COLUNA

Fernando Luna

Ah, você teria um tempinho para relaxar?

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre os onipresentes fones de ouvido, uma missa rezada pra ateus, as alegrias da vitória e da derrota e uma seleção de heterônimos de Fernando Pessoa

03 de Agosto de 2026

Ah, você teria um tempinho para relaxar um pouquinho em meio à sua correria?
Mary Oliver, 2008
Antologia Profética

Cometi o desatino de sair por aí sem fones de ouvido.

Não foi por querer. Peguei os aparelhinhos com a força do hábito. Encaixei nas orelhas sem pensar, como se fossem uma extensão do meu corpo – até porque se tornaram mais ou menos isso, a exemplo dos óculos que me acompanham desde a infância por todo canto.

Tavam sem bateria. Amaldiçoei o momento em que aposentei meus fones com fio, sempre prontos pra vibrar meus tímpanos, mas agora perdidos pra sempre em algum fundo de gaveta.

Resignado, fui pra rua todo ouvidos.

Estranhei escutar o “bom-dia” do vizinho e a algazarra das maritacas antes mesmo de cruzar o portão do prédio. A essa altura, já estaria enredado num podcast qualquer, transportado pros incêndios na Europa, pra praia em Ceuta ou pra onde quer que o falatório me levasse.

Dessa vez, mantinha atenção plena ao que acontecia ao redor.

A rua tava viva de novo. O vigia contava pro colega a dura que tomou da polícia, a moça garantia à amiga que “agora consigo controlar minha mente”, os dois cachorros levavam a menina pra passear, o ronco do Kadett tunado soava como um Porsche gripado. Tudo aqui e agora.

Talvez essa disponibilidade tenha encorajado uma senhora a me perguntar como chegar ao metrô. Fazia tempo que o isolamento dos fones tolhia qualquer interação casual.

No máximo, trocava um aceno com um conhecido que cruzasse meu caminho, também ele encerrado em seu próprio mundinho sonoro. E seguíamos sem saber das novidades da vida um do outro, mas sabendo mais do que gostaríamos sobre a vida dessas figuras que ocupam o noticiário.

É como se na economia da atenção nem um segundo pudesse ser desperdiçado em devaneios, nem mesmo no trajeto até a padaria.

Em vez de ouvir notícias, cursos, entrevistas, aulas magnas e debates, vou dar atenção a Mary Oliver: “Ah, você teria um tempinho para relaxar um pouquinho em meio à sua correria?”. Tenho, sim.

A lucidez alucina
Orides Fontela, 1996

Minha pousada na Flip batizou cada quarto com o nome de um escritor.

Imaginei ficar num solar Jorge Amado ou, quem sabe, num praiano João Ubaldo Ribeiro. Sobrou pra mim o Dostoiévski. Tem coisa menos beira-mar que tormentos de romancista russo?

Mas o céu azul e o cheiro de mar me salvaram de sonhos agitados entre machadinhas e velhas agiotas.

*

Paraty tava cheia? Tava. Há umas dez Flips é assim.

O número divulgado oficialmente bateu 40 mil visitantes. Como a população local, diz o IBGE, é de 45 mil habitantes, essa estimativa de turistas parece exagerada.

Afinal, que cidade dobraria sua população sem entrar em colapso?

Tirando um apagão, que não chega a ser novidade, funcionou razoavelmente bem. Ou melhor, inflacionadamente bem: preços épicos.

*

A festa cumpriu bem cumprida a missão de divulgar Orides Fontela, a maior poeta brasileira que ninguém conhecia.

Atenção, porém, com a clareza metafísica de seus versos: “A lucidez alucina”, adverte na epígrafe de seu último livro, “Teia”.

*

O silêncio é insuportável pra alguns.

Nos debates com escritores estrangeiros, a dinâmica da tradução simultânea acaba produzindo alguns segundos de silêncio entre uma fala e outra.

É o suficiente pra alguém ansioso puxar palmas e preencher o vazio.

Pronto, a mesa tá arruinada: a partir daí, absolutamente qualquer platitude será aplaudida com grande entusiasmo.

*

Nunca vi tanto ateu numa igreja.

O poeta português José Tolentino Mendonça, também cardeal de alta patente no Vaticano, rezou uma missa e atraiu uma multidão fiel à literatura — pela primeira vez, o crítico literário George Steiner foi citado numa homilia.

*

Ainda tive a alegria de mediar a mesa “Nunca crer no que não canta”, com o poeta Leonardo Gandolfi e a escritora Mateus Baldi. Sou suspeito, mas se fosse você dava uma espiada no YouTube da Flip.

Só o mistério nos faz viver. Só o mistério
Federico García Lorca, 1934

O que é melhor: o Brasil ganhar ou a Argentina perder?

*

Futebol é “cosa mentale”.

A catimba argentina entrou na cabeça dos espanhóis no final da prorrogação. O tiki-taka desandou por uns minutos. Parecia que era La Roja quem tava atrás do placar e jogava com um a menos.

Se fosse pros pênaltis, sei lá, os hermanos levavam.

*

Messi aos prantos em sua despedida copeira quase me fez lamentar a derrota argentina. Aí lembrei das botinadas e socos de Enzo Fernández e Paredes.

*

O melhor meme da Copa nem foi um meme propriamente dito.

Foi a inacreditável foto de Messi dando banho de banheira no bebê Yamal, 19 anos antes dos dois protagonizarem uma final de Copa do Mundo.

Quais as odds disso acontecer, como diria um comentarista da CazéTV? Nenhuma IA é capaz de concorrer com o absurdo da realidade.

Como escreveu o poeta espanhol Federico García Lorca, “Só o mistério nos faz viver. Só o mistério”.

*

Ronaldinho Gaúcho amplia seus rolês aleatórios, dessa vez ao lado de Madonna e Ronaldo Fenômeno. Dureza ver os dois craques no estádio de uma final, com os números 9 e 10 estampados às costas.

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E Donald Trump foi mais vaiado que pausa de hidratação.

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A disputa pelo terceiro lugar costuma ser um soporífero ASMR.

Ou, na melhor das hipóteses, um Desfile das Campeãs no Carnaval carioca: não vale nada, mas é bonito de ver.

Mas a Inglaterra enfiou 6 a 4 na França e voilà: a melhor pelada da história do futebol.

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Como diria Humphrey Bogart pra Ingrid Bergman, nós sempre teremos Vozinha.

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A Fifa estuda elevar de novo o número de seleções no torneio, agora de 48 para 64. O álbum de figurinhas da Copa vai ter que ser vendido em dois volumes.

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O Brasileirão voltou e na quarta o Flamengo joga com a Chapecoense. Talvez eu sofra um choque anafilático.

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A vida pode voltar ao normal. Mas só até 16 de agosto, quando começa a campanha eleitoral. Nessa o Brasil não pode perder.

Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena
Fernando Pessoa, 1921

Semana passada festejei aqui mesmo uma pequena vitória diante da derrota do Brasil: ficaria livre da tevê, faria um detox de futebol.

Falhei miseravelmente.

Continuo grudado na tela, como a menininha de “Poltergeist: o fenômeno” – fenômeno sobrenatural, não nosso saudoso camisa 9. De modo que o leitor perdoe minha insistência: a melhor Copa de todos os tempos tá quase acabando.

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Tento torcer contra a Argentina, mas o Messi não deixa. Mbappé é minha última esperança.

Aliás, o tempo provou que o meia brasileiro Bruno Guimarães tá entre os grandes: perdeu pênalti no mata-mata, como Messi e Mbappé.

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Atenção, turma do contra tudo isso que tá aí: acabou o álibi.

Bandeira do Brasil pendurada na janela de casa voltou a ser suspeita, suspeitíssima.

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Será que essa gente que sonha com um Bolsonarismo sem Bolsonaro vai tentar emplacar um Neymarismo sem Neymar? Fica esperto, Ancelotti.

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Falando em esperteza, suíço tem que ser bonzinho. Difícil jogar contra o ethos nacional.

O atacante helvético Embolo foi dar uma de malandro sul-americano, fingiu levar uma botinada e acabou expulso por simulação. Enganou o árbitro, não o VARgentino.

*

A eliminação de Portugal tirou da Copa o time que parecia uma seleção de heterônimos do Fernando Pessoa.

Olha a escalação: Bernardo Silva, Nuno Mendes, João Cancelo, Bruno Fernandes, Francisco Trincão. Todos devem ter versos inéditos em algum baú perdido pelo poeta.

Responda rápido: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” é do centroavante Gonçalo Ramos ou de um certo escritor desassossegado?

*

Todo brasileiro se sentiu um pouco torcedor do Botafogo nessa Copa. Tentamos nos iludir com os lampejos de um time que já foi grande, verdade, mas faz tempo.

*

Algum pesquisador precisa convocar Saussure, Peirce e Barthes e estudar a semiótica daqueles videozinhos que apresentam os jogadores antes das partidas. Tá tudo ali, repara só.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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