Trecho de livro

Vida Doçura

Escritora Natércia Pontes revolve memória e traumas num livro que faz da aparente perfeição da cultura de influência um reflexo da nossa solidão

Leonardo Neiva 20 de Março de 2026

Uma escritora mergulha nas memórias de família e no luto pela perda da mãe. O ponto de partida de “Vida Doçura” (Companhia das Letras, 2026), novo romance de Natércia Pontes, revela o caminho que o livro deve seguir: uma narrativa que equilibra melancolia e humor com precisão ao tratar das complexidades da solidão contemporânea. Tudo isso numa prosa que evoca cenários criativos a cada página, mesclando a poética da autora cearense com frases que descrevem de forma única a estranheza do cotidiano.

Imersa no caótico processo de escrita de seu novo livro de contos, a protagonista Jocasta tateia as lacunas de sua infância — seja o suicídio da mãe ou mesmo o distanciamento materno quando ela estava viva —, em um estado mental que reflete a bagunça do apartamento ao seu redor, onde vive uma vida desregrada no centro de São Paulo. Mas o senso mais profundo de solidão só surge mesmo quando a escritora cria uma dependência dos vídeos de Jovana, youtuber que filma sua rotina aparentemente perfeita e feliz — o completo oposto da existência de Jocasta.

Pontes escreve um cenário quase tão surpreendente quanto o de seu romance anterior, “Os Tais Caquinhos” (Companhia das Letras, 2021), onde a degradação material na vida de uma família gera a um tempo atração e repulsa. Aqui, no entanto, existe ainda um senso comovente de identificação, numa trama de ares tragicômicos que envereda por caminhos completamente inesperados para o leitor: o de um suspense policial, por exemplo.


[Laptop]

Somos parecidas, não acha? Eu ali no porta-retratos mostrando a florzinha no dia em que fomos à praia. O mar é a xoxota do mundo. Brincamos de chupar peito. Planta carnívora. Você cabeluda, hippie setentista, eu, bebê de sobrenome grande, geração sufocada no peito maternal, dunas de mamilo, o controle e o carinho claustrofóbico da mãe. Floresta do cerrado ou praia de vários rios, mangues, lago artificial especulado, minha mãe o próprio lago, o olho verde cristalino arregalado sobre mim. O que ela pensava?, não sei, quando se está no ninho de sal nada se sabe. O cheiro de amor subia, a fome e o amor em jato, eu sugava em desespero, minha mão frágil e pequena agarrava o outro seio. Ficou assim por um bom tempo, de tempo tão pesado foi se esquecendo de si. O tempo, ela, meu pé, minha mão crescendo, minha mãe longe de mim. Brincamos de dançar juntas nas férias porque resolveu-se melhor assim. Minha mãe na maior parte do tempo um telefone, cartão-postal, cartas e presentes, via correio nacional, abertos, usados, largados. Uma foto dela, ameixa amarelada: são parecidas, não acha? Não acho nada, mãe, já perguntei mil vezes ao espelho e ele nunca respondeu. Ela me carregou na barriga, eu vi numa única foto legítima, eu lá dentro, um sorriso aberto no rosto da minha mãe e a alegria em forma oval. Mãe, não pareço mais comigo, todo dia eu mudo, sou planta carnívora, sangue de açougue no saco plástico, fumando mil cigarros por dia, porque a maldita fome não cessa, minha mãe.

O que você fazia era gritar pra si que era uma mãe incompetente, doente e sozinha que calhou de ter uma filha que revelava, sadicamente, o teu desligamento absurdo da vida

A dança combinada era o balé da Isadora Duncan, e a gente fingia que as coisas dançavam ao seu modo, de pés descalços, eu na ponta do país e você no meio, um sertão inteiro separando a gente, dia sobre dia, mãe, eu ia te esquecendo, dia sobre dia, mãe. São milhares de dias. Para cada dia um novo
retrato no espelho do banheiro. Em 1986, na piscina, na boleia do caminhão, no fusca bege, Caê cantando, enfumaçando a capital, na sala da TV, na sala de teatro, na tua cama de casal. E você solteira, mãe, você tão sozinha quanto eu. Somos parecidas, não acha? Lembro de você tosando meu cabelo de princesa confusa aos sete anos. De cabelo decapitado e roupa espacial; eu era o que você sempre quis, mãe, princesa colonizada — só durante o mês de julho: no resto dos meses eu errava, você errava, porque nessa história pouco importa a culpa da mãe. O que sempre ficou claro foi a distância e a impossibilidade de estarmos juntas. Então, meu sotaque ia se fazendo diferente do teu, minhas convicções machistas e provincianas iam constituindo meu caráter tão diferente do teu, mulher linda, talentosa, enorme e iluminada feito Brasília. Somos parecidas, não acha? Eu era aquela menina magrelinha que amava a Xuxa, mãe. O Sérgio Mallandro era o meu ídolo, mãe. Meu vestido de organdi era feito pela costureira da tia Diana, mãe. E, por mais que você tentasse, tuas censuras violentas, teus gritos cenográficos não mudaram o curso da minha vida. Hoje vejo, através do espelho, que o que você fazia era gritar pra si que era uma mãe incompetente, doente e sozinha que calhou de ter uma filha que revelava, sadicamente, o teu desligamento absurdo da vida. Mãe, eu quero a casa da Barbie, eu quero a casa da Barbie, mãe.

Teu leite materno virou coca-cola. Tua presença ficou amarelada. Teu nome no túmulo da família. Foi simples assim: minha mãe não existia mais

Foi assim antes da tua morte trágica, que se me anunciou feito bruxa às gargalhadas no frio das férias de julho. Teu leite materno virou coca-cola. Tua presença ficou amarelada. Teu nome no túmulo da família. Foi simples assim: minha mãe não existia mais. Como que para atestar uma condição verdadeira da nossa história: você pouco existiu pra mim. A menina magrelinha, sem tônus de bailarina, agora mentia para as amigas nordestinas que a mãe, aquela aparição cabeluda com sotaque de TV Globo, tinha morrido do coração, porque assim era mais novela, assim ficava mais bonito. Feio era ter aprendido a palavra “suicídio”. Feio era o Dia das Mães cor-de-rosa do colégio ter virado um dia funesto, dia escuro de tanta vergonha de dizer: minha mãe morreu. Eu agora era a cara de uma defunta. Somos parecidas, não acha? Brinquei de imaginar teu enterro. As férias agora, mais leves e difíceis, eram rituais de adoração e lembrança, uma lembrança mórbida do que eu nunca tive. História sobre história da tua santíssima entidade bordavam minha memória, pano de chão estraçalhado, dando lugar à dor e à vergonha de ter sido abandonada em nome do teu alívio, do teu maior desejo que era morrer; afinal, a vida nada valia, não é, mamãe? Daí me vem uma imagem embaçada. Se a vida nada valia, e eu estava lá na porra da tua vida, nada mais fazia sentido, mãe. Eu procurava me calar e rezar salve-rainhas para livrar tua alma do fogo do inferno suicida, porque assim tia Diana me ensinou. Passei a detestar a Xuxa & afins em teu nome, passei a pregar tuas falas e gostos musicais; meus hormônios adolescentes invadiam meu corpinho mirrado e me faziam tua imagem no meu espelho diário. Assim eu não te perdia de vista, mãe.

Eu procurava me calar e rezar salve-rainhas para livrar tua alma do fogo do inferno suicida

Produto

  • Vida Doçura
  • Natércia Pontes
  • Companhia das Letras
  • 176 páginas

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