Cinema brasileiro: nova paixão nacional?
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“O Cangaceiro” (1953)

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Reportagem

O que o Brasil tem que Hollywood quer?

Críticos contam a Gama os motivos da nova onda de sucesso do cinema brasileiro no cenário internacional

Sarah Kelly 01 de Março de 2026

O que o Brasil tem que Hollywood quer?

Sarah Kelly 01 de Março de 2026
Divulgação/“O Cangaceiro” (1953)

Críticos contam a Gama os motivos da nova onda de sucesso do cinema brasileiro no cenário internacional

Se, nesta mesma época do ano passado, feeds, manchetes e até fantasias de Carnaval eram dominados por “Ainda Estou Aqui” (2024) — vencedor de mais de 70 prêmios nacionais e internacionais —, em 2026 é a vez de “O Agente Secreto” (2025). Com dois Globos de Ouro e quatro indicações ao Oscar, o filme de Kleber Mendonça Filho conquistou o coração dos gringos. Mas não é de hoje que o cinema brasileiro atravessa fronteiras.

Embora tenha passado muito tempo despercebido, o nosso cinema ganhou destaque mundial em 1953, com “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. O jornalista e crítico de cinema Bruno Ghetti explica que, na década seguinte, uma nova projeção chegou com a Palma de Ouro de “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, e com o prestígio do Cinema Novo nos festivais europeus e latino-americanos — especialmente por meio das obras de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos.

No momento em que temos mais investimento no cinema, na música, conseguimos mostrar ao mercado internacional aquilo que estamos produzindo aqui

Passado esse período, houve um longo hiato, em meio à crise da Embrafilme — estatal que desempenhava papel central na produção e na distribuição do cinema brasileiro. Isso porque o reconhecimento internacional está diretamente ligado ao fortalecimento das políticas públicas culturais, como aponta Fabiana Lima, crítica da Abraccine e do Critics Choice e colunista dos portais Cinem(ação) e Peliplat BR. “Ele fica mais nítido quando nossas políticas internas estão fortalecidas. No momento em que temos mais investimento no cinema, na música, conseguimos mostrar ao mercado internacional aquilo que estamos produzindo aqui.”

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Em Hollywood, o prestígio chegou de fato com “Pixote” (1980), de Hector Babenco, “Central do Brasil” (1997), de Walter Salles e “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles. Sendo que, esse último, é ainda hoje o filme brasileiro mais celebrado no exterior. + Até chegarmos ao duo mais recente “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”.

“Hoje em dia, com as coisas muito mais internacionalizadas, vide o sul-coreano ‘Parasita’, do Bong Joon-ho, ganhar o Oscar de melhor filme em 2020, filmografias de língua não inglesa despertam bem mais interesse nos mercados de fora, tanto nos EUA quanto no resto do mundo. E, com nosso cinema, felizmente tem ocorrido a mesma coisa”, explica Ghetti.

A fim de entender a crescente visibilidade do Brasil no Oscar, Gama conversou com especialistas que explicaram o que chama atenção em nosso cinema e o que é necessário para que ele conquiste cada vez mais notoriedade internacional.

Arte para interpretar o presente

Não há dúvidas de que o cinema reflete o seu próprio tempo. Com a ascensão da extrema direita no mundo e, especificamente nos Estados Unidos, que se autoproclama a “maior democracia do mundo” e assiste o autoritarismo do governo Trump, o Oscar tem se consolidado como uma premiação política. Seja para comunicar o descontentamento da classe artística ou apenas como um reflexo natural dos acontecimentos recentes.

Rodrigo Salem, jornalista de entretenimento da Folha de S.Paulo baseado em Los Angeles, vê o cinema brasileiro inserido em uma tendência mundial. “Se você olhar para o principal favorito ao Oscar, ‘Uma Batalha Após a Outra’, verá um filme que dialoga diretamente com ‘O Agente Secreto’, abordando temas semelhantes, como opressão, resistência popular e questões relacionadas“, diz.

“‘Pecadores’ também aborda a apropriação cultural, e temos ‘Foi Apenas um Acidente’, um filme que fala muito do Brasil. São obras que refletem nossa insatisfação — nós, artistas, estamos incomodados com o que vem acontecendo em todo o planeta.”

Nessa seara, filmes como os de Walter Salles e de Mendonça Filho prosperam por trazerem novas possibilidades de interpretação de mundo, de uma perspectiva profundamente brasileira. A crítica e o público estrangeiro podem se interessar ao ver questões morais e universais abordadas a partir de uma perspectiva cultural distinta, como a forma particular dos brasileiros lidarem com a corrupção. Para Bruno Ghetti, eles têm curiosidade em entender por que somos tão alegres, vivos, apesar de tanta violência, autoritarismo e miséria na nossa história.

Existe uma certa propensão dos nossos filmes mais recentes em pensar no Brasil como sociedade, em suas contradições, desigualdades, disparidade

“Existe uma certa propensão dos nossos filmes mais recentes em pensar no Brasil como sociedade, em suas contradições, desigualdades, disparidades. O que é ótimo, porque traz sempre aos nossos filmes um tempero local — ou um ‘molho’, como diria Wagner Moura — que é impossível de encontrar no cinema feito em outros países”, comenta Ghetti. “Nosso cinema traz as nossas características enquanto povo. O que somos está embutido na estética e no conteúdo desses filmes, e isso tem sido transmitido ao público lá de fora.”

Vendo de perto a reação dos estadunidenses, a correspondente internacional Cleide Klock, que é criadora do portal Brasil em Hollywood e com 12 anos de experiência cobrindo o Oscar, ressalta que os dois longas ambientados na ditadura militar fazem as pessoas se conectarem com questões recentes ou passadas dos seus próprios países. Ela diz que uma das lendas presentes em “O Agente Secreto”, a perna cabeluda, que representa a violência institucional, é facilmente comparada ao ICE (Serviço de Imigração norte-americano).

Além da escolha do tema que conversa com o “espírito do tempo”, a inovação na forma de produção também desperta interesse. É o caso do uso de ferramentas típicas de gêneros como thriller, melodrama, comédia ou cinema político em obras que não se enquadram rigidamente em um gênero específico, como acontece no longa protagonizado por Wagner Moura.

O cinema de Hollywood possui fórmulas repetitivas e acaba gerando cansaço, enquanto cineastas de outras culturas, incluindo o Brasil, oferecem um “ar fresco” narrativo, como observa Anderson Gaveta, fundador da Gaveta Filmes e criador de conteúdo no canal de YouTube Gaveta, referência no audiovisual geek no Brasil.

100% Brasil?

Nos anos 1960, o cineasta Glauber Rocha já denunciava que os críticos europeus só se interessavam pela arte do terceiro mundo quando ela “satisfazia a nostalgia pelo primitivismo”. Enquanto mostravam fome e violência, os filmes latino-americanos eram lidos como surrealismo tropical, envoltos em uma estética exótica, e não como tentativas reais de denunciar miséria e opressão.

Hoje, esse padrão existe de forma adaptada: nas premiações dos Estados Unidos, o cinema de fora tende a ser avaliado dentro de uma “caixinha”. “O padrão [de indicar filmes com viés político] não é exclusivo do cinema brasileiro. Se analisarmos os filmes estrangeiros indicados ao Oscar, a grande maioria também aborda mazelas sociais, desigualdades, política, corrupção ou contextos históricos, como ditaduras. Essa tendência de olhar o cinema estrangeiro sob um mesmo recorte reflete uma visão específica que os estadunidenses têm do resto do mundo, e acaba sendo bastante limitante”, analisa Fabiana Lima.

Se analisarmos os filmes estrangeiros indicados ao Oscar, a grande maioria também aborda mazelas sociais, desigualdades, política, corrupção ou contextos históricos, como ditaduras

“Muitos filmes medianos acabam sendo indicados na categoria de melhor filme, enquanto produções incríveis ficam restritas à categoria de melhor filme internacional. Isso revela um certo viés, às vezes até preconceito, sobre o que se espera que cada país mostre, privilegiando temas mais sérios, como dramas históricos ou realismo social”, afirma.

Ao mesmo tempo, uma das indicações favoritas deste ano, “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, não se preocupa tanto quanto os outros concorrentes em falar sobre algo escancaradamente político, sendo mais focado em relações familiares. “Mas o fato de os outros quatro abordarem o tema, seja indiretamente, como ‘Sirat’, ou frontalmente, como ‘A Voz de Hind Rajab’, já diz algo sobre a preferência ali”, diz Ghetti.

Apesar disso, o jornalista indica que, mesmo que exista uma certa fetichização e busca por “brasilidade” do público e da crítica lá de fora, “quando o que um filme leva de Brasil não é apenas uma estereotipação barata, para americano ver, a obra tende a se imortalizar e ficar mais forte na memória desse público. Porque ela transmite uma verdade que os clichês não conseguem atingir.”

A escolha das indicações, pautadas pelo interesse na ditadura e na política brasileira — também refletido na boa recepção dos documentários de Petra Costa —, revela uma certa imagem do Brasil, segundo Cleide Klock. “Existem várias imagens do Brasil: associadas à tensão social, à violência, à instabilidade, ou ainda à ideia de um país exótico. Mas também mostram nossa diversidade e abrem a porta para conhecer outros aspectos da nossa cultura.”

Gaveta também vê com bons olhos essa espécie de “exotismo”. “Com o Japão foi assim: tudo que vem de lá é cool, o samurai. Nos últimos anos, vimos isso com a cultura nórdica — vikings, Godafur, tudo que vem de lá. Acho que algo parecido está acontecendo com o Brasil”. Um exemplo prático da chamada “Mania Brasil” são os recordes no turismo internacional: quase 9,3 milhões de estrangeiros visitaram o país em 2025, um crescimento impressionante de 37,1% em relação a 2024, segundo dados do Ministério do Turismo. “Por mais que carregue más interpretações, também existem as pessoas que vão descobrir”, comenta Gaveta, destacando que esse interesse traz lucro ao país.

Exportando nosso cinema

Tão importante quanto o tema certo na hora certa, a qualidade técnica e a profundidade narrativa é o investimento na promoção. Uma campanha de marketing milionária e uma distribuição internacional forte são os fatores estruturais mais determinantes para levar um filme ao Oscar hoje em dia, de acordo com os especialistas.

“É preciso uma distribuição internacional à altura dos outros filmes, senão você não consegue atingir o mercado. Mesmo que tenha o melhor filme do mundo, sem uma distribuição robusta, ele não chega lá. Muitos filmes brasileiros excelentes nos últimos anos enfrentaram justamente isso: estavam prontos, mas não tiveram uma distribuidora à altura para concorrer”, revela Klock. Nesse sentido, ela ressalta que a campanha de “O Agente Secreto”, com a distribuidora Neon, é “a maior já vista por um filme brasileiro na história do Oscar.”

A participação em festivais internacionais, sobretudo Cannes, Berlim e Veneza, é fundamental. Um prêmio em algum desses eventos — principalmente Cannes e Veneza — já garante destaque imediato ao filme.

Segundo Rodrigo Salem, ter grandes nomes envolvidos também facilita o reconhecimento: “Foi até uma sorte termos, por dois anos seguidos, ótimos filmes com diretores consagrados. O Brasil tem potencial para fazer ótimos filmes todos os anos, mas é raro que esses filmes se conectem com o público internacional e tenham cineastas já conhecidos na indústria. É uma coincidência, uma conjunção de fatores, e eu sempre coloco muito disso nas costas dos envolvidos”.

Um novo horizonte

Gaveta credita o maior reconhecimento recente do cinema brasileiro a uma boa geração de atores e profissionais talentosos, impulsionada pela democratização da tecnologia. “Antigamente, para criar um cineasta ou alguém envolvido com produção audiovisual, era muito mais difícil. Equipamentos eram caros e o acesso era restrito. Hoje, com o avanço tecnológico, é possível produzir um curta-metragem ou qualquer material de alta qualidade com equipamentos acessíveis, e até fazer pós-produção profissional de casa”, explica. Para ele, essa democratização amplia o acesso ao audiovisual, revelando mais talentos e criando oportunidades para profissionais de diferentes áreas.

Para aumentar as chances de indicações ao Oscar no futuro, críticos apontam que é fundamental fortalecer primeiro a política interna do país

Para aumentar as chances de indicações ao Oscar no futuro, críticos apontam que é fundamental fortalecer primeiro a política interna do país. Rodrigo Salem destaca que “uma política cultural é importante, só que ela precisa ser contínua e cada vez mais independente do governo, porque deveria se retroalimentar como várias outras indústrias”, diz.

“Ótimo que estejamos em um momento de produção, mas essa produção deve ser contínua. Tem que ser contínua para a gente poder estar todos os anos no Oscar, não apenas dois anos agora e daqui a mais dez anos volta com outro filme e depois desaparece novamente.”

Ele acrescenta que o Brasil ainda enfrenta problemas estruturais que dificultam a promoção internacional. “Primeiro, precisamos organizar o que já temos no país. São mais de 100 lançamentos por ano, mas muitos mal chegam ao público, e quando chegam, são vistos por poucos. É preciso uma distribuição melhor e um apoio contínuo que realmente promova o cinema brasileiro.”

Fabiana Lima complementa que o reconhecimento nacional é a base para o sucesso externo. “Se o próprio país não abraça primeiro a campanha, como estamos vendo com ‘O Agente Secreto’ ou ‘Ainda Estou Aqui’, é muito difícil que o pessoal de fora abrace. Tem que começar aqui. Tem que fortalecer para que a gente reconheça a qualidade do que temos, gritar para o mundo: ‘isso foi feito no Brasil, estamos muito orgulhosos disso’. “

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