Reprodução/Toei Animation

Por que One Piece é uma das histórias mais políticas da atualidade

Com estreia do live action na Netflix, entenda (com alguns spoilers) o que transformou o anime de piratas em símbolo de luta mundo afora

Leonardo Neiva 02 de Abril de 2026

Quem acompanhou o uso da bandeira pirata de One Piece em protestos pelo mundo, inclusive aqui no Brasil, pode ter ficado confuso sobre o que a história de um pirata que estica tem a ver com manifestações políticas. Se você andou assistindo às aventuras de Luffy e sua tripulação na nova temporada da série live action da Netflix, já tem uma ideia dessa relação. Afinal, a segunda leva de episódios nos apresenta a uma organização do submundo do crime, a um governante totalitário e despreparado e a uma guerra civil em curso num país distante. Mas esta é apenas a ponta de um iceberg muito maior e mais profundo.

Fãs da saga costumam dizer que muita gente começa a acompanhar o mangá criado por Eiichiro Oda para ler uma história leve e fantasiosa sobre piratas. Mas acaba sendo fisgado mesmo por conta do seu impacto emocional, das complexidades desse universo e, sim, dos traços sociais e políticos da história. Afinal, não é tão simples se dispor a acompanhar uma narrativa pulicada semanalmente há quase 30 anos e que já conta mais de 1.100 capítulos — ainda em andamento, e com mais episódios do anime prestes a estrear.

A partir deste ponto na série live action, temas políticos e sociais só ganham mais e mais evidência. A história, inclusive, está prestes a adentrar um arco repleto deles. Porém, se ainda não deu para entender muito bem a relevância de entidades como o Governo Mundial ou o Exército Revolucionário, citados já nas primeiras cenas desta nova temporada, não tem problema.

A seguir, Gama reúne alguns dos pontos — e também das problemáticas — que fazem do mangá mais lido de todos os tempos também uma das narrativas mais políticas da atualidade.

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Os verdadeiros heróis: piratas e revolucionários

Não é segredo que os verdadeiros protagonistas de One Piece são criminosos, ao menos na superfície. Ainda que alguns sejam bandidos desalmados, há exemplos como o do bando dos Chapéus de Palha, que sai por aí ajudando os outros em vez de cometer saques, pilhagens e assassinatos. Já que a história é contada por sua perspectiva, estamos de fato do lado oposto da lei — uma escolha consciente do autor por acompanhar o ponto de vista de sujeitos na marginalidade, muitos profundamente imorais. Mas esse aspecto é até sutil se comparado ao que vem por aí. O Exército Revolucionário, citado já nesta segunda temporada da série, é uma organização ilegal que, com sua bandeira vermelha e modus operandi de libertar países do jugo de governos corruptos, tem como objetivo final derrubar a Marinha e o Governo Mundial, a maior autoridade política nesse universo. E sim, eles são também quase sempre retratados como grandes heróis.

Membros do Exército Revolucionário protegem a população de um país ameaçado em One Piece
Membros do Exército Revolucionário protegem a população de um país ameaçado em One Piece
Reprodução/Toei Animation

Governantes injustos e cheios de privilégios

Ficar do lado dos piratas deixa de ser um desafio quando observamos de forma mais próxima os governos retratados na obra. É o que acontece com Wapol, o terrível rei de Drum, que surge ao final da temporada do live action. De forma geral, o universo de One Piece é povoado por regimes totalitários e ditadores populistas, que ascenderam ao poder com intenções puramente egoístas. Há desde um falso revolucionário que planta mentiras para destronar um rei legítimo, visando poderio militar, até um governante que usa o trono para consolidar sua influência no submundo. Isso sem falar nas movimentações da Marinha e do Governo Mundial, cuja proteção do povo está entre as últimas preocupações. Na série, a atual saga, que gira em torno da organização criminosa Baroque Works e do reino de Alabasta, é cheia de conspirações e fake news, evidenciando desde cedo os aspectos políticos e sociais da obra.

Luffy, o quebrador de correntes

Mesmo quem ainda está começando One Piece já tem uma ideia do que o ingênuo capitão dos Chapéus de Palha é capaz de fazer para garantir a liberdade de seus amigos. No caso de Luffy, isso passa longe de ser um posicionamento político explícito — coisa para a qual o personagem, aliás, não liga a mínima ù e sim um traço fundamental de personalidade, o que torna a coisa toda ainda mais intensa. Sem dar spoilers, é possível dizer que essa característica só se intensifica ao longo do caminho. Esse status de defensor implacável da liberdade e a ameaça que ele representa às instituições é um dos principais fatores que levam manifestantes por todo o mundo, inclusive de lados políticos opostos, a adotar sua Jolly Roger — nome tradicionalmente dado às bandeiras piratas — como símbolo de luta.

Luffy ostenta bandeira que virou símbolo de luta política no mundo real
Luffy ostenta bandeira que virou símbolo de luta política no mundo real
Reprodução/Toei Animation

A importância de conhecer o passado

Há uma cena no anime em que uma classe repleta de alunos aprende sobre como seu governante foi responsável por salvar o país das garras de inimigos mortais. O problema é que esse governante não passa de um tirano que controla como essa narrativa é contada. A cena ilustra a velha máxima de que a história é escrita pelos vencedores e deixa claro o quanto conhecer o passado é relevante para tudo que acontece na série. Neste mundo, há um grande período de tempo na história cujos acontecimentos são mantidos em segredo pelo governo — até falar sobre isso é crime inafiançável, pago com a morte. Somente alguns raros resquícios da época dão uma noção do que aconteceu, pequenas peças de um quebra-cabeça gigantesco essencial para entender o mundo atual. Por isso, livros e historiadores acabam se tornando figuras de enorme destaque.

A relação entre nobres, ricos e pobres

Nobres e ricos são, quase como regra, vilões aqui. Mas é um pouco mais complicado. Não importa o quanto uma pessoa consegue enriquecer e angariar poder nesses mares, ascender ao nível máximo é tarefa quase impossível. O primeiro lugar no pódio está reservado a uma nobreza cujos privilégios são herdados geração após geração desde a fundação dessa sociedade. Para estes que ocupam o lugar mais alto, ricos ou plebeus são igualmente menos que humanos, referidos muitas vezes como insetos cujo sofrimento é tratado com indiferença ou, pior, fonte de diversão. É uma ordem que espelha, em muitos sentidos, a posição atual dos multibilionários e questiona a ideia de meritocracia que domina o mundo corporativo contemporâneo. Afinal, não importa o quanto você nade, nunca vai chegar nem perto de uma praia que está fechada para você.

Um retrato preciso das relações raciais

Para quem se lembra de Arlong como o antagonista final da primeira temporada da série, a imagem dos Homens-Peixe até o momento é bem negativa. Mas isso deve mudar ao longo do caminho. Eles são a principal de uma série de raças reveladas como vítimas de um preconceito que reflete diretamente o racismo da sociedade. Vistos com desconfiança por sua força e forma física, os Homens-Peixe foram escravizados por séculos e têm um status de liberdade ainda recente — e por isso muito frágil. Em arcos mais para frente, o autor defronta o espectador com amostras do impacto de um longo período de maus-tratos e exclusão racial, uma força que se torna destrutiva a ponto de abalar as bases desse universo.

Raça com histórico de perseguição e maus-tratos, Homens-Peixe vão de vilões a vítimas de um sistema exploratório
Raça com histórico de perseguição e maus-tratos, Homens-Peixe vão de vilões a vítimas de um sistema exploratório
Reprodução/Toei Animation

Os efeitos devastadores do colonialismo

Uma série infantojuvenil sobre piratas com superpoderes é o último lugar onde você esperaria encontrar uma crítica aos impactos da herança colonial. Mas esse é o centro da narrativa em um dos primeiros arcos de One Piece — que ainda deve ser adaptado numa suposta quarta temporada da série. É na lendária Ilha do Céu Skypiea em que o conflito entre os Shandianos nativos e os colonizadores Skypieanos se desenrola. Os primeiros acabaram expulsos de suas terras devido ao alto valor do solo, e tiveram sua cultura e seus recursos naturais tomados sem nenhuma cerimônia. Já ouviu uma história parecida por aí? No fim, os moradores originais foram ainda por cima vilanizados em suas buscas por recuperar as terras que eram suas de direito.

A justiça como algo difuso

Não há uma ideia única de justiça no universo de One Piece. Ou melhor, existem tantas nuances e variáveis que o conceito só faz sentido do ponto de vista individual de cada personagem. Por um lado, há piratas sanguinários e imorais mostrados com atenuantes, como uma vida sofrida e marcada por perdas e injustiças. Por outro, a Marinha, que personifica a ideia de controle e ordem, mas é também corrupta e desnecessariamente violenta. E seus guardas e oficiais, embora possam agir como vilões, são pessoas comuns, usadas como massa de manobra. Os três Almirantes, que estão entre os representantes máximos da instituição, representam bem essa complexidade: um deles personifica a justiça absoluta, vertente radical que defende acabar com o “mal” a qualquer custo, mesmo que signifique derramar sangue inocente; o outro, a justiça neutra, que executa ordens como uma engrenagem, sem se envolver emocionalmente; e um terceiro, a justiça moral, em que ordens são constantemente questionadas e aplicadas de acordo com a moral individual.

Uma escravidão que persiste

Ainda que oficialmente proibida, a escravidão é outro ponto bastante presente na narrativa. Tornada possível graças à “vista grossa” da Marinha, ela é prática comum entre uma elite de nobres endinheirados e profundamente mesquinhos. Em One Piece, os escravizados fazem trabalhos forçados, participam de perigosas experiências e — o que é mostrado de forma implícita — podem também ser explorados sexualmente. Nesse sentido, o autor consegue conscientizar sobre os absurdos da prática por meio de narrativas bastante emocionais, gerando profunda indignação por aqueles que a promovem. Tanto que uma das sequências mais impactantes tem a ver com uma lição muito bem dada de Luffy em um deles.

Polêmicas: estereótipos de raça, gênero e hipersexualização feminina

As polêmicas aqui não são muito diferentes das de boa parte das produções do gênero, especialmente as mais antigas. Vale lembrar que a série começou a ser publicada no final dos anos 1990. Uma das mais óbvias e presentes ainda hoje é a hipersexualização das personagens femininas. Não apenas por usarem roupas muito curtas ou terem corpos claramente desenvolvidos para um olhar masculino, mas também pelas várias referências sexuais em torno delas. Embora One Piece seja muito mais diverso que a média das produções japonesas em termos raciais, há representações estereotipadas e caricaturais de personagens negros bem lá no início, questão que o autor foi corrigindo ao longo do tempo. Outro ponto de atenção é o retrato que a série faz de travestis e mulheres trans. Apesar de serem figuras centrais na história, um ponto raro nesse tipo de produção, muitas vezes elas são pintadas dentro de estereótipos negativos.

No live action, com um olhar muito mais contemporâneo, várias dessas questões não existem mais ou estão sendo bastante diluídas. Um exemplo é a mudança do personagem Sanji, que passou de um mulherengo cujas ações por vezes beiram o assédio a um sujeito que simplesmente protege as mulheres em qualquer situação. Para quem se inspirou a acompanhar o mangá ou o anime através da série, fica o alerta.

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