COLUNA

Círculo de Poemas

Salvação, danação

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, analisa “Bumba meu boi”, de José Carlos Capinan

13 de Janeiro de 2026

Começamos o ano em choque diante do noticiário: o presidente e a primeira-dama de um país da América Latina sendo presos, dentro das instalações militares de seu país, por uma máquina de guerra estrangeira. Bombas, soldados, infiltrados, mascarados, helicópteros, porta-aviões, algemas, agasalho da Nike, pizzas, sirenes e mais sirenes. Parece ficção, parece coisa do passado. Mas tudo é absurdamente real e atual: são as peças do mundo se movendo como nunca pararam de se mover, pelas mesmas razões de sempre: poder, dinheiro, petróleo, tudo sob a capa furada da liberdade e da democracia.

Logo lembrei de “Bumba meu boi”, de José Carlos Capinan, que alegoriza o desencontro entre as necessidades do povo e as riquezas de sua terra, simbolizadas pela carne do boi. Diante da crise, a chegada do salvador: Tio Sam, que vem conduzir uma “negociação” em que “todo mundo vai ganhar”. Parece ficção, parece coisa do passado.

Escritos no início dos anos 1960, os versos foram musicados por Tom Zé e levaram Capinan, um dos grandes nomes da Tropicália, a ter que lidar com um inquérito durante a ditadura. A íntegra da peça está republicada em “Cancioneiro geral (1962-2023)”, obra reunida do poeta baiano, organizada por Claudio Leal e Leonardo Gandolfi, que o Círculo de Poemas lançou em 2024. A seguir, um trecho da parte IV, “Divisão do boi”:

*

Tio Sam
— Com alguns cuidados
vai ser feita a divison
do boi que foi morto
hoje aqui nesta funçon.
tirarei logo o pedaço
que cabe ao seu senhor,
darei também o quinhão
do seu padre e seu doutor
e do nosso capitão.

Povo
— Da parte do povo
não vá se esquecer
que o povo trabalha
e precisa comer.

Tio Sam
— Primeiro eu peço
um peso para o Esso.
O bofe pro Swift
pra vendê-lo como bife,
co’o lápis cê marque:
o couro é da Clarck.

*

Em “Bumba meu boi”, tudo gira em torno de um certo “conflito de interesses” em torno do boi. De um lado, o interesse (nunca atendido) do povo, que tem um nome mais simples e dolorido: fome. De outro, os interesses empresariais e imperiais que incidem sobre a riqueza que o boi representa. No início da peça, somos apresentados à crise, porque os donos do boi não têm condições de explorar como se deve essa riqueza. Eis que surge a salvação estrangeira, com sua peculiar generosidade: “Trago novas maneiras/ de melhorar/ a pecuária brasileira,/ titio querer ajudar”.

O Tio Sam de “Bumba meu boi” é uma figura caricata, quase tão caricata quanto o atual presidente dos EUA. Ele se mostra absolutamente prático e bem-intencionado, capaz de fazer todo mundo ganhar, “patron e populaçon”. Sabe o que é melhor para o vaqueiro, o fazendeiro, o criador, o matador, o açougueiro, o capitão, o padre, as empresas transnacionais e, claro, o povo: “Vão se acabar os problemas/ desta infeliz naçon,/ os nossos frigoríficos/ são a melhor soluçon”. Ainda que ele tenha alguma dificuldade para ouvir a voz do povo, clamando por sua parte na divisão do boi: “Da parte do povo não vá se esquecer./ Que o povo trabalha e precisa comer”.

Na divisão, Tio Sam sabe precisamente a quem reservar a carne, o couro, a língua, a banha, os ossos, as tripas, os chifres, os miolos, até mesmo a coragem e a consciência do boi. Nada fica fora do alcance do seu olhar, do seu facão, da sua “soluçon”. No entanto, quando as partes do boi se dispersam, o povo logo constata que a promessa de que tudo ia melhorar não vai se cumprir: “A carne que era cem/ já nos custa quatrocentos”. Talvez por isso, “Bumba meu boi” termina ecoando a palavra “revolução”.

Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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