Como envelhecer bem?
Icone para abrir

4

Repertório

Nomes que viveram (ou vivem) o auge na carreira após os 50

Dos astronautas da missão Artemis 2 a Tânia Maria, diferentes trajetórias mostram como maturidade, repertório, oportunidades e tempo vivido impulsionam grandes realizações

Ana Elisa Faria 12 de Abril de 2026

Nomes que viveram (ou vivem) o auge na carreira após os 50

Ana Elisa Faria 12 de Abril de 2026

Dos astronautas da missão Artemis 2 a Tânia Maria, diferentes trajetórias mostram como maturidade, repertório, oportunidades e tempo vivido impulsionam grandes realizações

Há carreiras que começam cedo, ganham forma, fama e atingem o auge quase de imediato. Outras exigem décadas de preparo até encontrar o momento em que, enfim, se tornam visíveis para mais gente. Marcada pelo etarismo, a cultura contemporânea costuma privilegiar a pressa, a novidade e a juventude quando se fala em talento, potência e sucesso. A vida profissional, no entanto, nem sempre segue esse compasso.

LEIA MAIS NA GAMA

Algumas obras pedem maturação, assim como certas viradas de rumo só acontecem depois de uma longa experiência de trabalho, estudo, vivência ou observação. Em determinados casos, o reconhecimento vem tarde; em outros, o feito decisivo nasce justamente do tempo acumulado.

Receba nossos melhores conteúdos por email

Inscreva-se nas nossas newsletters


Obrigada pelo interesse!

Encaminhamos um e-mail de confirmação

É seguindo essa lógica que surgem trajetórias como as de Cora Coralina, Conceição Evaristo, Dona Onete, Tânia Maria, Oscar Niemeyer, Charles Darwin e os astronautas da missão Artemis 2. A seguir, Gama apresenta as histórias desses diferentes personagens que estrearam mais tarde, se consagraram após os 50 anos ou alcançaram, já maduros, alguns de seus marcos mais importantes — da poesia ao espaço sideral.

Cora Coralina e Conceição Evaristo

A goiana Cora Coralina, nascida em 1889 como Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, passou boa parte da vida lendo, escrevendo, publicando em jornais regionais, fazendo doces para vender, criando os filhos e observando a rotina simples dos moradores da Cidade de Goiás — o que, mais tarde, viraria matéria-prima para a sua obra. Em 1965, quando tinha 75 anos de idade, quase completando 76, a poeta lançou o primeiro livro, ”Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” e, desde então, seguiu lançando suas palavras ao mundo, até postumamente.

Foto: Acervo Museu Casa de Cora Coralina

O reconhecimento nacional veio tempos depois com o encantamento de Carlos Drummond de Andrade, que a chamou de “diamante goiano cintilando na solidão”, conforme escreveu no Jornal do Brasil em 1980. Estudioso do trabalho de Coralina, o sociólogo Clovis Britto sintetizou a trajetória tardia da escritora em uma entrevista à BBC News Brasil: “Ela poetizou o cotidiano do interior brasileiro, acompanhando quase um século de transformações”.

Com Conceição Evaristo, o tempo trabalhou a favor de uma literatura profundamente ligada às experiências vividas. Nascida na periferia de Belo Horizonte em 1946, ela começou a trabalhar muito cedo, aos oito anos, como empregada doméstica — também foi faxineira e babá. Aos 25, concluiu o curso normal e, alguns meses depois, foi para o Rio de Janeiro, onde se formou em letras pela UFRJ, fez mestrado na PUC-Rio e doutorado na UFF, ambos em literatura. Deu aulas na rede pública e em universidades do Brasil e do exterior.

Na década de 1990, estreou na cena literária com contos e poemas publicados na série “Cadernos Negros”, do grupo Quilombhoje. Em 2003, aos 57, lançou o primeiro romance, “Ponciá Vicêncio” (Pallas), obra central da literatura brasileira contemporânea, marcada pela escrevivência — conceito formulado pela própria autora para nomear uma produção que nasce da vida, da memória e, sobretudo, das experiências das mulheres negras.

Tânia Maria

Se Coralina e Evaristo chegaram aos livros em momentos distintos da vida, no cinema e na música há outros percursos em que a entrada em cena também aconteceu mais tarde. Artesã e costureira, a potiguar Tânia Maria começou a atuar aos 72 anos, após ser descoberta pelo cineasta Kleber Mendonça Filho durante as filmagens de “Bacurau” (2019), do qual, segundo ela conta, participou só pelo cachê. Foi quando o diretor enxergou naquela mulher franzina, mas de presença luminosa e veia cômica, uma estrela em potencial.

A idade é o que a pessoa quer. Se você quer ser velha, fique velha, eu não sou velha. Nunca pense que ninguém é velho. Queira viver. O negócio é viver. Viva a sua vida

De lá para cá, Tânia já fez outros quatro trabalhos audiovisuais. Aos 78, virou um dos rostos mais comentados de “O Agente Secreto” (2025), indicado em quatro categorias do Oscar, no papel de dona Sebastiana, personagem que carrega carisma, mistério, presença e uma naturalidade rara em cena. A chegada ao cinema aos setenta e poucos faz da artista um caso raro e eloquente em um meio que ainda costuma associar protagonismo a certos perfis de idade e trajetória.

Foto: Reprodução/O Agente Secreto

Ela mesma é quem falou sobre o tema na coletiva de imprensa de estreia do filme: “A idade é o que a pessoa quer. Se você quer ser velha, fique velha, eu não sou velha. Eu costuro, decoro as coisas, trabalho; eu não sou velha. Nunca pense que ninguém é velho. Queira viver. O negócio é viver. Viva a sua vida“.

Dona Onete

Ionete da Silveira Gama, a Dona Onete, também viveu uma virada tardia. Embora viesse de uma trajetória cultural longa, ela chegou ao centro do palco já madura. Natural de Cachoeira do Arari, no Pará, trabalhou por décadas como professora de história, ao mesmo tempo em que atuava em movimentos da cultura popular paraense. Cantava, compunha, organizava grupos de dança e circulava pela cena antes de se lançar profissionalmente como cantora e de gravar o primeiro disco solo.

“Feitiço Caboclo”, seu aclamado álbum de estreia, saiu em 2013, quando Onete tinha 73 anos. De lá em diante, a artista virou referência nacional, ajudou a projetar o carimbó chamegado para além do Norte do país e transformou sensualidade, humor, memória e território em assinatura musical.

Charles Darwin e Oscar Niemeyer

Nem sempre o marco da maturidade aparece como estreia. Às vezes, ele surge como consagração de uma trajetória que já vinha sendo erguida há anos. Esse foi o caso de Charles Darwin. Depois de décadas viajando, reunindo observações, anotando evidências, se correspondendo com outros pesquisadores e amadurecendo hipóteses, em 1859, aos 50, o naturalista britânico publicou “A Origem das Espécies”, livro que reorganizou a biologia moderna ao formular a teoria da evolução pela seleção natural em uma apresentação pública e sistemática. O feito, que hoje parece incontornável, foi, na época, resultado de uma elaboração longa e cautelosa.

O momento decisivo da carreira de Oscar Niemeyer veio sob a forma de cidade. Quando Brasília foi inaugurada, em 1960, o arquiteto tinha 52 anos — ele iniciou o trabalho aos 49. Apesar de já ser, na época, um nome importante da arquitetura moderna brasileira, a entrega da nova capital do país deu outra dimensão à sua obra. Palácio da Alvorada, Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e Catedral Metropolitana ajudaram a fixar no imaginário internacional a linguagem de curvas e estruturas monumentais que ele vinha desenvolvendo havia décadas. A construção de Brasíla não resume a sua trajetória, mas concentra um de seus capítulos mais conhecidos — para muitos, o ápice profissional.

Foto: Wikimedia Commons

Os astronautas da missão Artemis 2

A já histórica missão Artemis 2, da Nasa, cuja tripulação bateu o recorde de maior distância já percorrida por humanos no espaço, oferece um exemplo recente desse mesmo encontro: alta exigência e maturidade. Entre os quatro astronautas escalados para o trabalho estão dois cinquentenários: o comandante Reid Wiseman, piloto de testes da Marinha dos Estados Unidos, e o ex-piloto de caça da Força Aérea Real Canadense e físico Jeremy Hansen, ambos com 50 anos — também fazem parte da equipe Victor J. Glover, 49, ex-piloto de caça e piloto de testes da Marinha norte-americana, e a engenheira e física Christina Koch, 47, primeira mulher a viajar à Lua.

Em uma área associada a treinamentos intensos, riscos extremos, tecnologia de ponta e cobrança física, a idade dos integrantes do grupo chama a atenção e ajuda a deslocar a ideia de que projetos dessa envergadura são exclusivos aos mais jovens.

Foto: Divulgação/NASA
Um assunto a cada sete dias