Uma Feira do Livro ainda mais latina

Na sua 5ª edição, evento homenageia literatura dos nossos vizinhos e traz a colombiana Pilar Quintana, a autora mapuche Daniela Catrileo, do Chile, e a ensaísta argentina Paula Sibilia

Leonardo Neiva 21 de Maio de 2026

Entre 30 de maio e 7 de junho, a Feira do Livro vai ocupar os nove dias em torno do feriado de Corpus Christi com muitos livros, debates e oficinas, que evocam o universo da literatura e temas da sociedade contemporânea. Em sua quinta edição, o evento, que sempre contou com uma alta participação de autores latino-americanos, coloca os holofotes sobre a escrita dos nossos vizinhos. Se em 2025 a Feira celebrou os 40 anos de democracia por aqui, agora a programação traz como tema principal a literatura produzida na região e seus diálogos com o Brasil.

“A gente tem esse ambiente bastante latino-americano de feira de rua, de mistura, de cultura, com vários autores vindos da Argentina, Chile, Colômbia e de vários países da América Latina”, afirma Paulo Werneck, da Associação Quatro Cinco Um, diretor geral do evento. A decisão coincide com um momento em que a cultura latina segue em alta no mundo, da música de Bad Bunny ao cinema brasileiro, sem dúvida passando pela literatura. Entre os maiores destaques da edição, está a presença da autora colombiana Pilar Quintana, conhecida pelo impactante romance “A Cachorra” (Intrínseca, 2020), que lança na Feira o novo “Noite Negra” (Companhia das Letras, 2026).

Com mais de 100 autores e 150 expositores, as atividades — entre debates, oficinas, contações de histórias e sessões de autógrafos, todos gratuitos — se dividem entre os três palcos da programação oficial e os eventos paralelos nos três Tablados Literários. O festival literário segue em seu cantinho fixo na cidade de São Paulo: os 15 mil m² da Praça Charles Miller, em frente ao estádio Pacaembu, na zona oeste da capital paulista.

Feira do Livro de 2025. Foto de Nilton Fukuda

Da Colômbia, também desembarca o escritor Mario Mendoza com seu thriller “Satanás” (Planeta, 2025), baseado num crime real, que inspirou a minissérie “Dissociação” (2025), da Netflix. O Chile terá ao menos dois representantes: a escritora e professora de filosofia Daniela Catrileo, do povo Mapuche, autora do romance “Chilco” (DBA Literatura, 2025), e o narrador oral Andrés Montero, que estreia no país com “O Ano em que Falamos com o Mar” (Pinard, 2026). Também marcam presença a pesquisadora argentina Paula Sibilia, com “Eu Mereço!” (Ubu, 2026), ensaio sobre a cultura da autoestima na era digital, e a uruguaia Inés Bortagaray, autora de “Um, Dois e Já” (Cambalache, 2025) e corroteirista do filme “Vida Invisível” (Karim Aïnouz, 2019).

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A Feira do Livro cresce cada vez mais, com destaques nacionais e internacionais

Apesar de manter uma estrutura física semelhante à das últimas edições, a expectativa é de que a Feira alcance novos recordes — em junho de 2025, ela reuniu mais de 84 mil pessoas ao longo de nove dias. “Esse número vem crescendo de maneira exponencial a cada edição, e esperamos que este ano o público vai ser ainda maior”, diz Werneck. Para isso, algumas das apostas são grandes nomes do mundo literário e debates sobre temas relevantes.

Neste ano, Gama atua como parceira de mídia da Feira do Livro. No sábado de abertura (30), a editora executiva da revista, Isabelle Moreira Lima, media um debate sobre a influência indígena e negra na alimentação dos brasileiros, com a antropóloga amazonense Inara Nascimento e a pesquisadora fluminense Rute Costa, que lançam “Ajeum Mi’u” (Elefante, 2026), e a chef paulistana Bel Coelho, de “Floresta na Boca” (Fósforo, 2025), às 12h45 no Palco da Praça. Já na sexta (5), a diretora-geral da Gama, Paula Miraglia, fundadora e CEO da Momentum – Journalism & Tech Task Force, faz uma conversa com a jornalista e especialista em infoeducação Januária Cristina Alves, que lança “Educação Midiática na Prática” (Edições Sesc, 2026), às 15h, no auditório do Museu do Futebol.

O italiano Sandro Veronesi, de “O Colibri” (Autêntica Contemporânea, 2024) e “Setembro Negro” (idem, 2025), retorna ao país após uma participação de destaque na FLIP, agora para lançar “Caos Calmo” (idem, 2026), romance vencedor do prêmio Strega — leia um trecho do livro aqui. Célebre autor de “Revolução das Plantas” (Ubu, 2019), o botânico italiano Stefano Mancuso vem lançar “Fitópolis” (idem, 2026), sobre como nossos parceiros do mundo vegetal podem inspirar uma nova organização das cidades.

A feira vem crescendo de maneira exponencial a cada edição. Esperamos que este ano o público vai ser ainda maior

O conflito entre Israel e Palestina segue em pauta , desta vez com o professor e pesquisador americano Norman Finkelstein, que fala do livro “A Indústria do Holocausto” (Autonomia Literária, reedição 2026). E, poucos dias antes da Copa do Mundo, o futebol também dá as caras. Autor da coletânea de crônicas “Libertadores da América” (Pinard, 2026), o jornalista argentino Alejandro Droznes debate com o historiador Fabio Luis Barbosa sobre futebol e a história da América Latina. E, além das tradicionais partidas futebolísticas protagonizadas por autores e autoras da Feira, haverá uma mesa com Daniel Furlan e Caito Mainier, do humorístico esportivo Falha de Cobertura.

Entre as presenças nacionais, nomes consagrados da literatura brasileira, como Ana Maria Machado, Nei Lopes e Silviano Santiago, dividem espaço com escritores de destaque no cenário contemporâneo — Jefferson Tenório, Giovana Madalosso, Mariana Salomão Carrara, Carla Madeira e muitos outros —, além de autores como Maria Brant, que estreia na literatura com “O Ano do Cometa” (Fósforo, 2026) — leia um trecho aqui —, e Ian Uviedo, um dos mais jovens da seleção, cujo lançamento mais recente é “Computer Love” (Lote 42, 2025).

Os solitários três dias úteis entre o final de semana e o feriado também terão alguns eventos de peso. Na segunda (1), quem encerra o dia é o autor norte-americano Charles Duhigg, conhecido pelo best-seller “O Poder do Hábito” (Objetiva, 2012), que bate um papo com o público no Palco da Praça. Já na quarta (3) pré-feriado, os presentes poderão assistir, no mesmo palco, a uma sessão pocket do concorrido espetáculo “O Céu da Língua” com Gregorio Duvivier. Além disso, ele lança o livro “Aos Pés da Letra” (Companhia das Letras, 2026) — leia um trecho aqui — e participa mais cedo de uma edição especial ao vivo do podcast Calma Urgente!, com Bruno Torturra e Alessandra Orofino.

Temos um número de leitores que está regredindo, e tudo isso que a gente vê são estratégias de guerrilha dos editores e livreiros para que editar e publicar livro no Brasil ainda seja uma coisa viável

A Feira também intensifica um movimento que já vem acontecendo nos últimos anos: a gravação direto do evento dos episódios de alguns dos podcasts mais populares do país, como o próprio Calma Urgente!; o 451 MHz, da Quatro Cinco Um; o Foro de Teresina, da revista Piauí; e o Rádio Companhia, da Companhia das Letras. “Identificamos uma afinidade muito grande do leitor com podcasts. Eu acho que quem lê muito, inclusive, ouve muito podcast”, aponta Werneck.

O diretor do evento também destaca a presença de iniciativas como clubes do livro e o Mapa de Livrarias de Rua de São Paulo, que reúne 37 estabelecimentos espalhados pela cidade — estratégias que, assim como as feiras literárias, buscam manter viva a leitura e a cultura literária no país.

“Não estamos investindo peso suficiente no livro. Temos um número de leitores que está regredindo, e tudo isso que a gente vê são estratégias de guerrilha dos editores e livreiros para que editar e publicar livro no Brasil ainda seja uma coisa viável. Eu acho que a gente precisa investir mais, e não só por parte do governo, mas da iniciativa privada também”, declara Werneck, que reforça o caráter transformador do evento. “Fazer algo desse tamanho ao ar livre é extraordinário. Não é banal tirar carros da rua em São Paulo, e isso é uma coisa que a gente tem que celebrar e ocupar, porque senão, os carros voltam ou algum outro projeto de futuro acaba ocupando.”

Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, este ano a Feira tem patrocínio do Mercado Livre, da Motiva, da Prefeitura de São Paulo, e apoio do Pinheiro Neto Advogados, Instituto Ibirapitanga e enjoei.

logo feira do livro 2026

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