COLUNA

Círculo de Poemas

Poesia nas coisas

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, analisa “As Coisas Frágeis”, de Laura Wittner

11 de Fevereiro de 2026

Um dos poemas mais famosos da história — “O Carrinho de Mão Vermelho” — diz o seguinte: “tanta coisa depende/ de um// carrinho de mão/ vermelho// esmaltado de água de/ chuva// ao lado das galinhas/ brancas” (trad. José Paulo Paes). Com essas poucas palavras, William Carlos Williams (1883-1963) não apenas montou um objeto que, há mais de um século, se presta a infinitas interpretações, mas também fixou os termos de uma revolução na poesia. No gesto rápido dos versos dedicados a uma cena trivial, num quintal entre tantos, Williams ensinou que o empenho da poesia, num mundo saturado de discursos, deve se aproximar do olhar fotográfico: captar, mostrar, dar a ver.

Em vez de se impor ao leitor e ao mundo (ou se interpor ostensivamente entre o leitor e o mundo), o poeta apenas apresenta, na página, o que colhe da paisagem (exterior e interior, real ou imaginária). Objetivamente. É como se ele nos dissesse que o poema não leva poesia até o leitor, mas apenas movimenta, diante dele, objetos que, por si só, são capazes de despertar a poesia que já está lá, entre suas sensações, ideias, memórias. E isso não significa transformar os poetas em simples “descritores”, que apenas anotam os dados superficiais da experiência. A lição radical de Williams é, no fundo, a reinvenção do olhar (do poeta, do leitor) desde o “insignificante”, fazendo vibrar, no ínfimo, os sentidos mais intensos, para que, à medida que a atenção se erga em direção à complexidade do mundo, ela seja capaz de flagrar, sempre com a mesma intensidade, o que a vida diz.

*

As Coisas Frágeis

A caneta-tinteiro com que escrevo caiu no chão e quebrou.
É a única caneta que me entende.
Era do meu sogro, que também me entendia
e está morto e se não estivesse
de qualquer forma já não seria meu sogro.
Passamos cola, voltei a usá-la
com os dedos suaves de terror
sobre suas rachaduras coladas. Caiu de novo.
Continuo usando mas agora
tem também um buraco no azul
por onde se vê a carga.
Costumava me acompanhar por todo canto.
Não tiro mais ela de casa.
Continua me entendendo.

*

Cada um dos objetos que nos cercam — o que ganhamos de presente, o que compramos numa viagem, o que trazemos da família, tudo que decidimos não descartar — conta uma história. Em torno de um carrinho de mão vermelho ou de uma caneta-tinteiro, de uma mesa herdada ou um jogo de copos, agitam-se algumas das percepções e memórias mais significativas, mais intensas e duradouras, de que somos constituídos.

No poema “As Coisas Frágeis”, a poeta argentina Laura Wittner divide conosco um desses objetos decisivos de sua vida: uma caneta-tinteiro que pertencia ao ex-sogro. Na fragilidade da caneta, quebrada, colada, rachada, esburacada, é o próprio sujeito do poema que se revela, também precariamente restaurado após as quedas da vida.

É por isso que poeta e caneta se entendem, ou melhor, é esta a razão pela qual ela, que diz que a caneta a entende, se entende na caneta, através da caneta, tanto pelos sentidos existenciais que esse objeto carrega, quanto pela relação que ali se estabelece com a própria escrita, com a materialidade de uma escrita feita com “dedos suaves de terror”. O sogro também a entendia, mas ele morreu, assim como o relacionamento (“de qualquer forma já não seria meu sogro”). A caneta — memória do vivido, possibilidade de criar — é tudo o que fica quando tudo está se quebrando, se desfazendo, por dentro, por fora.

“As Coisas Frágeis” faz parte do livro “Tradução da Estrada”, lançado pelo Círculo de Poemas em 2023, em tradução de Estela Rosa e Luciana di Leone. Escritora e tradutora, Wittner abre em cada poema uma pequena fresta para o universo de alguém que trabalha entre palavras, lendo, escrevendo, traduzindo. Dialogando com o parêntese-síntese de Williams no poema “Uma espécie de canção” — “(Ideias/ só nas coisas)” —, Laura Wittner escreveu o poema “Williams e eu”: “Que não existam ideias a não ser nas coisas;/ mas enchi as coisas de ideias/ até deixá-las tão esticadas/ que viram pó/ se esbarro nelas com um dedo”. Que esses poemas consigam deixar tão intensas as coisas frágeis de que a vida é feita, a coisa frágil que a própria vida é: eis o mistério da poesia!

Produto

  • Tradução da Estrada
  • Laura Wittner
  • Círculo de Poemas
  • 80 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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