Como envelhecer bem?

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Bloco de notas

Livros para entender o que significa envelhecer

Por autores como Rosa Montero e Lya Luft, narrativas que tratam de temas como o sexo na velhice, a finitude e o envelhecimento numa terra estrangeira

Livros para entender o que significa envelhecer

Leonardo Neiva 12 de Abril de 2026

Por autores como Rosa Montero e Lya Luft, narrativas que tratam de temas como o sexo na velhice, a finitude e o envelhecimento numa terra estrangeira

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    Uma mulher de 60 anos e um homem de 32 vão juntos à ópera. Assim se inicia a trama de “A Carne” (Todavia, 2026), mais novo e aguardado romance da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero — veja aqui entrevista da autora a Gama. A personagem central é Soledad, que contrata um gigolô para lhe servir de acompanhante e provocar ciúmes no amante que a abandonou. Porém, um acontecimento inesperado acaba jogando a dupla num relacionamento explosivo e não desprovido dos perigos característicos. Presença ilustre na última Flip, Montero cria aqui um romance erótico e irresistível, em que trata do envelhecer através da passagem do tempo, do medo da morte e do fracasso — mas deixando também um espacinho para a esperança.

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    Um retrato tão lúcido quanto mágico sobre o fim, “A Segunda Morte” (Companhia das Letras, 2023) aborda temas como o declínio físico, o luto e a crise da masculinidade. Terceiro romance de Roberto Taddei, o livro narra a fuga de um homem de quase 80 anos de uma vida que ele considerava livre na calmaria de seus poucos pertences e nos resquícios de uma família que havia deixado para trás. Mas o autor escreve sobre envelhecimento de forma enganadoramente simples. Em sua exploração do encontro derradeiro com a morte, retrata a precariedade da vida humana, seja no estado retraído das gengivas do protagonista ou nos testículos artificiais que o pai é obrigado a usar antes do fim. Mas também coloca nas entrelinhas o mistério dessa vida que vai se dissolvendo em algo mais, deixando marcas muito mais duradouras que a poça de sangue formada na primeira queda pela idade avançada. Leia um trecho aqui.

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    Do que é feita a vida de um homem? Filho de pequenos fazendeiros do interior do Missouri, William Stoner passa boa parte da vida buscando aquilo que é excepcional. Numa carreira acadêmica inicialmente promissora, a paixão pela literatura e pela existência transbordam quase tanto quanto as dificuldades que não deixam de acompanhá-lo a cada passo do caminho. Só que “Stoner” (Arte & Letra, reedição 2023), do norte-americano John Williams (1922-1994), não trata de grandes acontecimentos, mas sim do dia após dia e do excruciante desenrolar do cotidiano. Quando menos espera, o protagonista se percebe velho sem ter satisfeito plenamente nenhuma das ambições que tinha. Mas, assim como esta obra, redescoberta quatro décadas depois da publicação original, a beleza oculta na vida do protagonista só fica evidente de fato com a maturidade.

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    “O Polonês” (Companhia das Letras, 2025) é um romance curto mas extremamente impactante sobre o enigma dos relacionamentos, a intensidade das paixões no fim da vida e os tabus que cercam o amor e o sexo na terceira idade. A história é a de Witold Walczykiewicz, um pianista idoso e controverso conhecido por suas interpretações únicas da obra de Chopin. Após um romance breve mas profundo com uma patrona das artes, o artista deixa para ela uma série de 84 poemas, nos quais a mulher percebe uma desconexão com aquilo que acreditava ter vivido ao lado de Witold. O autor vencedor do Nobel J.M. Coetzee desfia por trás das páginas uma reflexão sobre os dilemas da arte e da comunicação com a proximidade da morte, numa investigação ficcional sobre a incompreensão humana até o final da vida.

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    O título do livro “Ojiichan” (Fósforo, 2024), que significa vovô em japonês, dá pistas sobre o seu enredo: um olhar sobre a velhice na comunidade nipo-brasileira, contemplando algumas de suas particularidades, a exemplo da austeridade e da aversão ao melodrama. Ao completar 70 anos, Satoshi é aposentado compulsoriamente do colégio onde lecionou por décadas e precisa enfrentar diferentes faces da velhice, como a dor de deixar sua rotina, a perda gradual de memória da esposa e a solidão que começa a se infiltrar implacável por seu cotidiano. Terceiro romance do escritor paranaense e vencedor do Jabuti Oscar Nakasato, o livro mostra que a terceira idade é um caminho a ser trilhado, apontando a necessidade de beleza e serenidade em um mundo ocidental que valoriza juventude e velocidade.

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    Ao tratar do sexo na velhice de forma tão direta, explícita e sem tabus no livro “E Se Eu Morrer Amanhã?” (Dublinense, 2026), a escritora portuguesa Filipa Fonseca Silva não só entretém e diverte, como levanta um debate importantíssimo. A protagonista é Helena, uma viúva de 79 anos que mora apenas com seu gato, passando a impressão de ser um retrato típico do envelhecimento pacato que imaginamos para nossos pais e avós. Mas ela esconde uma realidade íntima, da qual os filhos não suspeitam: viveu aventuras amorosas intensas ao longo de seus dez anos de viuvez. A mão leve da autora constrói uma personagem central carismática que decide, sem culpa ou arrependimentos, aproveitar a vida ao máximo enquanto ainda lhe resta saúde. Também retrata com uma dose de sarcasmo o absurdo do preconceito que cerca a sexualidade na velhice. Leia um trecho aqui.

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    Publicado originalmente quando a autora tinha 65 anos, “Perdas & Ganhos” (Record, reedição 2023), de Lya Luft (1938-2021), não é tanto um livro quanto uma conversa olho no olho com o leitor. Transitando entre a ficção, a crônica e a reflexão, o maior sucesso literário da autora gaúcha parte justamente do desejo de bater um papo com quem a lê sobre algumas das questões mais cruciais da vida. Entram em cena, portanto, os dramas existenciais do ser humano, a dor, a finitude, o envelhecimento, a tristeza e a morte — todos temas presentes ao longo da obra da escritora. Mas, longe de ser um livro mórbido ou depressivo, a obra traz também questões igualmente humanas como carinho, família e esperança, numa mensagem universal que vendeu quase um milhão de exemplares no Brasil.

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    Um casal de indígenas idosos — Mimi e Bird, ela Blackfoot, ele Cherokee — empreende uma viagem pela Europa. A rota: um mapa de cartões-postais enviados pelo tio de Mimi, retirado de sua reserva para se tornar atração em um show de faroeste que varou o Velho Continente. Mais do que uma narrativa sobre o amor e o envelhecimento do casal de protagonistas, “Indígenas de Férias” (Dublinense, 2023) é uma exploração sobre os impactos duradouros do preconceito e das violências cometidas contra indígenas e refugiados ao longo dos séculos. Apesar da meta superficial de recuperar uma bolsa Crow, importante artefato de família, o real objetivo do casal é entender as andanças e o paradeiro do antepassado vítima de uma série de injustiças. Escritor e fotógrafo premiado, o autor Thomas King, de ascendência Cherokee e grega, é ativista, pesquisador das narrativas orais indígenas e crítico das políticas dos EUA e Canadá para os nativos americanos.

     

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    O tema do amor no fim da vida costuma ser um dos mais pungentes e também um dos mais explorados em obras que tratam do envelhecimento. No vencedor do Prêmio Literário José Saramago, “Morramos ao Menos no Porto” (Biblioteca Azul, 2025), a quebra derradeira dessa relação é o cenário para um retrato sobre a lenta erosão do corpo, da memória e dos afetos. O autor português Francisco Mota Saraiva constrói de forma surpreendentemente delicada o intenso conflito que se desenrola na casa onde António viveu durante 25 anos ao lado da esposa, enquanto ele vela por seu corpo como se ela ainda respirasse. Entre os cheiros fortes e os sons de uma vizinhança decadente, restam memórias, ações cotidianas que ganham o peso da passagem dos anos e da consciência de um tempo que não vai voltar.

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    Clássico absoluto da literatura de língua inglesa, o lançamento de “Um Homem Só” (Companhia das Letras, reedição 2021) em 1964 causou escândalo na sociedade da época ao retratar a maturidade de um homem abertamente homossexual. Após a morte daquele que foi seu parceiro por mais de uma década, um professor de inglês de meia-idade não consegue se adaptar à rotina ou superar o luto. O jeito contido e reservado do personagem esconde um homem que sente desejo por corpos masculinos e aprecia a beleza com intensidade. Como um dos primeiros representantes do romance gay moderno, a obra de Christopher Isherwood é também um difícil retrato do envelhecimento solitário, em que não apenas uma tragédia individual, mas a própria sociedade impede uma pessoa de viver sua vida até o fim de forma plena.

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