CV: Elisio Lopes Jr.

Primeiro autor negro a assinar uma novela na Globo, o roteirista e dramaturgo, no ar com “A Nobreza do Amor”, fala sobre carreira, racismo estrutural, missão e as imagens que quer ver na tela

Ana Elisa Faria 25 de Março de 2026

“Vim de muito longe: não foi só da periferia, mas da periferia do Nordeste”, diz o roteirista, dramaturgo e diretor artístico Elisio Lopes Jr. A frase ajuda a condensar o tamanho da travessia de quem começou no teatro baiano na década de 1980, passou pela comunicação, escreveu programas de tevê, dirigiu e roteirizou projetos musicais e, aos poucos, foi abrindo caminho até um dos espaços mais simbólicos para um profissional da escrita brasileiro — “a maior janela de contação de histórias do país”, como descreve.

LEIA MAIS NA GAMA

Nos últimos anos, essa trajetória ganhou novos capítulos. Em 2023, ele se tornou o primeiro autor negro a assinar uma novela na TV Globo, com “Amor Perfeito”, escrita com Duca Rachid e Júlio Fischer. No teatro, dirigiu e assinou a dramaturgia de “Torto Arado – O Musical”, adaptação do romance de Itamar Vieira Junior. Agora, repetindo a parceria com Rachid e Fischer, está de volta ao horário das 18h com “A Nobreza do Amor”, que faz uma ode à afro-brasilidade.

Na obra, romance, memória e fabulação popular se cruzam em uma trama que aproxima o Brasil e o Nordeste da África, deslocando o imaginário da realeza para um território ainda raro na televisão aberta: o da nobreza negra. “O continente africano não é um cenário, mas um personagem central da história. Ele tem textura, cor, cheiro e vontade”, comenta. A grande intenção do trabalho, segundo ele, foi apresentar às crianças brasileiras uma princesa preta — vivida por Duda Santos. “Para que [elas] possam reconhecer que uma princesa pode ser preta, linda, batalhadora, feliz, amada e desejada.”

Receba nossos melhores conteúdos por email

Inscreva-se nas nossas newsletters


Obrigada pelo interesse!

Encaminhamos um e-mail de confirmação

Mas a história vai além disso. “A escravização arrancou pessoas do continente africano e roubou delas também a identidade, o nome, a origem e a possibilidade de retorno. Isso me toca profundamente”, conta.

Essas questões iluminam um projeto autoral interessado em ampliar as imagens de negritude que chegam à tela, sem limitar personagens pretos à dor, à falta ou ao trauma. “São essas histórias que desejo contar. O grande desafio é me colocar e me manter no mercado sem abrir mão das escolhas editoriais e das histórias que quero narrar.”

Divulgação/TV Globo

Elisio Lopes Jr. fala, nesta entrevista a Gama, sobre formação, racismo estrutural, as missões com o seu ofício, aprendizado vocação e permanência.

Não desejo escrever apenas sobre pessoas sendo discriminadas. Quero escrever sobre nobres pretos, intelectuais pretos

  • G |Como você chegou até aqui?

    Elisio Lopes Jr. |

    Me formei em comunicação e fiz pós-graduação em cultura e sociedade. A minha história começa pela arte. Primeiro no teatro amador, como ator, até perceber que o palco não era o meu lugar. Eu não era feliz em cena, mas era muito feliz no teatro. Faço parte de uma geração potente do teatro baiano, com nomes como Lázaro Ramos, Wagner Moura, Vladimir Brichta e Emanuelle Araújo. Era um movimento efervescente na Bahia, num momento forte de profissionalização, em que muita gente passou a viver da própria arte. Vivi isso do fim dos anos 1980 até toda a década de 2000. Depois, parte desse grupo migrou para o Sudeste e para a TV, e o audiovisual entrou no nosso horizonte de possibilidades. Costumo dizer que vim de muito longe: não foi só da periferia, mas da periferia do Nordeste. Com o tempo, passei a escrever roteiros, trabalhei no “Espelho” [programa do Canal Brasil apresentado por Lázaro Ramos], dirigi e roteirizei shows e DVDs de grandes artistas, como Ivete Sangalo, Carlinhos Brown e Mariene de Castro. Toda essa experiência foi me dando bagagem e me enriquecendo.

  • G |E como foi o processo de migrar para a teledramaturgia?

    ELJ |

    Passei dez anos trabalhando em programas como “Espelho”, “Aglomerado” e projetos do Canal Futura até chegar à TV Globo, onde completo uma década com “A Nobreza do Amor”. Entrei no “Esquenta”, um dos poucos com criadores pretos na estrutura da emissora, depois desenvolvi o “Lazinho com Você” e participei da criação de outros formatos. A migração para a dramaturgia veio pouco antes da pandemia, quando saí da área de variedades para me dedicar a séries e desenvolver projetos de longas-metragens. Nesse processo, conheci a [autora] Duca Rachid, que supervisionava uma série em que eu era o chefe da sala de roteiro. Quando ela perguntou se eu tinha interesse em fazer novela, respondi que um contador de histórias brasileiro não pode recusar a maior janela de contação de histórias do país sem antes experimentar. Acabei me apaixonando pelas novelas, e também por Duca e pelo [autor] Júlio Fischer, parceiros na minha primeira experiência como autor [na obra “Amor Perfeito”, de 2023].

  • G |Com “Amor Perfeito”, você se tornou o primeiro autor negro a assinar uma novela na TV Globo. Você enfrentou preconceitos?

    ELJ |

    Infelizmente, ser o primeiro autor negro a assinar uma novela só revela o tamanho do buraco da ferida histórica que ainda estamos tentando tapar. Em um país de maioria preta, como é possível que quem pensa as histórias, decide os personagens e define os caminhos das tramas que entram diariamente na casa dos brasileiros não se pareça com o próprio Brasil? Esse é um lugar de poder, e lugares de poder raramente são abertos com facilidade. Existe um racismo estrutural que impede que outras pessoas como eu cheguem a esse espaço. Estar aqui tem força justamente por isso: para que essas histórias cheguem ao público e agradem, para que as pessoas se identifiquem com esses personagens e para que outros autores negros também possam ocupar esse lugar.

Existe um racismo estrutural que impede que outras pessoas como eu cheguem a esse espaço

  • G |Quais que são os principais desafios do seu ofício? E como você lida com eles?

    ELJ |

    O audiovisual é um mercado muito competitivo. Há muita gente criando, muitas ideias em disputa, e ganhar a concorrência para desenvolver uma novela é difícil. Em “A Nobreza do Amor”, a gente avança porque propõe algo inédito: o diálogo entre o Brasil, o continente africano e o Nordeste. Essa é uma mistura original. E, quando o protagonismo preto aparece associado à realeza, isso ainda é novo para boa parte da audiência brasileira, embora a história do continente africano comprove que a realeza negra sempre existiu. Então as perguntas são: por que essas histórias nunca chegaram às telas? Por que nunca tivemos uma princesa negra na televisão brasileira? Isso envolve escolhas, política educacional, projeto de país. O desafio, para mim, é seguir no mercado como um roteirista preto que escolhe contar histórias de pessoas que se parecem comigo.

  • G |Escolher contar essas histórias é a sua missão na carreira?

    ELJ |

    Totalmente. Se não for para contar histórias que façam diferença nesse sentido, não faz sentido que seja eu. Uma decisão central da minha carreira é sempre escrever histórias em que eu me veja, em que eu veja pessoas como eu, em que eu seja bonito, desejado, complexo, em que os assuntos passem por mim e que a pauta racial pelo olhar branco não seja o assunto da minha vida. Não desejo escrever apenas sobre pessoas sendo discriminadas. Quero escrever sobre nobres pretos, intelectuais pretos, pessoas que batalharam e venceram. O grande desafio é me colocar e me manter no mercado sem abrir mão das escolhas editoriais e das histórias que quero narrar.

     

  • G |Você tem ou teve teve algum mentor ou alguma mentora na carreira?

    ELJ |

    Muitos. Ninguém constrói uma carreira sozinho. Hoje tenho a oportunidade de trabalhar com duas grandes referências da dramaturgia, Duca Rachid e Júlio Fischer. São pessoas que já viveram essa profissão em diferentes posições e me ensinam a enxergar o caminho para fazer melhor o meu trabalho. Me sinto muito honrado por tê-los como parceiros e mestres. Tenho também um grande mestre do palco e da vida, o Zebrinha [José Carlos Arandiba]. Ele me ensinou a valorizar a minha criação e a entender que o melhor que eu tinha a oferecer era quem eu sou, a minha própria grandeza. Há ainda muitos diretores e artistas que me perceberam ao longo da trajetória e ajudaram a construir essa minha escrita comprometida com a identidade brasileira.

Uma decisão central da minha carreira é escrever histórias em que eu me veja, em que eu seja bonito, desejado, complexo

  • G |Quais foram os seus maiores aprendizados até aqui?

    ELJ |

    Aprendi que o que é seu está guardado. Não adianta desejar o que é de outra pessoa, porque cada trajetória é única, e, quando você trilha o seu caminho, entende o que cabe e o que não cabe para você. Também aprendi a respeitar a minha intuição. É por meio dela que o olhar espiritual, o olhar para o invisível, se manifesta na minha vida, e ela diz muito sobre os caminhos que devo seguir. Outro aprendizado essencial é que fazer o que se ama não dispensa disciplina. Sou absolutamente dedicado ao que faço. Não abro mão de nenhuma cena, de nenhum diálogo, porque tudo importa. Amo o que faço, mas esse amor exige empenho diário. E tenho muito claro que quero que minhas filhas sintam orgulho de mim. Quero que a minha história faça sentido para elas e que esse seja um legado importante da minha trajetória, além da casa própria.

  • G |O que as pessoas vão gostar de assistir em “A Nobreza do Amor”?

    ELJ |

    Uma das coisas que entendi em “A Nobreza do Amor” é que o continente africano não é um cenário, mas um personagem central da história. Ele tem textura, cor, cheiro e vontade. A grande intenção da novela foi trazer uma princesa preta para o nosso imaginário, para que as crianças brasileiras possam reconhecer que uma princesa pode ser preta, linda, nobre, batalhadora, feliz, amada e desejada. Mas a história vai além disso. A escravização arrancou pessoas do continente africano e roubou delas também a identidade, o nome, a origem e a possibilidade de retorno. Isso me toca profundamente. A novela também parte dessa pergunta: o que desse continente permaneceu no Brasil? Queremos abraçar esse público e mostrar que este é um país profundamente africano, independentemente da cor da pele. Nos detalhes estéticos, visuais e emocionais, a expectativa é que o público reconheça um pouco dessa brasilidade e do que cada brasileiro tem de africano na sua história.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação