COLUNA

Círculo de Poemas

Ser ilha entre ilhas

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, analisa “Ínsulas”, de Dalila Teles Veras

13 de Março de 2026

Quanto do que somos é determinado pelo lugar em que nascemos, pelo lugar em que vivemos anos decisivos de nossa formação? Os poetas sempre se inquietaram com essa questão e, de muitos, se pode dizer que escreveram poesia apenas para tentar respondê-la: você sai de um lugar, mas esse lugar não sai de você? Na verdade, nosso lugar no mundo é sempre mais que um endereço. O que você vive ali fica no seu temperamento, no seu olhar para a vida, no seu ritmo, no seu jeito de usar a língua. Na sua forma particular de olhar para tudo que existe em volta, para além dali, para além do “meu lugar” (um salve para o eterno Arlindo Cruz!). Vale para o Drummond e sua Itabira (“Alguns anos vivi em Itabira./ Principalmente nasci em Itabira./ Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro./ Noventa por cento de ferro nas calçadas./ Oitenta por cento de ferro nas almas./ E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação”), assim como para o Mano Brown e o extremo sul da Zona Sul (“Da ponte pra cá antes de tudo é uma escola/ Minha meta é dez, nove e meio nem rola”). Mas os exemplos poderiam se multiplicar ao infinito (por todos, temos o “Paterson”, de Williams, que é quase um tratado sobre o tema). Pois bem.

Você sai de um lugar, mas esse lugar não sai de você?

E se seu lugar for uma ilha? Há algo de especial nessas porções de terra cercadas de água? A insularidade: essa é a questão que se coloca a poeta Dalila Teles Veras, nascida da Ilha da Madeira, que veio para o Brasil ainda na infância. Compartilho aqui três poemas da primeira seção de “Ínsulas”, que ela acaba de lançar pelo Círculo de Poemas.

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O eco da ilha esvai-se mar afora e jamais alcança aquela linha tripla de azuis, onde o mar encontra o firmamento.

A melancolia tem sua certidão de nascimento lavrada numa ilha.

As ondas, o sal e o aro à volta sufocam e esganam. Perceber a ilha é o primeiro passo em direção ao cais.

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A Ilha da Madeira é um pedaço do território português que fica no Atlântico, muito mais perto da costa de Marrocos que de Lisboa. O arquipélago tem uma área imensa, quase do tamanho das sete cidades do Grande ABC Paulista (onde Dalila veio viver) juntas, mas no meio do mar. Os leitores já devem ter se deparado com seus topônimos nas biografias de figuras tão diversas quanto Cristóvão Colombo, Herberto Helder, José Tolentino Mendonça ou Cristiano Ronaldo. Ou nos rótulos do vinho Madeira.

Somos apresentados a essa ilha como a um lugar que se carrega por dentro

Na poesia de Dalila, no entanto, somos apresentados a essa ilha como a um lugar que se carrega por dentro. Um lugar do qual se parte, sim, mas que define a forma como será a jornada por onde quer que o ilhéu venha a passar. Num poema chamado “Confidência da madeirense” (do livro “Solidões da memória”, de 2015), a poeta aproximará sua “alma em permanente desassossegar” e as marcas da ilha: a força do vento, a pancada das ondas, o solo vulcânico sobre o qual deu seus primeiros passos. Em “Ínsulas”, ela redesenha com outra intensidade: “As ondas, o sal e o aro à volta sufocam e esganam”.

Na seção final do “Poema sujo” (1975), escrito durante o exílio justamente para revisitar na memória a sua cidade natal, Ferreira Gullar escreve três versos que são um escândalo de beleza e exatidão: “a cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa”. Com a mesma imagem, podemos dizer: a poesia de Dalila traz a ilha em si como um pássaro traz para o voo a árvore de que partiu. Ou melhor: a ilha se desloca (se “des-ilha”) em cada ilhéu que parte, mas cobra o preço de fazer dele, ilhéu, uma ilha onde quer que esteja, com uma espécie de “solidão existencial” insuperável.

Essa é sua desgraça, mas também sua graça: quem carrega a melancolia do isolamento (do ilhado, do insular) como “certidão de nascimento” tem o olhar sempre pronto para escavar as solidões com que havemos de nos deparar durante a vida. Mar afora.

Produto

  • Ínsulas
  • Dalila Teles Veras
  • Círculo de Poemas
  • 40 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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