Mysteries” veio com o oposto dessa situação. Disseram: a gente tem recurso, vamos fazer tudo o que der o tempo todo.” Esse apuro visual hoje se destaca em cortes nas redes sociais, que ajudam a popularizar os novos títulos.

O avanço é resultado da estratégia chinesa dos “clusters culturais”. “É uma política econômica e industrial que junta empresas correlacionadas dentro de uma mesma área geográfica”, diz Regis. No setor, significa aproximar empresas de animação de indústrias tecnológicas da mesma área. “Existe um cluster cultural em Xangai, onde foi desenvolvido um dos jogos chineses de maior sucesso. Tem até universidades voltadas para o setor cultural, que unem desenvolvimento de animação, programação e formação técnico-científica.”

O especialista ainda afirma que a animação é considerada um setor estratégico por atingir de crianças a adultos. Ao trazer narrativas fantasiosas, há uma liberdade maior em relação ao conteúdo, por vezes fugindo das restrições do governo. É possível até abordar temas espinhosos, como dramas da juventude ou críticas à lógica das redes e das grandes corporações — em “To Be Hero X”, os heróis se fortalecem através do reconhecimento midiático e do trabalho de poderosas agências de marketing.

“Eu costumo dizer de brincadeira — talvez nem tão de brincadeira assim — que essa é a última década de grande poder do Japão nos animes”, declara Guto. Hoje há uma escassez de títulos inovadores na indústria japonesa, ao mesmo tempo em que produções de sucesso como “Demon Slayer” (2019-2024) e o aparentemente eterno “One Piece” (1999-) se encaminham para o fim. Enquanto isso, a China chega com uma indústria fortalecida e títulos ousados, que já fazem sucesso no território chinês. “Tem muito recurso, muito espaço, e os outros mercados, por mais que pareçam gigantescos, têm uma tendência a diminuir com o passar do tempo.”

O donghua
O donghua “To Be Hero X” (2025-), que mescla estilos visuais, é um dos títulos mais elogiados da temporada
BeDream/Divulgação

Novidade e tradição

Regis também destaca, dentro dessa realidade, a força recente da indústria de games desenvolvidos na China, que chegou nos últimos anos ao topo do mercado asiático, ultrapassando o Japão. A estrada para esse sucesso passa por jogos desenvolvidos para plataformas móveis, como “Genshin Impact”, e voltados para o público feminino, a exemplo de “Infinity Nikki”. “Como houve muita dificuldade para introduzir videogames na China, a maioria das pessoas joga no celular”, diz o pesquisador.

Dentro dessa indústria cultural, um dos temas mais presentes, de filmes a jogos, é bastante tradicional: a abordagem de lendas do folclore chinês. O próprio “Ne Zha 2” é baseado em um romance do século 16. A tradução de livros chineses clássicos para o português inclusive tem se intensificado nos últimos anos, aponta o cientista político Maurício Santoro.

“A obra completa do Lu Xun (1881-1936), o mais importante escritor chinês do século 20, está chegando agora ao Brasil. É super importante para entender a China dos anos 30, os conflitos imperialistas e nacionalistas”, afirma.

Um dos momentos históricos de destaque do cinema da região aconteceu exatamente pela tradição, com os filmes wuxia, gênero que surgiu na China em 300 a.C. e ganhou o mundo na década de 1960, unindo elementos de fantasia e artes marciais. A onda antecipou os longas de kung-fu de Hong Kong e o surgimento de estrelas como Bruce Lee (1940-1973).

No entanto, em relação ao momento atual, Santoro faz uma ressalva: “Tudo isso é algo que um pequeno grupo da população acompanha. Não chega perto da presença cultural dos EUA e dos países europeus no Brasil.”

Ainda é difícil apontar o quanto a cultura chinesa deve ultrapassar as fronteiras ao longo dos próximos anos. Cecília Mello acredita que essa expansão vai acontecer justamente a partir de gêneros como ficção científica, animação e até a comédia, que fogem das abordagens mais políticas. “Eu vejo que, de repente, a China está ficando ‘cool’. E o cinema, o audiovisual como um todo deve entrar nessa.”

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